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A bravura das mães da saúde

A bravura das mães da saúdeFoto:

A médica infectologista Marli, de branco, com mães e colegas no Hospital Santa Lúcia

Correioweb - 10/05/2020 - 11:11:28

Médicas, enfermeiras, fisioterapeutas, técnicas e outras profissionais que atuam em hospitais, postos de saúde e unidades na linha de frente contra o coronavírus são heroínas de jaleco. Elas se dividem entre a missão de ajudar os pacientes e o receio de contaminar os filhos e familiares. Essas mulheres se arriscam todos os dias e são dignas da maior gratidão

Profissional da saúde e mãe

Na data que homenageia a maternidade, o caderno Trabalho & Formação Profissional conta histórias de mulheres que estão na linha de frente contra o coronavírus e precisam lidar com o receio de adoecer os filhos pequenos

» Ana Lídia Araújo*

A médica infectologista Marli, do Hospital Santa Lúcia (Grupo Santa Lúcia/Divulgação)
A médica infectologista Marli, do Hospital Santa Lúcia



Este Dia das Mães é um pouco diferente do convencional. Devido às medidas de isolamento e distanciamento social, em muitas casas, a comemoração será feita a distância, e o beijo amoroso terá que ficar para depois. Em outras, apesar de a família estar reunida, existe a preocupação de não sair de casa, quebrando a tradição daquele almoço no restaurante preferido nesta data. As delícias e as dores da maternidade ganharam outra cara durante a pandemia. É normal se preocupar com os filhos e, agora, essa preocupação se intensifica.


O medo de que os descendentes se contagiem com a covid-19 pode ser angustiante. Ainda mais para mulheres que, por causa da profissão, atuam na linha de frente contra a doença. Médicas, enfermeiras, fisioterapeutas, farmacêuticas, biomédicas, técnicas e outras trabalhadoras da saúde enfrentam esse dilema. A culpa materna torna-se uma carga ainda mais cruel para as que têm crianças pequenas, pelo temor de elas próprias serem o fator de transmissão do vírus.


“Existe muita ansiedade, algumas desenvolvem um quadro depressivo que atrapalha o sono, a alimentação. Elas ficam o tempo inteiro submetidas ao medo de adoecer e não poder cuidar dos filhos ou passar para eles”, afirma o psiquiatra Fábio Aurélio Costa Leite, formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Muitas também lidam com receito de contagiar outros familiares, como pais idosos, que, não raro, moram com elas. “Temos mães que protegem os filhos e, claro, há filhas que tentam proteger as mães.”

Cuidar da saúde mental

No Hospital Santa Lúcia, além de atender a pacientes em consultas, o psiquiatra Fábio Aurélio presta assistência a profissionais que ali trabalham. “Existe uma assistência preventiva, e, em cima disso, essas colaboradoras são acompanhadas de acordo com a resposta da primeira sessão”, relata. Para ele, esse tipo de ação deveria existir em todas as instituições de saúde. “O que estamos vivendo mexe muito com o psicológico, e isso tem sido deixado de lado. Há casos em que a imunidade baixa, e a paciente fica ainda mais vulnerável a um quadro infeccioso”, justifica.


Ao contar para os filhos que está trabalhando em contato com o vírus e, por isso, pode ser que o distanciamento seja maior dentro de casa, o médico aconselha explicar que o trabalho envolve cuidar de outras pessoas, que precisam de ajuda. “A criança vai entender que o serviço da mãe é ajudar. Por isso, ela não está tão presente”, observa. “E dá para tentar minimizar essa ausência, ligando, conversando e brincando dentro do possível”, sugere.


Para acalmar o coração das mamães, ele destaca que reconhecimento é fundamental, tanto da parte dos gestores do hospital, quanto dos próprios filhos. “Isso é algo que nem todas as pessoas têm noção da importância. Todos os dias, essas mulheres estão se expondo e, todos os dias, merecem gratidão”, defende.


*Estagiária sob supervisão da subeditora Ana Paula Lisboa


Meu desabafo

Três mães e trabalhadoras da saúde contam como estão vivenciando a pandemia

Ana Lúcia (de branco) com as filhas, Lívia e Natália, e a mãe, Maria (Fotos: Arquivo Pessoal)
Ana Lúcia (de branco) com as filhas, Lívia e Natália, e a mãe, Maria


Noites de coragem

Mãe e técnica em enfermagem, Ana Lúcia Zumba, 46 anos, trabalha em turnos noturnos, lidando com pacientes infectados pelo coronavírus. Ao chegar a casa pela manhã, antes de abraçar as filhas, Natália Paula Zumba de Moura, 26, e Lívia Maísa Zumba de Moraes, 10, precisa passar por todo um processo de higienização.


Além das duas filhas, Ana Lúcia mora com a mãe, Maria Fátima da Costa, 64, que faz parte do grupo de risco. "Eu fico sempre com o coração partido, porque tenho medo de contaminá-las. Por isso, só depois do banho, vou conversar, dar um beijo e um cheiro nas minhas filhas e na minha mãe", relata.


Lívia, a caçula, tem um pouco mais de dificuldade em aceitar a situação. Ana explica com calma que, se os casos aumentarem, terá que evitar ainda mais o contato direto, e a menina acaba chorando. "Apesar de ela ter uma cabecinha bem aberta, é muito carinhosa quando eu chego do serviço. Ela quer ficar sentada no meu colo, beijando, cheirando. Quando começo a conversar, a Lívia chora. Meu coração fica bem apertadinho mesmo", revela.


A técnica é funcionária do Hospital Daher há oito anos. Atualmente, trabalhando no centro cirúrgico, recebe pessoas infectadas pela covid-19 quando algum procedimento é necessário. Ao saber que trabalharia frente ao vírus, Ana Lúcia ficou receosa. "Fiquei com muito medo, confusa e sem ao menos saber como lidaria com esses pacientes", conta.


Após o plantão noturno entre sábado (9) e hoje, Ana Lúcia estará em casa para passar o Dia das Mães com as filhas. Um dia reconfortante com a família, depois do longo plantão de coragem.

A médica Marli com a filha, Gabriela, 4: lidar com a doença sem medo
A médica Marli com a filha, Gabriela, 4: lidar com a doença sem medo


Cuidando do próximo

A médica infectologista Marli Rosane Sartori, 39 anos, lida com o coronavírus diariamente no Hospital Santa Lúcia, trabalhando entre a enfermaria, o setor cirúrgico e a avaliação de pacientes. Formada pela Escuela Latinoamericana de Medicina (Elam), em Cuba, Marli se especializou em infectologia em residência no Hospital Universitário de Brasília (HUB). A médica assume a profissão com bravura. Apesar da apreensão, Marli diz não ter receio da atividade.


Pelo contrário, ela quer estar na linha de frente. “Essa é a mensagem que eu passo para os meus colegas: não tem que ter medo, estamos aqui para ajudar”, afirma. Desde o início, Marli e o marido, que também é médico, explicam para a filha Gabriela, 4, sobre a pandemia e os cuidados que precisam ser tomados. É difícil dizer qual das duas é mais destemida, a mãe ou a filha. “Ela sabe que, quando nós chegamos em casa, não pode nos abraçar logo”, conta.


“Não sem antes os passos de higienizar as mãos, tomar banho, trocar de roupa. Ela está acostumada e entende que é por causa do coronavírus”, diz. Marli acredita que, talvez por ter acesso frequente aos novos estudos sobre a covid-19, não se apavora. “Nós sabemos que o impacto nas crianças é mínimo. Então, com relação a ela, é tranquilo”, assegura. De qualquer forma, o distanciamento social não é fácil, ainda mais para os pequenos, que não podem brincar com os amigos, como era de costume para Gabriela.


“Eles sofrem e nós, pais, sofremos juntos. No entanto, colocando na balança, isso é o mínimo diante do sofrimento que outras pessoas estão sentindo ao perder familiares”, complementa. Neste momento, Marli lembra que o país precisa ainda mais de médicos ativos. Diante das responsabilidades, o casal não pôde dispensar a babá, que recebeu todas as orientações para garantir a própria segurança e a da criança, além de ajuda extra para poder ir trabalhar de carro.

Pollyanna com os filhos, Manuella, 1, e Asafe, 8
Pollyanna com os filhos, Manuella, 1, e Asafe, 8


Amor aos filhos e à profissão

No Centro de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), em Goiânia (GO), Pollyanna Brito, 32 anos, faz atendimento fisioterapêutico aos pacientes clínicos tanto da unidade de terapia intensiva (UTI) quanto do posto de internação de enfermagem. Esse tratamento é essencial para quem está em ventilação mecânica e na recuperação para voltar a respirar sozinho, por exemplo.


Os primeiros dias da pandemia não foram nada fáceis. Ela conta que sentiu vontade de desistir, principalmente por causa dos filhos. O incentivo para continuar veio do amor pela profissão. “Eu amo ser fisioterapeuta, contribuir com a melhora do paciente, ajudar e saber que meu trabalho traz um benefício. Isso é muito gratificante”, relata a fisioterapeuta formada pela Universidade Salgado de Oliveira.


Pollyanna é mãe de duas crianças, Manuella, 1, e Asafe, 8. A preocupação é maior pelos dois filhos, que têm bronquite e se classificam como grupo de risco, e pelo marido, hipertenso. “A gente fica com o coração apertado pensando na família. A mãe não para de pensar no filho”, desabafa. A hora mais difícil é a chegada em casa, quando os pequenos querem recebê-la com carinho.


A menor, Manuella, ainda é muito nova para entender que é preciso que a mãe se higienize antes de poder dar atenção. “Escutar ela chorando enquanto tomo banho é mais complicado ainda”, confessa Pollyanna. O primogênito, que compreende melhor a profissão da mãe, chega a pedir que ela não vá trabalhar. “Ele fica assustado e triste com tudo isso. Pede para voltar para a escola e diz que não quer mais ter aula on-line”, diz.


“Criança fica angustiada de ficar dentro casa, ainda mais ele, que estava acostumado a sair para brincar, ver os colegas e aí, de repente, passa a ter outra rotina”, diz. Somente a higienização antes de partir para o abraço na família não é o suficiente para deixar a preocupação de lado. A fisioterapeuta desenvolveu transtorno de ansiedade por ter que encarar o vírus ao mesmo tempo em que precisa estar atenta para não se contaminar no trabalho e levar a infecção para casa.


Na última semana, Pollyanna apresentou alguns sintomas, como dor de cabeça e nas costas, espirros e início de congestionamento nasal. A médica que a acompanha solicitou o teste para coronavírus, ao qual ela ainda será submetida. “Fico com receio de estar contaminada sem saber e trazer alguma coisa para casa.” O que reconforta é a esperança de que o dia em que os abraços poderão ser dados com mais tranquilidade chegue logo.

Palavra de especialista

 (FGV/Divulgação)


“Cientificamente falando, ainda não temos taxa de incidência ou novos casos relacionados aos familiares de profissionais da saúde. Hoje, a infecção já se tornou comunitária e, neste estágio, não conseguimos mais identificar como e de onde surgiu a contaminação.


Nos hospitais, há todo um protocolo a ser seguido por quem deu assistência a um paciente com covid-19. O profissional faz a higienização no local e toma banho com os produtos que a instituição oferece. O ideal é que, ao chegar a casa, tome os mesmos cuidados.


A máscara usada durante a locomoção para o lar deve ser higienizada e, quando utilizado o transporte público, o profissional não deve entrar em casa com a mesma roupa e os mesmos sapatos da rua.


A principal dica para os cuidados com as crianças é respeitar o isolamento social. O mais perigoso é ter contato com pessoas acima de 60 anos ou com comorbidades, como hipertensão, diabetes etc.


A taxa de mortalidade em criança é muito baixa, sendo a infecção, na maioria das vezes, assintomática. Os cuidados de higiene são os mesmo da rotina. O profissional da saúde precisa estar consciente a respeito da doença, porque, caso apresente algum sintoma, deverá imediatamente procurar o serviço de saúde.”

Patrícia Pousa, professora na pós-graduação do Institute Business Education (IBE) da Fundação Getulio Vargas (FGV), enfermeira, mestre e doutoranda em saúde coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), com MBA em saúde e gestão de pessoas pela FGV.

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