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“A mesma mulher que vai na igreja do bispo, é a que aborta”

“A mesma mulher que vai na igreja do bispo, é a que aborta”Foto: Estadão

Como analisar este caso por um viés antropológico?

Estadão Conteúdo - 22/08/2020 - 18:51:36

Entrevista com a antropóloga Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora do Instituto Anis de bioética, direitos humanos e gênero. Debora mora fora do Brasil há mais de um ano por questões de segurança pessoal.

Uma menina de 10 anos ficou grávida. 10 anos? Isso por si só já é um tapa na cara.

Depois você descobre que ela vinha sendo estuprada desde os 6 anos. Depois, que a cada hora 4 meninas de 10 a 14 anos são estupradas no Brasil (2 a 3 são negras).

Assista à entrevista: https://youtu.be/xrUbmvCqb7o

A gente poderia lembrar que o país tem uma legislação que protege essas meninas. Que o país registra 6 abortos por dia para esse “público”.

Mas as dificuldades são imensas. Não apenas os direitos delas são negligenciados, como o preconceito, e o pânico moral orquestrado, se alastram.

Como analisar este caso por um viés antropológico?

“Podemos começar pensando a partir da casa como uma categoria antropológica analítica do que contaria a história dessa menina, a casa como um elemento das relações. Essa menina representa a menina comum brasileira, a menina comum brasileira mais vulnerável. Negra, de dez anos, de uma família trabalhadora informal, inclusive por conta da pandemia. E a casa,que deveria ser um espaço de proteção, do cuidado, era um espaço de tortura cotidiana”

“Essa mesma casa depois é invadida por outras pessoas, pessoas rezando, que prometem o salvacionismo. Uma segunda força do patriarcado”.

Ela passa de um esconderijo de tortura a uma total devassidão para a entrada da comunidade, como se não existisse “casa” e “rua”, porque eles tinham uma missão. A missão não era salvar a menina, era proibir o aborto”

“Ela entra no hospital em outro Estado, no porta-malas de um carro. Ela parece uma refugiada nacional”

“A pelúcia que ela segurava representava a infância. Quando o promotor pergunta sobre a possibilidade de ela se manter grávida, ela agarra a pelúcia e diz que “não”. Isso é o momento simbólico de reafirmação da infância”

“Quando termina esse processo, ela fica sem casa. Ninguém sabe para onde foi, mas para lá é que ela não volta. Ela é desterritorializada aos 10 anos de idade”

“O poder médico é um poder patriarcal”

“Essa família cristã ela só existe na boca do bispo e do pastor. A família de carne e osso é formada por uma multiplicidade de crenças, valores e práticas. A mesma mulher que vai na igreja do bispo, é a que aborta”

“Eu abri um debate com a deputada Tabata Amaral, que disse que o aborto é um dilema. O aborto é um dilema para o patriarcado. Para as mulheres não é nenhum dilema, para as mulheres que precisam fazer aborto o dilema é morrer ou adoecer”

“América Latina e o Caribe são as regiões onde mais se criminaliza aborto no mundo. E aonde nós temos as maiores taxas de aborto no mundo. E o Brasil é campeão”

“O laboratório do autoritarismo no mundo é a América Latina”

“Todas as vezes que a força é muito intensa, a contra força também é muito intensa. O que nós vimos na porta daquele hospital é justamente a força e a contra força; pessoas tentando invadir e as mulheres que vão chegando e fazem um jogral contra os fanáticos, que são a maioria”

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