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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 18 de maio de 2022

"A luta dos povos indígenas é uma luta válida e importante para todo o povo"

Foto: Tremembé da Barra do Mundaú

A Festa do Murici e Batiputá acontece entre os dias 12 e 15 de janeiro

Geovanni Carvalho - Brasil De Fato | Juazeiro Do Norte Ce - 15/01/2022 - 08:41:46

Adriana Tremembé conversou com o Brasil de Fato sobre demarcação de terra, pandemia e a Festa do Murici e do Batiputá

Para falar sobre as lutas por demarcações de terras, pandemia e pautas indígenas para 2022, o Brasil de Fato conversou com Adriana Tremembé, Liderança Indígena do Povo Tremembé da Barra do Mundaú. Na entrevista, Adriana Tremembé falou também sobre a tradicional Festa do Murici e do Batiputá, que acontece de 12 à 15 de janeiro na terra indígena Tremembé da Barra do Mundaú, no município de Itapipoca.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – Bem, queria que você começasse falando sobre a luta por reconhecimento e demarcação das terras dos povos indígenas e comentasse como está a situação atualmente no Ceará.

Sou Adriana Tremembé, liderança aqui da terra indígena da Barra do Mundaú, nasci e me criei nesse território e hoje tenho 50 anos de idade. Essa questão da demarcação de terras indígenas é de grande importância para nós. Aqui no Ceará, a demarcação de terras vem se arrastando ao longo de muitos anos, fazendo do estado um dos mais atrasados quando falamos na pauta de demarcação de terras. Hoje, depois de muitos anos de luta e resistência, temos uma única terra demarcada e homologada, que é a terra indígena Tremembé, no córrego do João Pereira, em Acaraú. E as outras quatorze etnias indígenas do estado do Ceará permanecem nesta luta e não há nenhuma demarcação dentro dos nossos territórios, por isso seguimos resistindo de forma constante para que haja demarcação dentro dos nossos territórios.

Brasil de Fato – Bolsonaro já fez alguns comentários que vão contra as pautas defendidas pelos povos indígenas. Como você define o governo Bolsonaro em relação a essas questões?

Em relação ao governo Bolsonaro, que eu não chamo de presidente da República, ele já disse que não demarca terras indígenas, e isso se torna um desafio para todos nós indígenas, não só do Ceará, mas acredito que para o Brasil inteiro, e quando fazemos esse recorte do Nordeste, do Ceará, se agrava muito mais. E nós, povos indígenas, continuaremos na luta, na resistência e na persistência de não desistir do nosso território, de nossa mãe terra, para termos um dia a nossa mãe terra demarcada, homologada, desentrosada e titularizada.

Brasil de Fato – Por falar em pautas indígenas, quais são as pautas de luta para 2022?

Nossas pautas para 2022 é, sobretudo, o avanço da demarcação de nossas terras e também a luta pelas políticas públicas, por saúde, por uma educação escolar indígena e educação ambiental de qualidade, que tanto a gente precisa nesse território. Além disso, seguiremos na luta contra o desmatamento, contra as queimadas e que possamos estabelecer a valorização e preservação dos nossos territórios indígenas.

Brasil de Fato – Estamos passando por mais uma onda de contaminação causada pelo coronavírus. Como o povo Tremembé da Barra do Mundaú está se articulando para amenizar os impactos da pandemia?

Estamos nos articulando com orientações, orientando nosso povo para que todos mantenham e permaneçam com os cuidados sanitários dentro e fora do território. Que permaneçam com o auxílio da medicina tradicional com o nosso chá, com a nossas ervas e com o uso do óleo de batupitá, que são elementos muito importantes pra nós. Então a gente também traz esse legado, das nossas ervas medicinais, nossos remédios tradicionais e também da nossa equipe de saúde que tem dentro do território.

Brasil de Fato – De que forma a pandemia afetou os povos indígenas no Ceará?

No Ceará e no Brasil todos nós indígenas não conseguimos escapar desse vírus, ele chegou dentro dos territórios indígenas, e continua até hoje, e o que podemos fazer é continuar com esses cuidados, uso de máscara, álcool em gel, manter o distanciamento social, que são as principais formas de combate e são muito importantes nessa luta contra o vírus.

Brasil de Fato – Agora vamos falar de comemoração. Este ano acontece a 13ª edição da Festa do Murici e do Batiputá. Gostaria que você explicasse o que é essa festa?

A Festa do Murici e do Batiputá é um momento de louvação que fazemos à nossa mãe natureza pelo que ela nos tem dado. O murici e o batiputá são frutos que nós não plantamos, que são dados pela mãe natureza, o murici é um fruto que nos alimenta e o batuputá um fruto que nos cura. Esse período de louvação à natureza sempre acontece anualmente no mês de janeiro, na segunda semana do mês e é um momento sagrado de um território que ainda tem esse potencial da mãe natureza permanecer dentro e viva, trazendo esse fruto de alimentação e cura para nosso povo. A festa é feita por cinco dias de louvação para mãe natureza, onde vamos para a mata, colher esses frutos e, após a colheita, produzimos o óleo de batiputá em partilha uns com os outros.

Durante a festa celebramos o nosso ritual sagrado, que é o Torém, com as modalidades indígenas se fortalecendo dentro desse espaço que é o ponto de Cultura Recanto dos Encantados, trazendo a espiritualidade também e vendo a Casinha da Cura se fortalecendo com os nossos encantados. Então isso nos faz cada vez mais vivos e fortalecidos para continuar nesta luta.

Brasil de Fato – A festa é aberta ao público? Como fazemos para participar?

A nossa festa sempre é um momento aberto e nesse período de pandemia orientamos a todos a seguirem os protocolos de segurança, a usarem máscara e todas as medidas sanitárias para que nossa festa se torne segura. Quem quiser participar só acessar nossas redes sociais: Tremembé da Barra ( Instagram e Facebook ), acessar nossa programação e como pode participar conosco desse momento tão importante e fortalecedor para todos nós.

Eu quero deixar essa mensagem aqui pra todos: a luta dos povos indígenas é uma luta válida, e é importante que todos tragam essa luta para si, essa luta em defesa dos territórios indígenas, da nossa mãe terra que é onde está a espiritualidade, aonde estão os nossos encantados, que pode nos curar, que pode cuidar de cada um de nós.

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Edição: Francisco Barbosa

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