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A química Joana D’arc admitiu que mentiu sobre Harvard. Que tal deixá-la em paz?

A química Joana D’arc admitiu que mentiu sobre Harvard. Que tal deixá-la em paz?Foto: Reprodução

O que se defende é uma imprensa conscienciosa, que saiba entender quando um assunto está esgotado e que a professora é um ser humano

Por Euler De França Belém-jornal Opção - 28/05/2019 - 16:59:46

Joana D’Arc Félix fez mestrado e doutorado na Unicamp, mas não doutorado em Harvard.

Reportagens de “O Estado de S. Paulo” demonstraram, de maneira cabal, que a professora brasileira Joana D’Arc Félix de Souza não fez pós-doutorado em Química em Harvard. Ela tem mestrado e doutorado — na Unicamp, um das mais prestigiosas universidades brasileiras —, mas não estudou na universidade americana.

Não há dúvida de que se trata de um caso grave. Mas, se não há fatos novos e a mestre admitiu a mentira, vale encerrar o assunto. Não se está defendendo que o equívoco deva ser escondido e, até, esquecido, e sim que o “Estadão”, salvo engano, esclareceu a farsa e a professora já foi execrada o suficiente. Entretanto, quiçá por sensacionalismo, a “Folha de S. Paulo” insiste em replicar o assunto, embora tenha sido a primeira a chegar atrasada. Estaria se vingando da professora, por ter acreditado em suas lorotas e por ter levado um furo do concorrente?

A revista “Veja”, repercutindo a história, excede: “A doutora mentirosa pode destruir a imagem da ciência brasileira”. Ora, se depende da professora Joana D’Arc Félix, pelo fato de ter mentido que estudou em Harvard (reverberando um ex-ministro da Justiça que, tendo assistido uma aula, acrescentou no seu currículo que havia estudado na Sorbonne), a imagem da ciência patropi é extremamente frágil. Na verdade, a pesquisa nacional é respeitada internacionalmente e, frise-se, há problemas, similares e até mais graves do que os de Joana D’Arc Félix, em vários países, inclusive nos Estados Unidos.

Recentemente, a “Veja” publicou uma série de reportagens de qualidade sobre erros da polícia, do Ministério Público e da Justiça — a imprensa não pode ser excluída, porque, de certo modo, comporta-se como porta-voz ou alto-falante de policiais e promotores — culminaram no suicídio do professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Não restou provado que Cancellier de Olivo tivesse envolvimento em corrupção, mas, sentindo-se desmoralizado — por ter sido preso e humilhado —, se matou.

O que quer a imprensa com a repetição exaustiva da história de Joana D’Arc Félix — sem acrescentar informações novas? O sensacionalismo permanece rendendo audiência? A mestra vai ser penalizada judicialmente? Se vai, tudo bem: continuem com a história. No entanto, se da história nada mais pode ser retirado — a professora de química desmoralizou-se —, por que insistir? Querem destruí-la, mais do que possivelmente já está com a imagem arranhada e, pessoalmente, abatida? Querem levá-la a um gesto extremo? Tomara que não. Já basta a história do reitor, pela qual a imprensa culpa Polícia Federal (principalmente), Ministério Público e Justiça, mas não assume suas responsabilidades. Não teve nenhuma cautela ao apresentar as “denúncias” — que não continham provas cabais — contra o reitor.

Vão perguntar se estou “defendendo” Joana D’Arc Félix porque ela é negra (me consideram branco ou pardo, mas sou bisneto de uma mulher, Frutuoza, negra)? Na verdade, não. Estou defendendo, não a química, e sim uma imprensa conscienciosa, que saiba entender quando um assunto está esgotado e que, mais do que uma mentirosa contumaz, Joana D’Arc Félix é um ser humano.

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