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A tecnologia está mudando o mundo dos pets

A tecnologia está mudando o mundo dos petsFoto: Alex Ribeiro/Estadão Conteúdo

Os irmãos Felipe (à esq.) e Thadeu Diz, da Zee.Dog e da Zee.Now

Estadão Conteúdo - 12/03/2020 - 16:44:14

Felipe Diz, CEO da Zee.Dog, marca de acessórios para animais, e de seu braço tecnológico, a Zee.Now, conta como está transformando um mercado enorme e tradicional

AS DICAS DO CEO DA ZEE.DOG:

  1. Identifique um problema – muitos deles começam com problemas próprios – e pense em como usar a tecnologia para solucioná-lo;
  2. Priorize o desenvolvimento de novos produtos e tenha velocidade de decisão;
  3. Diminua os níveis hierárquicos da sua empresa;
  4. Tecnologia é usada para facilitar a decisão de compra e não vai matar a experiência offline;
  5. Faça parcerias estratégicas para distribuir o seu produto;
  6. Use soluções tecnológicas para diminuir obstáculos e tempo de compra;
  7. Não crie um produto pela tendência, mas por necessidade do consumidor;
  8. Deixe claro para sua equipe quais são as prioridades da empresa. A velocidade para desenvolver um produto está muito atrelada a isso.

Um cachorro adotado e a frustração diante de um mercado sonolento de acessórios para pets deram origem, oito anos atrás, à Zee.Dog, empresa de produtos descolados para animais que fechou 2019 com faturamento de R$ 100 milhões. Há menos de dois anos, da necessidade de uma logística mais eficiente para a entrega desses produtos – e os de parceiros – nasceu a Zee.Now, aplicativo que é o braço tecnológico da empresa e espécie de Uber do mundo pet, que promete levar coleira, medicamentos e ração, entre outras coisas, a consumidores de 90 bairros de Rio e São Paulo até durante a madrugada. O passo seguinte foi colocar todo esse mercado na vitrine do iFood – sim, já é possível pedir comida para você e petiscos para o seu melhor amigo em um só lugar. O projeto já consumiu R$ 5 milhões, e a ideia é que, no futuro, seja maior do que a marca-mãe.

A receita para inovar em um mercado enorme – o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos – e tradicional? De acordo com o CEO da empresa, Felipe Diz, é simples: basta ter um problema e pensar em como resolvê-lo tecnologicamente. Isso, no entanto, não significa matar o mundo offline. “Não acredito que o digital é rei e que agora tudo tem de ser assim. Acreditamos muito na experiência offline, ela tem de existir também.” Leia abaixo a entrevista ao blog:

Como surgiu a Zee.Now? Foi demanda ou necessidade de se antecipar ao futuro?

Nossa forma de fazer negócio é bem simplista. A gente não tenta necessariamente prever o futuro, o que a concorrência vai fazer ou o que vai ser trend daqui a 2, 3 anos. O que normalmente a gente faz é criar soluções para os nossos próprios problemas. Foi assim com a Zee.Dog – e com a Zee.Now não é diferente. Nós sempre tivemos cachorro e sempre passamos pelas mesmas “dores” de quem tem pet passa para comprar um produto. Você tem de ir a um pet shop, que é a pior experiência possível, e sai carregando um saco de 15 kg de ração no ombro ou chega tarde do trabalho e a última coisa que quer fazer é ir a um pet shop. Isso aconteceu durante anos da minha vida e na dos meus sócios e começamos a nos questionar: não é possível que em 2018 ainda se compra ração ou outro produto de pet shop da mesma forma como se vem comprando nos últimos 50 anos. Nos últimos tempos, passou-se a comprar online, o que também não soluciona todos os problemas, porque você paga frete, vai ter de esperar mais de um dia, etc. E a compra de produtos pet é muito imediatista, preciso da ração agora porque acabou. A Zee.Now então foi criada não por uma tentativa de prever o futuro, mas para solucionar um problema básico, que é: preciso achar solução mais prática, rápida e conveniente de fazer aquilo que faço toda semana, que é comprar produtos para o meu cachorro.

Problema todo mundo tem. Por que então não houve outras iniciativas como a sua antes?

Me pergunto isso todo dia. Quando fomos trocar ideia (para fazer a Zee.Now) vários fornecedores de ração e produtos disseram: já pensei em fazer uma coisa parecida. Mas tem uma diferença entre quem pensa e quem executa. A nossa única diferença para talvez milhões de pessoas que muito possivelmente tiveram a mesma ideia é que a gente foi lá e fez algo a respeito. Ninguém aqui é um gênio. A única diferença é que talvez a gente tenha uma proatividade maior do que o resto da turma.

Quanto tempo levaram da ideia à execução da Zee.Now?

O embrião da ideia surgiu em 2015 e em 2018 resolvemos de fato montar equipe, provisionar investimento para essa nova divisão, achar escritório. Levamos de um ano e meio a dois anos da ideia ao lançamento.

É um tempo relativamente curto para lançar um produto, em comparação com empresas tradicionais. Por que vocês são mais ágeis?

Como presidente da empresa, botei isso no topo da prioridade do grupo. Acho que a velocidade está muito atrelada à urgência que a diretoria passa para a equipe. Se estou martelando que isso é a prioridade, dia após dia, as pessoas passam a acreditar que de fato é e andam mais rápido. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que a equipe da Zee.Dog é muito boa – e com a equipe certa a velocidade é mais rápida. O terceiro ponto é que o processo de decisão da Zee.Dog é muito nivelado, não tem muita hierarquia. Eu ou meu irmão (Thadeu Diz, cofundador da Zee.Dog) participamos das reuniões e tomamos decisões imediatas. Repito: ninguém aqui é mais inteligente do que a turma do lado. A gente executa de forma diferente. Não tem a ver com inteligência, tem a ver com urgência.

A projeção era de que a Zee.Now respondesse por 30% dos negócios da Zee.Dog. Atingiram esse objetivo?

Com os números que estamos vendo hoje, em 2, 3 anos, é possível que a Zee.Now seja maior do que a própria Zee.Dog, simplesmente porque ela “morde” um mercado pet de R$ 30 bilhões, R$ 40 bilhões em ração, medicamento, acessórios, higiene e tudo o mais. A Zee.Dog é uma marca de acessórios, que está limitada ao market share de acessórios, que no Brasil é de R$ 7 bilhões. É difícil falar se a Zee.Now vai ser 30% ou 100% (do negócio), mas vai ser uma divisão enorme que vai começar a comer market share de quem está trabalhando no mercado há anos, como Petz, Cobasi e outros 50 mil pet shops no Brasil inteiro.

Como você viabiliza a operação da Zee.Now? Tem motoboy de plantão às 4 da manhã esperando os pedidos, por exemplo?

A Zee.Now é um monte de espaços pequenos alugados, que chamamos de hubs, em vários bairros no Rio e em São Paulo e a gente usa a tecnologia para conectar esses produtos (que estão estocados ali) ao usuário final. Em vez de vendedor, tenho estoquista e frota própria. Então, tenho, sim, motoboy próprio sentado esperando às 4 da manhã o pedido entrar. A diferença é que, com a tecnologia, eu tenho um raio de entrega muito maior do que um pet shop, que tende a ser bairrista, porque você tende a comprar perto da sua casa. No nosso caso, quando compra no aplicativo você não sabe de onde está vindo. De certa forma, é como a Uber.

E a parceria com o iFood? A ideia é usar os motoboys deles no mesmo esquema da Zee.Now?

É uma parceria estratégica, para ambos os lados. Eles agora conseguem oferecer produtos para pets, que não tinham antes, e a gente aparece para uma base de usuários infinitamente maior do que a que temos hoje e que demoraríamos anos para ter. Temos centenas de milhares de usuários, enquanto o iFood tem hoje 25 milhões, 30 milhões. E, em vez de a gente usar os nossos entregadores, vamos com um do iFood.

Estamos falando de uma grande inteligência digital com uma visão esperta de delivery. O futuro para as empresas é esse, digital e na porta de casa?

Independentemente de ser digital ou offline, o cliente tem de estar em primeiro lugar. Mas não acredito que o digital é rei e que agora tudo tem de ser assim. Acreditamos muito na experiência offline, ela tem de existir. A experiência de compra tem de existir. A Zee.Now faz parte de um grupo, que é a Zee.Dog, uma marca que tem de ter a parte digital, mas não pode esquecer o offline, que é aquela parte de testar e tocar o produto, ter algum tipo de experiência. Acho que o futuro é um pouco dos dois. A Zee.Dog é muito presente no digital, mas a gente tem também muita presença no offline, e eu acho que tem de ser assim. Não acho saudável que tudo seja convertido para o digital.

Vocês foram uma das primeiras empresas a colocar medidas-padrão de cachorros online para que as pessoas pudessem comprar roupas e coleiras sem ter de ir a um pet shop e não acham o digital fundamental?

A gente usa tecnologia para facilitar a decisão de compra. Você entra no site, bota o tamanho do cachorro, e todos os produtos que você vai ver já estão no tamanho certo para aquela raça. Você vai ver isso também nas lojas físicas. A gente usa a tecnologia para facilitar a vida do cliente, mas isso não significa matar o offline.

Vocês têm o Zee.Lab, com um diretor de inovação em Madri. Como funciona?

É onde fica toda a nossa parte de desenho industrial. Chama Zee.Lab porque é onde estamos experimentando, fazendo impressão em 3D para ver se funciona ou não, toda a parte de engenharia mecânica sai de lá. O Zee.Lab é crucial para a marca como um todo, talvez um dos grandes diferenciais. A inovação de modelo de negócio é sempre aqui, na diretoria Rio, e Madri toca a inovação industrial.

Onde estará a Zee.Now em 5 anos?

Tento não fazer esse tipo de previsão porque a única certeza que tenho é de que vou errar. Mas a Zee.Now tem possibilidade de abocanhar market share dos players que já existem, então a gente está falando de centenas de milhões de reais de faturamento. O mais importante é que a Zee.Now é o braço tecnológico e logístico da Zee.Dog e ela vai permitir cada vez mais que a gente consiga como marca usar a Zee.Now como outros não conseguem.

Por exemplo?

Vendo online no site da Zee.Dog e vendo muitos produtos da Zee.Dog, não todos, na Zee.Now. Ganho em logística, porque fica muito mais barato do que você colocar no Correio, (porque a Zee.Now) serve de posto de distribuição avançado do grupo. Consigo diminuir a fricção do tempo de compra e aumentar a conversão. Vou dar um exemplo prático. A gente lançou recentemente uma nova coleção, divulgada no Instagram. Olha o que a Zee.Now permite que eu faça: essas pessoas alcançadas via Instagram têm a possibilidade de ter aquele produto em casa 20 minutos depois, sem pagar frete. Isso jamais foi feito na história do varejo. E a Zee.Now permite que eu venda produtos que não fabrico, como ração, medicamento, etc, de forma que estou entrando na “pizza” dos concorrentes, mas ela permite também que a marca Zee.Dog entre na categoria de compra impulsiva. Eu tenho vontade de comprar (um produto) Zee.Dog e não tenho mais desculpa para não comprar. Não pago frete, em 20 minutos está na minha casa. Então, a Zee.Now fortalece o grupo como um todo, porque nada mais é do que um braço tecnológico e de logística muito bem executado que vai permitir que a gente faça coisas que talvez não conseguiria. A marca Zee.Dog se fortalece e a gente vende produtos que não venderia de outra forma.

Quais conselhos você dá para quem está pensando em fazer uma transformação digital?

A primeira coisa é identificar um problema e pensar em como usar a tecnologia para solucioná-lo de uma forma melhor do que foi feito até hoje. E, o mais importante, a maneira que mais causará impacto no consumidor final. Vejo direto as pessoas lançando soluções digitais, aplicativos, e, quando você para pra analisar, estão lançando para quem? Isso soluciona que tipo de problema? Aqui na Zee.Dog – é como a gente funciona – não criamos alguma coisa por tendência, a gente cria por necessidade. Talvez a minha dica é: identifique um problema – e muitos deles começam com problemas próprios – e pense em como usar a tecnologia para melhorar a solução para este problema. Essa é a minha dica simplista e de qualquer forma muito importante.

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