×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 26 de outubro de 2021

A contradição entre recordes no agronegócio e fome no Brasil

A contradição entre recordes no agronegócio e fome no BrasilFoto: Governo do Mato Grosso

Desmonte de políticas para agricultura familiar contribui para insegurança alimentar, apontam especialistas

Por João Pedro Soares - Brasil De Fato Com Dw - 13/08/2021 - 10:15:30

Após ter deixado o mapa da fome da ONU em 2014, o Brasil tem convivido com um cenário de crescente insegurança alimentar.

Nos últimos meses do ano passado, 19 milhões de brasileiros passaram fome, e mais da metade dos domicílios no país enfrentou algum grau de insegurança alimentar. Os dados são de um estudo nacional realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

O problema tem diversas justificativas, como a inflação que afeta gêneros alimentícios básicos desde o ano passado, o alto índice de desemprego no país e a defasagem do Bolsa Família. Chama atenção, entretanto, que o crescimento da fome no Brasil coincida com um pico na exportação de gêneros alimentícios.

Em junho, o agronegócio bateu mais um recorde ao faturar 12,11 bilhões de dólares com a venda de produtos agropecuários para o exterior. A cifra é 25% maior que os 9,69 bilhões de dólares registrados no mesmo mês do ano passado. A marca recorde também fora superada nos meses de abril e maio.

O centro de pesquisa Agro Global, ligado ao Insper, estima que as exportações do setor devem alcançar 120 bilhões de dólares neste ano, 20% a mais do que em 2020. Tendo se tornado um “fiador” da balança comercial, a agropecuária se tornou o setor mais importante da economia nacional, em processo de desindustrialização desde os anos 1980.

Embora integre a cadeia produtiva do país, o agronegócio é um mercado dominado globalmente por um seleto grupo de multinacionais. Juntas, as empresas ADM, Bunge, Cargill e Louis Dreyfus controlam 70% da produção, comercialização e transporte de produtos agrícolas. O setor é marcado por sucessivas fusões entre grandes marcas, que aumentam a concentração dos mercados de sementes, agrotóxicos e terras.

Demanda internacional

Nessa configuração, o foco do agronegócio está no atendimento da demanda global por commodities, que vivem um boom de preços. Os resultados expressivos alcançados pelo setor no Brasil se justificam também pela desvalorização do real, que torna os produtos mais competitivos no exterior.

"Como uma economia capitalista agrícola globalizada que produz commodities, o agronegócio vende para qualquer mercado que puder comprar. Hoje, a população não consegue comprar arroz porque o compromisso econômico do agronegócio é com o mercado internacional", critica o geógrafo Ricardo Gilson, professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

O arroz, lembrado pelo pesquisador, é um dos itens básicos da rotina alimentar dos brasileiros que mais foi afetado pela inflação, chegando a registrar 70% de aumento nos preços ao longo de 12 meses.

Para o agrônomo Silvio Porto, ex-diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e professor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), a principal causa do desequilíbrio no preço do arroz foi o aumento extraordinário da demanda internacional.

"A maioria dos produtores não tem capacidade de armazenagem, e fica dependente da indústria processadora. Para esse setor, não faz diferença vender internamente ou exportar. Resultado: mais de 13% da safra foi para o exterior, gerando esse efeito interno", explica.

A tese de que as exportações têm efeito inflacionário dentro do Brasil é rejeitada por Bruno Lucchi, diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), entidade que representa o agronegócio.

"A exportação não compete com o mercado interno. O problema do custo alto dos alimentos hoje é mundial, devido à alta dos insumos e problemas climáticos severos, como a seca. A venda para o exterior permite que os produtores não aumentem o preço internamente, por compensar as perdas", comenta.

"Celeiro do mundo" x insegurança alimentar

Em participação no Congresso Brasileiro do Agronegócio, em 2018, o então representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, afirmou que o país tem condições para ser o “celeiro do mundo”. Atualmente, o Brasil é o maior exportador de carne bovina e o segundo maior exportador de grãos no mundo.

Internamente, no entanto, a participação do agronegócio na garantia da segurança alimentar é limitada. Embora seja responsável pela maior parte da produção de gêneros alimentícios que integram a rotina alimentar das famílias brasileiras, como carne bovina, milho, arroz e trigo, não há reservas destinadas ao mercado nacional.

Embora movimentos sociais ligados ao campo afirmem que a agricultura familiar responde por 70% dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros, o dado é de difícil mensuração, segundo especialistas. Mesmo assim, a importância desse segmento produtivo para a segurança alimentar no país é incontestável.

Dados do Censo Agropecuário 2017-2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a participação da agricultura familiar na geração de receitas no campo foi de 23% do total, percentual inferior aos 38% aferidos pelo mesmo estudo em 2006.

Mesmo enfraquecido, o segmento teve contribuição relevante na produção de hortaliças, frutas e legumes, como alface (64,4%), banana (48,5%) e mandioca (69,6%), além do leite de vaca (64,2%).

Agricultura familiar já sofria antes da pandemia

Embora o aumento da fome tenha relação direta com os efeitos econômicos da pandemia, a situação já vinha se agravando nos últimos anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a insegurança alimentar grave estava presente no lar de 10,3 milhões de brasileiros entre 2017 e 2018.

O período analisado reflete os impactos de mudanças nas políticas públicas destinadas à segurança alimentar durante o governo do ex-presidente Michel Temer. Durante seu mandato, entrou em vigor a emenda constitucional que instituiu o teto de gastos públicos.

Nesse contexto, Temer realizou cortes orçamentários drásticos em programas voltados ao incentivo da agricultura familiar reconhecidos internacionalmente. O ex-presidente ainda extinguiu o Ministério do Desenvolvimento Agrário, deixando a agricultura familiar sob o guarda-chuva do Ministério da Agricultura, ocupado por representantes do agronegócio.

Uma das principais políticas públicas voltadas ao incentivo da agricultura familiar foi o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A iniciativa consiste no repasse de recursos da União a estados e municípios para a compra de produtos de comunidades tradicionais. Os alimentos comprados são repassados à rede socioassistencial e aos equipamentos de nutrição destinados a pessoas em situação de insegurança alimentar.

O impacto do PAA foi tamanho que a Organização das Nações Unidas (ONU) o replicou em países africanos. Todavia, junto com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae), o PAA vem sofrendo com sucessivos cortes. Das 297 mil toneladas de alimentos comercializadas por meio do programa em 2012, o número despencou para apenas 14 mil toneladas em 2019, primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro.

Comentários para "A contradição entre recordes no agronegócio e fome no Brasil":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Eis que o sol ajuda ainda mais nas produções agrícolas do DF

Eis que o sol ajuda ainda mais nas produções agrícolas do DF

Por meio de fundo distrital rural, GDF já investiu R$ 1 milhão em projetos de energia fotovoltaica de onze propriedades locais

Brasil oferece novas variedades de melão durante entressafra da Europa

Brasil oferece novas variedades de melão durante entressafra da Europa

A Seminis®, que integra a plataforma Vegetables by Bayer, traz novidades nessa área: são mais de 20 variedades de melões e melancias disponibilizadas comercialmente. Ao todo, o portfólio da empresa contempla mais de 20 diferentes tipos de culturas de hortifrúti comercializadas no Brasil.

Dia da Pecuária reforça importância do setor para o DF

Dia da Pecuária reforça importância do setor para o DF

Bovinos integram grande parte da cadeia produtiva, que inclui ainda outras espécies

Cresce 180% número de produtores da avicultura

Cresce 180% número de produtores da avicultura

Criação de galinhas tem crescido nos sistemas semi-intensivos de produção

Governo Federal publica novas regras para registro de defensivos agrícolas

Governo Federal publica novas regras para registro de defensivos agrícolas

Decreto que altera legislação deve simplificar registro de produtos

Falta de fiscais agropecuários fragiliza inspeção e pode encarecer alimentos ainda mais

Falta de fiscais agropecuários fragiliza inspeção e pode encarecer alimentos ainda mais

Tarefa de reinspeção de produtos importados de origem animal foi assumida em 18 de agosto pela Vigiagro, que atua nas fronteiras

Nova fase de iniciativa Carbono Bayer reúne mais de 1.800 agricultores no Brasil

Nova fase de iniciativa Carbono Bayer reúne mais de 1.800 agricultores no Brasil

Inovação colaborativa

Produtoras rurais do DF aprendem a fazer panetone

Produtoras rurais do DF aprendem a fazer panetone

O curso dá às produtoras rurais uma opção de complementação de renda para o fim do ano, quando esse tipo de pão é mais consumido

Altas produtividades no algodão passam pelo manejo adequado de pragas e doenças

Altas produtividades no algodão passam pelo manejo adequado de pragas e doenças

Manejo começa pela biotecnologia

Por que agricultores e pesquisadores defendem que agroecologia pode sanar a fome no Brasil

Por que agricultores e pesquisadores defendem que agroecologia pode sanar a fome no Brasil

"A agroecologia nos oportuniza pensar e agir, e consequentemente transformar muitas realidades, territórios e vida", afirma a presidenta da ABA

Pequeno agricultor distribui alimentos, mas não tem acesso a dieta saudável, critica ONU

Pequeno agricultor distribui alimentos, mas não tem acesso a dieta saudável, critica ONU

“811 milhões de pessoas passam fome e 2,4 bilhões sofrem insegurança alimentar, enquanto a obesidade e as carências de nutrientes crescem velozmente”, diz o relatório.