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A experiência de criar filhos em um Brasil plural

A experiência de criar filhos em um Brasil pluralFoto: Pixabay

O Brasil é o país campeão de assassinatos no mundo segundo a Anistia Internacional, a maioria é de jovens negros entre 15 e 29 anos. Isso tem deixado os pais angustiados e apreensivos cada vez que os filhos vão estudar, trabalhar ou se divertir.

Correioweb - 04/01/2020 - 10:12:41

Vamos combinar? Uma das tarefas mais difíceis da vida humana é criar filhos, saber qual a medida certa na condução de nossos herdeiros — esse diamante que nasce bruto e terá de ser lapidado durante a formação da vida e construção do caráter.


Temos verdadeiro tsunami dentro do lar, que é o estado emocional dos filhos, que vem se agravando a cada ano. Podemos dizer que é uma epidemia. No Brasil, dados do Mapa da Violência, organizado pelo Ministério da Saúde, mostram que, de 2002 a 2012, o número de suicídios entre crianças e adolescentes de 10 a 14 anos aumentou 40%.



O artigo publicado pelo Centro de Educação Integrada de Natal, Rio Grande do Norte, de autoria do psiquiatra Luís Rajos Marcos (março/2019) aponta que, nos últimos 15 anos, cresceu 43% o número de crianças com transtorno de deficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Também houve incremento de 35% na taxa de depressão e 200% na de suicídio entre crianças de 10 a 14 anos, nos últimos 15 anos.


O estudo diz que uma em cada cinco crianças possui algum tipo de problema mental. O texto indica, ainda, que as causas do aumento dessas condições passam pela “privação de conceitos básicos de uma infância saudável. As famílias negras, além dos problemas citados acima, têm que conviver com violência que lhes ceva a vida dos filhos.


O Brasil é o país campeão de assassinatos no mundo segundo a Anistia Internacional, a maioria é de jovens negros entre 15 e 29 anos. Isso tem deixado os pais angustiados e apreensivos cada vez que os filhos vão estudar, trabalhar ou se divertir.


Quem é o culpado? O sistema, a família, o consumismo desenfreado ou mesmo o uso exagerado das redes sociais? Não importa. Quando estamos diante de uma verdadeira calamidade pública mundial, todos somos culpados.


Os nossos filhos são hiperestimulados por bens materiais e simbólicos. Em contrapartida, estão em falta pais emocionalmente preparados e disponíveis para criação, estabelecer limites bem definidos, restabelecer no processo de criação o “não”, a alimentação saudável, o sono adequado, as perspectivas da autonomia e da responsabilidade.


Nos últimos tempos, os pais têm se tornado permissivos. Tem-se dado uma inversão de valores que vem quebrando a espinha dorsal da dinâmica entre pais e filhos. Quando os pais não definem nem seguem coerentemente regras claras, acabam tornando-se indulgentes, omissos e mesmo cúmplices.


Quando se permite fazer de tudo, sem definição de começo, meio e fim das atividades, crianças individualistas, com pouca interação social, para quem expressões como “bom-dia”, “boa-noite”, “obrigado” e “desculpa” não estão no vocabulário cotidiano.


Como sair dessa armadilha emocional? Não temos receita pronta, mas partamos do princípio de que os filhos, dada a imaturidade própria de sujeitos em formação, não podem governar o mundo. Infelizmente, há uma geração de pais omissos, permissivos, que não estabelecem limites. Seja porque não os vivenciaram de forma adequada, porque têm dificuldades emocionais de estabelecê-los ou mesmo porque preferem saídas aparentemente mais fáceis, em vista da vida sedentária e do comodismo, propiciando estimulação sem fim e mesmo gratificação sem merecimento.


A palavra-chave é limite. Sendo você o motorista do carro, digamos assim, é você quem define ações, princípios e valores para a criação dos filhos. Estes, sabendo que estão sendo comandados por quem os ama, tenderão a ter tranquilidade emocional no dia a dia, não obstante os conflitos.


Ofereça a eles somente o que eles precisam e não exatamente o que querem. Uma vida menos virtual e mais real com base em alimentos saudáveis, na vida ao ar livre, no brincar, andar de bicicleta, jogar bola, basquete, fazer caminhada, pescar, correr, pular, ver e sentir a natureza.


Dê preferência a jogos coletivos e brinque com eles aprendendo a ganhar e perder. Sem esquecer das disciplinas básicas como o fazer as refeições nos horários estipulados, à mesa, sem smartphone ou algo similar. Não vire office-boy de seu filho. Não carregue sua mochila, não leve o trabalho ou material que ele esqueceu em casa.


Crianças e adolescentes precisam assumir os erros e isso é ensinado ao propiciar uma atmosfera de responsabilidade. Defina tarefas em casa de acordo com a faixa etária: arrumar brinquedos, fazer a cama, lavar louças, cuidar do animal de estimação. Os filhos aprenderão a ser responsáveis, vendo o exemplo dos pais, correspondendo ao estímulo que recebem. As dificuldades deles nessa área podem ser reflexos da dinâmica familiar.


Atenção, pais, todos os dias vocês têm de fazer esta pergunta: “O que vou deixar para meu filho?” Infelizmente, muitos tendem a responder com algo relacionado a bens materiais, o que sem dúvida é parte do legado. Mas o maior legado que você pode deixar é um ser humano sadio emocionalmente.

JOÃO BOSCO BORBA
Psicanalista clínico com pós-graduação em educação

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