×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 18 de janeiro de 2022

A discórdia no governo sobre o futuro da economia

A discórdia no governo sobre o futuro da economiaFoto: Estadão

Entenda as divergências em torno do Plano Pró-Brasil, chamado de 'Dilma 3' pela equipe econômica, e por que ele coloca em xeque a agenda liberal do ministro Paulo Guedes e até seu 'casamento hétero' com Jair Bolsonaro

Estadão Conteúdo - 24/04/2020 - 18:45:13

O “vazamento” do Plano Pró-Brasil - capitaneado pelo ministro Walter Braga Netto , da Casa Civil, com apoio dos ministros Rogério Marinho , do Desenvolvimento Regional, Tarcísio de Freitas , da Infraestrutura, e Bento Albuquerque , das Minas e Energia - escancarou de vez as divergências existentes no governo em relação à agenda liberal do ministro da Economia, Paulo Guedes, especialmente sobre a melhor estratégia para tirar o País da pasmaceira no pós-pandemia.

A divulgação do plano, que está sendo preparado sem o aval da equipe econômica, mas com o apoio do presidente Jair Bolsonaro, deixou evidente que uma ala poderosa da Esplanada dos Ministérios, formada principalmente pelos ministros militares, tem uma visão mais desenvolvimentista e defende uma participação mais ativa do Estado na economia, para turbinar o nível de atividade e o crescimento. Ainda mais agora, com o País mergulhado na recessão. Trata-se de uma posição que causa arrepios na equipe econômica, não apenas pela resistência ao envolvimento estatal na vida das pessoas e das empresas, mesmo em momentos de crise, mas também pelo efeito que a liberação de recursos públicos em profusão, para aliviar os efeitos da pandemia, já terá nas finanças públicas, no comportamento dos juros e no desempenho da economia no médio e no longo prazo.

Neste cenário, qualquer que seja o formato final do plano - que prevê investimentos públicos de R$ 30 bilhões a R$ 50 bilhões, aliados a projetos de concessões e parcerias público-privadas, e até o relaxamento do teto de gastos - o estrago está feito. Sua mera articulação, à revelia da equipe econômica e com a anuência de Bolsonaro, coloca em xeque o papel de Guedes como superministro da Economia, a sua agenda de reformas e talvez até o seu “casamento hétero” com o presidente.

Ao que parece, o papel de Posto Ipiranga, atribuído a Guedes por Bolsonaro na campanha eleitoral, como forma de mostrar a confiança que teria nele, passou por um processo de esvaziamento. Muitos analistas chegam a questionar se Guedes não estaria passando pelo mesmo processo de “fritura” pelo qual outros ministros já passaram, insinuado desde que Bolsonaro adiou o envio ao Congresso das reformas tributárias e administrativa ao Congresso, no final do ano passado.

Privatização

O Plano Pró-Brasil - apelidado de Dilma 3 pela equipe econômica, em razão de sua semelhança com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que drenou bilhões de reais em dinheiro público nos governos petistas e deixou como saldo uma série de obras inacabadas - representa, porém, apenas o capítulo mais recente e talvez o mais quente de um conflito que começou muito antes de sua idealização. Desde o início do governo, surgiram divergências do grupo de Guedes com os ministros Albuquerque e Freitas Gomes, por causa da resistência de ambos à privatização imediata de estatais, como a Valec, a EPL e a Infraero, ligadas ao ministério caso da Infraestrutura, e a Eletrobrás, vinculada ao ministério Minas e Energia. Agora, foi com Rogério Marinho que a contenda “pegou fogo” para valer.

Com a adesão entusiasmada de Marinho ao plano de retomada, a relação entre ambos, que já vinha esfriando há tempos, azedou de vez. Segundo integrantes da equipe econômica, Guedes disse a Marinho, numa mensagem enviada por WhatsApp, que ele “foi desleal” nesta questão. Internamente, batizou o plano, do qual seu ex-secretário teria sido o principal articulador, de “PAC do Marinho”. “Inimigos são pautas-bomba”, afirmou Guedes ao seu pessoal, conforme apurou o Estado.

Desde o ano passado, ele já vinha se queixando de Marinho, trazido por ele para o governo como secretário especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, a amigos e aliados. Embora Marinho tenha desempenhado um papel relevante na aprovação de uma reforma robusta da Previdência, Guedes não o perdoa por ter deixado de lado a proposta de criar o sistema de capitalização para os mais jovens, que em sua visão geraria uma poupança de longo prazo para o País e viabilizaria fartos investimentos com o passar dos anos.

“Velha Previdência”

Na visão passada por Guedes a seus auxiliares mais próximos, Marinho abandonou a ideia da “nova Previdência”, que ele pretendia criar, e se concentrou em reformar a “velha Previdência”, que ele gostaria de ver gradualmente substituída pelo novo sistema. Guedes também não perdoa Marinho por ter descaracterizado o projeto da Carteira Verde-Amarela, ao transformá-lo em opção para a contratação de jovens, em vez de apresentá-lo como alternativa a todos trabalhadores, para reduzir o custo trabalhista das empresas em todas as faixas e ampliar o investimento na produção e a geração de novos empregos, como previa a proposta original.

A questão é que Marinho, cujas ideias nunca estiveram alinhadas com o liberalismo de seu ex-chefe, pode ter se indisposto com Guedes. Mas, pelo jeito, caiu nas graças de Bolsonaro, que o alçou ao cargo de ministro e passou a ouvir seus conselhos com atenção. Um deles foi o de usar os recursos do FGTS para alavancar o Minha Casa, Minha Vida nos mesmos moldes dos governos do PT - um sistema que Guedes desejava mudar e que Bolsonaro encampou prontamente.

Como vai terminar esta novela, é difícil dizer no momento. O que se pode afirmar desde já é que tudo isso gerou muita insegurança no mercado quanto à permanência de Guedes no governo. Pelos pendores históricos de Bolsonaro, que antes de fazer seu “casamento” com Guedes marcou sua trajetória política por posturas corporativistas e pela defesa do desenvolvimentismo da era militar e da intervenção estatal na economia, não será uma surpresa se ele tiver uma “recaída” e deixar para trás o liberalismo de ocasião que abraçou para viabilizar a sua eleição.

Comentários para "A discórdia no governo sobre o futuro da economia":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Como organizar os pagamentos das obrigações fiscais no início do ano

Como organizar os pagamentos das obrigações fiscais no início do ano

É possível dividir um ano fiscal em quatro trimestres ou em 12 meses - quanto maior é a divisão mais controle a empresa possui sobre o fluxo de caixa, as variações de desempenho e outros dados financeiros relevantes.

Inflação é maior para ‘pais’ de pets, que adaptam compras

Inflação é maior para ‘pais’ de pets, que adaptam compras

Para o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação, José Edson Galvão de França, a inflação no setor teria superado os 50%

Comércio eletrônico ao vivo traz mais oportunidades aos produtos brasileiros na China

Comércio eletrônico ao vivo traz mais oportunidades aos produtos brasileiros na China

Gilberto Fonseca Guimarães de Moura (à direita), cônsul-geral do Brasil em Shanghai, apresenta os produtos brasileiros com a equipe na sala de transmissão ao vivo em 10 de janeiro de 2022.

Safra 2021 foi de 253,2 milhões de toneladas, queda de 0,4% ante 2020, diz IBGE

Safra 2021 foi de 253,2 milhões de toneladas, queda de 0,4% ante 2020, diz IBGE

A área colhida em 2021 foi de 68,6 milhões de hectares, alta de 4,8%, ou 3,1 milhões de hectares a mais, na comparação com 2020.

Mais de 195 mil empresários pedem adesão ao Simples na 1ª semana de prazo

Mais de 195 mil empresários pedem adesão ao Simples na 1ª semana de prazo

O prazo de adesão ao regime começou no último dia 3 e termina em 31 de janeiro

Valor da cesta básica aumenta em todas as capitais em 2021

Valor da cesta básica aumenta em todas as capitais em 2021

Maior alta foi em Curitiba (16,3%) e a menor, em Brasília (5,03%)

Sem chips, venda de carros cresce 3% em 2021, abaixo do previsto

Sem chips, venda de carros cresce 3% em 2021, abaixo do previsto

Variedades

BNDES se afasta da função de único financiador de grandes obras

BNDES se afasta da função de único financiador de grandes obras

Os números marcam a consolidação do primeiro passo na mudança do papel do BNDES na infraestrutura.

Superávit da balança comercial bate recorde em 2021

Superávit da balança comercial bate recorde em 2021

Exportações superam importações em US$ 61,01 bilhões

Inflação de 2021 pressiona alta de preço no início do ano

Inflação de 2021 pressiona alta de preço no início do ano

Apesar de considerar que o impacto da inércia será forte, pondera que os efeitos da alta de 7,25 pontos porcentuais da taxa básica de juros sobre a atividade podem mitigar os reajustes.

Planejamento e organização são fundamentais para sair das dívidas

Planejamento e organização são fundamentais para sair das dívidas

Especialista dá dicas de como deixar as contas no azul