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Ações para evitar tragédias. Diálogo, o remédio contra o ódio

Ações para evitar tragédias.  Diálogo, o remédio contra o ódioFoto: Correio Braziliense

Procurar ajuda e reconhecer condutas machistas e relacionamento tóxico são caminhos para que atritos entres casais possam ser reduzidos com civilidade e respeito. Conheça casos de pessoas que buscaram, por exemplo, terapias para mudar comportamentos

Por Alan Rios E Bruna Lima-correio Braziliense - 02/06/2019 - 09:33:46

“Lar” é uma palavra que vem do latim “Laris” e tem um forte sentido simbólico: é o espírito protetor da casa e da família. Mas, para as mulheres vítimas de violência doméstica, os sentimentos de segurança e acolhimento estão longe de serem alcançados, principalmente debaixo do teto que as abriga. Prova disso é que todos os sete feminicídios ocorridos no Distrito

Federal, no primeiro trimestre de 2019, foram cometidos dentro das próprias residências. A morte é, no entanto, o triste fim de um grande ciclo de violência sofrido por elas. Antes da tragédia, os sinais de atrito entre os casais são perceptíveis e começam com pequenas humilhações, que logo se transformam em agressões. Flávio*, 56 anos, chegou a bater na ex-mulher e acabou preso. “Se a gente tivesse diálogo no começo do relacionamento, não teríamos esse fim”.

Foi atrás das grades, onde permaneceu por dois dias, que o motorista Flávio começou a dar uma nova direção à própria vida e à da família. “O dia em que eu agredi minha ex foi o pior da minha vida. O nosso menino tentou defender a mãe e também apanhou. Aí, eu fui preso no Dia dos Pais e comecei a me questionar se eu era uma pessoa de bem mesmo. Vi que tudo isso tinha sido muito pior para eles dois, porque o filho viu a mãe ser agredida pelo cara em quem eles confiavam”, disse.

Com tratamento psicológico e orientações de profissionais, Flávio conseguiu superar a conduta machista e agressiva que, até então, não admitia ter. “Tem muito homem que ainda pensa que a mulher é propriedade dele. Aí briga, xinga, bate, rebaixa e faz o que quer. Isso tem que mudar”, afirma. Dois anos depois da separação, ele, envergonhado, reconhece que não é uma vítima, mas, sim, o agressor. “Ainda sofro muito, porque percebo que não soube dar valor à família que tive. Mas hoje sou um homem novo e, se eu tiver uma nova oportunidade de me relacionar com outra mulher, vou saber como agir de maneira correta, dialogando e respeitando. Fazendo tudo diferente.”

Prevenção

A transformação na mentalidade do motorista veio por intermédio da Assistência da Prevenção Orientada à Violência Doméstica, mais conhecida por Provid. “O programa (da Polícia Militar) foi fundamental em tudo. Os policiais começaram a trabalhar comigo e com minha ex-esposa, sempre imparciais, sem ficar de um lado nem de outro”, elogia Flávio. O Provid foi criado em 2014 e surgiu a partir da filosofia de polícia comunitária, que se insere em núcleos familiares ajudando a prevenir, inibir e interromper o ciclo de violência doméstica, além de intervir em casos de abandono de incapaz, maus-tratos, cárcere privado e tentativas de homicídio.

A coordenadora geral do programa, tenente Adriana Vilela, reitera que a corporação está atenta a essa responsabilidade. “Nós realizamos ações em diferentes eixos, mas a maior parte delas é para evitar que crimes aconteçam. Fazemos palestras para ensinar o que é violência doméstica e o que é a vulnerabilidade das mulheres, realizamos visitas e mostramos para as famílias como combater as agressões por meio do diálogo e de forma não violenta”. Desde o começo do ano, o Provid visitou 3.670 casas, atendendo diretamente 1.085 pessoas. O acumulado de 2018 foi de 10 mil residências atendidas, alcançando 200 mil vítimas.

Como a PM é uma das primeiras representações do Estado a chegar nas residências onde acontecem violências, os militares também fazem um papel de direcionamento a outros serviços do governo. “Às vezes o marido tem problema com alcoolismo, então a gente aciona uma rede do GDF que fornece atendimento com o Alcoólicos Anônimos, por exemplo. Ou então se a mulher está precisando de emprego, porque o homem fez com que ela fosse financeiramente dependente dele, nós procuramos uma oportunidade para ela sair dessa condição e ter sua própria renda”, detalha a tenente.

As origens

O Distrito Federal registrou 4.997 casos de agressões contra mulheres entre janeiro e abril deste ano. Por dia, são mais de 40 ocorrências de Lei Maria da Penha, reflexos de relacionamentos abusivos e desestruturados que afetam todo o núcleo familiar. Um fato ignorado por diversas vezes é que a violência física raramente surge no início das relações, sendo originada de situações consideradas “menores”. É o que aponta a psicóloga Camila de Aquino Morais. “Muitos casais possuem uma grande inabilidade para o lidar com pequenos conflitos. Isso, por vários motivos, mas um deles é que existe uma cultura do machismo que estereotipa padrões.

de que o homem está acima da mulher. É daí que se inicia um ciclo que evolui e que pode acabar em um feminicídio.”

O Distrito Federal registrou 4.997 casos de agressões contra mulheres entre janeiro e abril deste ano. Por dia, são mais de 40 ocorrências de Lei Maria da Penha, reflexos de relacionamentos abusivos e desestruturados que afetam todo o núcleo familiar. Um fato ignorado por diversas vezes é que a violência física raramente surge no início das relações, sendo originada de situações consideradas “menores”. É o que aponta a psicóloga Camila de Aquino Morais. “Muitos casais possuem uma grande inabilidade para o lidar com pequenos conflitos. Isso, por vários motivos, mas um deles é que existe uma cultura do machismo que estereotipa padrões de que o homem está acima da mulher. É daí que se inicia um ciclo que evolui e que pode acabar em um feminicídio.”

No caso de Flávio e da ex-companheira, o auxílio só veio após os primeiros conflitos no relacionamento. O mesmo aconteceu com Luís*, 46, que considera a ajuda positiva, porém tardia. Após ser denunciado por sua filha, ele chegou a ser preso por três dias e foi obrigado a participar de reuniões semanais no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). “No começo, achava que aquilo era uma perda de tempo, mas fui aprendendo coisas que mudaram minha vida. Hoje, considero que esse curso deveria ser dado até dentro das escolas e nas empresas privadas, porque é melhor atuar antes de o problema acontecer. A prevenção é mais barata.”

A atuação precária do governo no combate à cultura machista e baixa oferta de suporte primário aos casais que passam por conflitos são uns dos principais gargalos apontados pela terapeuta. “Ainda temos esse ponto frágil da prevenção. Isso é uma falha em diferentes setores, como a saúde, por exemplo. Muitas vezes pensamos no que fazer depois que o problema acontece, mas, por que não agir antes?”, questiona Camila de Aquino. Para ela, o Estado precisa pensar em ações que tragam visibilidade para reflexões sobre como se relacionar de forma saudável e respeitosa.

Importância

Depois de participar de várias rodas de conversa, ouvir pessoas capacitadas e dialogar sobre seu problema, hoje Luís consegue perceber a importância de não se colocar acima da mulher. “O homem não gosta muito de ouvir a esposa, mas, depois do curso, vi que tudo que eu pensava estava errado. Agora, eu ainda estou casado porém é uma relação completamente diferente. Quando a gente briga, começo a pensar mais, conversar... Se os ânimos se exaltam, a gente para e vê que é melhor respirar e continuar falando depois.”

Parte das orientações que ajudaram Luís vieram de João Wesley Domingues, coordenador do Grupo Reflexivo para Homens, do TJDFT. O projeto conduzido por ele começou em 2016 e atendeu 1,9 mil pessoas detidas por violência doméstica. “Todo homem que agride mulher apresenta uma justificativa, como bebida ou ciúmes. Mas por que ele direciona aquela violência à mulher?”, reflete. João acredita que, antes de tudo, é necessário que cada pessoa tenha consciência dos contextos sociais que levam às agressões, para que depois exista um processo de autorresponsabilização: “É muito importante acabar com a justificação da violência e a banalização”, pontua.

Conduta

A polícia comunitária é um estilo de gestão caracterizado pela proximidade entre os militares e a comunidade na qual atuam. O objetivo é estimular que os cidadãos repassem informações sobre problemas da vizinhança aos policiais, de forma a facilitar o trabalho e a efetividade na prevenção de crime.

NÚMEROS

O Provid visitou 3.670 casas,

atendendo, diretamente, 1.085 pessoas.

O acumulado de 2018 foi de

10 mil residências atendidas, alcançando 200 mil vítimas

Artigo

por Isabel Cristina Ribeiro

É preciso conversar

A violência contra a mulher é um fenômeno social, cujas bases se encontram na forma como homens e mulheres são socializados, desde a infância até a vida adulta. Em razão de sua gravidade, do número de vítimas e das sequelas que acarretam, essa violência é considerada hoje um problema de saúde pública. Atualmente, assistimos a um aumento preocupante no número de casos de violência e de feminicídios na sociedade. As pesquisas só não conseguiram responder se houve um aumento da ocorrência de violências, um aumento das notificações, ou ambos.

Apesar de o tema estar cada vez mais presente nas discussões sociais e em políticas públicas específicas, vem sendo tratado como um problema de apenas uma parcela da sociedade: as mulheres. A elas, cabe romper o ciclo da violência, a elas, cabe realizar a denúncia, buscar ajuda e transformar a própria realidade. Tal postura apenas expressa e reproduz um dos dispositivos da lógica machista, que determina que à mulher cabe tudo o que for relacionado ao cuidado. Reproduz ainda o estereótipo masculino de autossuficiência, uma crença de que os homens não precisam de ajuda ou que buscá-la os torna “menos homens”.

Seguindo nesses dispositivos enrijecidos sobre o que cabe ao homem e à mulher, como avançar na construção de relações saudáveis e livres de violência? O conflito é inerente às relações humanas, mas a violência, não. O feminicídio é a ponta de um iceberg que começa com sutilezas, desqualificações, controle, em uma lógica relacional de disputa de poder, em vez de parceria. Precisamos aprender a diferenciar uma relação saudável de uma relação abusiva, quando ainda seja possível atuar sobre a dinâmica e superação da violência. Para reduzir as estatísticas atuais, precisamos que toda a sociedade se ocupe com essa transformação, não apenas uma parcela dela.

E qual seria, então ,o lugar e a responsabilidade dos homens na superação e prevenção da violência nas relações íntimas? Não é possível combater a violência sem repensar masculinidades. Há recursos no âmbito de políticas públicas, como os núcleos de acompanhamento para autores de violência, e também no âmbito privado, como grupos reflexivos, de mútua ajuda sobre masculinidades e psicoterapias. Espaços como esses podem auxiliar os homens a construírem recursos para uma masculinidade menos tóxica, mais saudável. É fundamental, portanto, que os homens se impliquem não apenas na causalidade do problema, mas em sua solução.

A problematização da cultura machista foi iniciada pelos movimentos de mulheres, por sofrerem diretamente as violências que tal cultura permite. Porém, a construção de uma cultura de paz só será efetiva quando os homens compreenderem que o machismo também os limita, e se responsabilizarem pela construção de uma relação consigo e com o mundo mais saudável e livre.

Isabel Cristina Ribeiro é psicóloga especialista em violência familiar e gestora em políticas públicas do Nafavd



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