×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 28 de janeiro de 2022

A mulher que memorizou poemas censurados e salvou a obra de um poeta na União Soviética

A mulher que memorizou poemas censurados e salvou a obra de um poeta na União SoviéticaFoto: Estadão

Novo romance de Noemi Jaffe narra a vida de Nadejda, mulher do poeta Ossip Mandelstam, que salvou seus versos do esquecimento com sua memória

Estadão Conteúdo - 18/04/2020 - 09:45:43

Não fosse por sua mulher, os versos do poeta russo Ossip Mandelstam seriam meras palavras ao vento. Ele os declamava em público, mas nunca transcrevia – essa tarefa cabia a Nadejda. Depois que Ossip morreu em um Gulag, Nadejda, cujo nome apropriadamente significa “esperança” em russo, passou 25 anos memorizando seus poemas até finalmente poder publicá-los. Sua história de amor e resistência inspira O Que Ela Sussurra , o novo livro de Noemi Jaffe , publicado pela Companhia das Letras.

O romance ficcionaliza passagens da vida do casal, como se Nadejda remoesse seu relacionamento ambíguo, entre a paixão e o abuso, e os anos de terror aos quais foram submetidos quando Ossip compôs o debochado poema Epigrama de Stalin e passou a ser perseguido pelo regime soviético.

“Eu não deveria dedicar minha vida a memorizar poemas que não serão lidos nem impressos e menos ainda publicados, me arriscando por palavras que não fui eu quem criou”, pensa Nadejda, que, no livro de Jaffe, pondera as contradições de ser uma protofeminista submetida a um relacionamento abusivo com um homem mais velho – Nadejda gostaria de ter sido pintora, mas desistiu de seu sonho por insistência dele.

“Acho que ele me queria inteiramente dele, queria que eu me dedicasse a ouvir e escrever seus poemas, a suportar suas infidelidades suportáveis, a estar em casa quando ele chegasse, queria me ter como alguém que pudesse ficar atrás, do lado, por baixo dele.”

Nadejda tinha uma personalidade fascinante, era inteligentíssima, leu muita coisa, tinha uma visão da sociedade extremamente aguçada

Noemi Jaffe

Escrito em um caudaloso fluxo de consciência, o romance coloca o leitor diante das angústias de uma Nadejda já velha, desiludida com os rumos de sua vida e amargurada com seu país.

“Se poemas fossem capazes de mudar o mundo, não seriam poemas, mas máquinas. Sua força está em sua incapacidade, seu movimento instantâneo de dúvida, um deslocamento da pálpebra, uma ausência despercebida que vem se instalar na alma de forma mais duradoura. Os vencedores sabem disso e por isso nos odeiam e nos temem, porque conhecem o perigo dos mínimos deslocamentos.”

De fato, o perigo evocado pela poesia se manifestou com força máxima na vida de Ossip e Nadejda sob o regime soviético – com algumas semelhanças perturbadoras com o Brasil contemporâneo, como quando ela relata o clima de desconfiança e hostilidade nas ruas, ou que “os alunos eram instruídos a espionar os professores”.

O absurdo chega ao ápice quando Stalin telefona para Boris Pasternak (que viria a vencer o Nobel de Literatura) e pergunta se Mandelstam é um bom poeta, como se não valesse a pena oprimi-lo se fosse medíocre. “Você já sabia que, aqui, a poesia é tão importante quanto o dinheiro, já que o poder se ocupou continuamente em perseguir os poemas e os poetas”, desabafa Nadejda consigo mesma.

Ao longo do romance, versos de Mandelstam se desnudam e Jaffe chega a abrir brechas para novas interpretações. “Qualquer um encontra tudo o que quiser num poema”, pensa Nadejda.

“Se quiser entender que ‘Não abafarei as dores, não ficarei mudo,/ Mas traçarei o que quiser traçar./ E agitado o sino do muro nu/ E desperta a quina da inimiga sombra,/ Atrelarei dez bois à voz’ é um libelo contra a Igreja, assim será e então haverá teorias e livros e citações, tudo para mostrar o quanto a poesia de Óssip é, toda ela, um canto de protesto antieclesiástico e, portanto, a favor da Revolução.”

Além dos vários poemas de Mandelstam citados em O Que Ela Sussurra , o leitor brasileiro pode ter um vislumbre de sua obra na recente coletânea O Rumor do Tempo (Editora 34). Dessa forma, é possível experimentar o tempo parar ao ler seus versos, como Nadejda sentia. “Agora mesmo o tempo parou. Ouça. Ele faz um ruído quando para de passar. Eu dizia: ‘O corpo a mim é dado – dele o que devo fazer? / Tão único e tão meu ser?’”

O Que Ela Sussurra

Autora: Noemi Jaffe

Editora: Companhia das Letras

160 páginas

R$ 49,90

Confira abaixo a entrevista completa com a escritora Noemi Jaffe:

O que mais chamou atenção sobre a história de Nadejda e Ossip para ficcionalizar suas vidas?

Conheci a história em um livro de ensaios do Joseph Brodsky, fiquei fascinada e fui atrás dos livros dela, Hope Against Hope e Hope Abandoned, escritos na década de 1970. Ela tinha uma personalidade fascinante, era inteligentíssima, leu muita coisa, tinha uma visão da sociedade extremamente aguçada. Era ao mesmo tempo feminista e machista, porque abriu mão de várias coisas para acompanhar ele, aceitou os adultérios…

O que a vida da Nadejda, essa devoção à obra do marido, diz a respeito da condição feminina?

A Nadejda acreditou na revolução, como muitas outras mulheres e homens, como o próprio marido. O movimento, no início, era bastante feminista, porque a participação das mulheres era igual à dos homens nas fábricas, nas lideranças. A Nadejda tinha uma posição moderna em relação à sociedade, casamento, partilha de bens. Nesse sentido, era revolucionária, uma mulher de posições firmes, mais que as do Ossip às vezes. Mas ela percebeu de que forma a poesia chegava para ele, como se ele fosse uma antena que a recebia. Ele se guiava pelos sons, mais que pelas palavras. Como ela via nele um visionário, resolveu acatar esse lugar que a vida destinou a ela para dar voz a uma pessoa que achava um gênio. O que ele tinha a dizer poeticamente era mais importante do que o que ela tinha a dizer socialmente. Então abriu mão de posturas feministas pelo homem que amava. É interessante como o feminismo pode abrigar esse tipo de coisa, e essas mulheres salvaram parte da cultura russa.

Você vê a literatura como forma de resistência à opressão?

Nessas situações dramáticas, a palavra não tem muito poder. A palavra literária dificilmente ultrapassa alguns limites, principalmente do poder, que é o que mais consegue agir para bem ou mal das pessoas. Mesmo assim, ela tem um lugar importante de desafogo, reconhecimento, identificação. Estou escrevendo um diário na quarentena e várias pessoas me falam sobre como ler isso está fazendo bem. Gonçalo Tavares, Maria Brandt e Angélica Freitas também estão fazendo. Acho que a literatura tem esse poder de desbanalizar as coisas e fazer com que você saia do automatismo. Lentamente, muito demoradamente, isso pode até vir a causar algumas mudanças.

Como a poesia pode incomodar tanto um governante?

Stalin amava a literatura. Ele ligou para Pasternak para perguntar se Ossip era bom. Queria saber se valia a pena persegui-lo, porque tinha que ser muito bom pra ser perseguido. Ele era paranoico, como se estivesse competindo com os poetas. Para ele, valia muito que um poeta tivesse falado mal dele. Ele queria se vingar, não admitia que uma pessoa tão valorosa, com uma poesia tão importante, criticasse ele. A cultura é o que mais está entranhado na alma da gente e o que mais revela sobre nossa personalidade. A tentativa de destruir os marcos culturais de uma população é a tentativa de destruir a alma da população. A atitude em relação à cultura mostra o caráter de um governo.

Leia abaixo um poema de Ossip Mandelstam

Se fosse preso por nossos inimigos

E as pessoas parassem de falar comigo,

Se me privassem de tudo no mundo:

Do direito de respirar e de abrir portas

E de afirmar que haverá vida

E que o povo julga, como juiz —

Se ousassem me prender feito fera,

Minha refeição no chão começassem a jogar —

Não abafarei as dores, não ficarei mudo,

Mas traçarei o que quiser traçar,

E agitado o sino do muro nu

E desperta a quina da inimiga sombra,

Atrelarei dez bois à voz

E conduzo a mão na sombra com o arado —

E no fundo da noite sentinela

Olhos se acendem à trabalhadora terra,

E — na legião franzida dos olhos irmãos —

Cairei com o peso de toda colheita,

Com a pressão de toda a jura que se lança ao longe —

E irrompe dos ardentes anos o bando,

Murmura como madura tempestade Lênin,

E na terra, que escapa à decomposição,

Assassinará a razão e a vida Stálin.

Comentários para "A mulher que memorizou poemas censurados e salvou a obra de um poeta na União Soviética":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Mulheres cientistas: Nilma Lino é uma das vencedoras de prêmio nacional da SBPC

Mulheres cientistas: Nilma Lino é uma das vencedoras de prêmio nacional da SBPC

Nilma é professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais

Responsabilidade pela alimentação das crianças não deve ser só das mulheres, diz pesquisadora

Responsabilidade pela alimentação das crianças não deve ser só das mulheres, diz pesquisadora

Participaram do estudo 550 pares de participantes, sendo um adulto e uma criança em São Paulo.

Mais mulheres viajam sozinhas ou com as amigas

Mais mulheres viajam sozinhas ou com as amigas

Proibidas de viajar sem autorização dos maridos até 1962 no País, mulheres já são maioria em decidir o destino das viagens e em buscas por intercâmbio

"Esporte não pode admitir novos Robinhos": Especialistas comentam condenação por estupro

Robinho foi o principal jogador da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2010; na foto, o ex-camisa 11 em partida contra o Chile

Chefe de direitos da ONU pede estratégias para garantir participação das mulheres nos processos de paz

Chefe de direitos da ONU pede estratégias para garantir participação das mulheres nos processos de paz

A alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet (À esquerda na tela) fala por meio de um vídeo durante um debate aberto do Conselho de Segurança sobre mulheres, paz e segurança na sede da ONU em Nova York no dia 18 de janeiro de 2022. Michelle Bachelet pediu na terça-feira por estratégias e investimento para garantir a participação plena e significativa das mulheres nos processos de paz.

Morre a cantora Elza Soares aos 91 anos

Morre a cantora Elza Soares aos 91 anos

Elza fez sucesso interpretando clássicos como Se Acaso Você Chegasse, cuja gravação lançou em 1960.

Bachelet: “Decisões sobre a paz sem refletir vozes, realidades e direitos das mulheres não são sustentáveis”

Bachelet: “Decisões sobre a paz sem refletir vozes, realidades e direitos das mulheres não são sustentáveis”

Bachelet apontou ainda o efeito negativo da violência baseada no gênero e do uso da violência sexual como tática de guerra

Estudante de 62 anos formada na EJA inicia o ano na UnB

Estudante de 62 anos formada na EJA inicia o ano na UnB

Quem quiser seguir o mesmo caminho da diarista Maria da Conceição pode se matricular no programa, que abrirá vagas remanescentes em fevereiro

“Temos capacidade para fazer, somos empreendedoras e muito valentes”, afirma venezuelana

“Temos capacidade para fazer, somos empreendedoras e muito valentes”, afirma venezuelana

Yidri foi uma das mulheres empreendedoras beneficiadas em Roraima pelo Programa Conjunto LEAP

OCDE mostra como a desigualdade de gênero afeta brasileiras

OCDE mostra como a desigualdade de gênero afeta brasileiras

A Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é composta por 38 países membros e por 8 países parceiros, grupo do qual o Brasil faz parte

Maior acampamento de refugiados sírios sem mortes maternas após 14 mil partos

Maior acampamento de refugiados sírios sem mortes maternas após 14 mil partos

Unfpa administra operações dentro das instalações de saúde no maior acampamento acolhendo cidadãos da Síria