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Ainda carregamos o machismo dentro de nós', diz Rosa Montero

Ainda carregamos o machismo dentro de nós', diz Rosa MonteroFoto: Wikipedia

‘O feminismo, ou antissexismo, não é uma coisa de mulheres, é de todos’.

Estadão Conteúdo - 23/12/2019 - 10:42:26

Mulheres desafiadoras das normas vigentes inspiram a prosa da escritora e jornalista espanhola Rosa Montero - não como exemplo de feminismo no sentido mais superficial da palavra, mas como marco de persistência e inteligência no uso dos próprios recursos. Foram tais qualidades que encontrou em Marie Curie (1867-1934), cientista polonesa naturalizada francesa e que se notabilizou pelas pioneiras pesquisas sobre radioatividade.

Um pequeno texto de Curie sobre a morte do marido inspirou o livro A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver (Todavia), envolvente reflexão em que Rosa discute a finitude, uma vez que também havia perdido o companheiro em tempo recente. Não há espaço para lamúrias - a autora espanhola delineia os caprichos da vida ao redor, que nos larga sem aviso, por meio do humor e de sinceras reflexões. Atitudes que marcam sua obra, construída principalmente por mulheres que buscam seu espaço: não o tomado de outro, mas o que lhe é de direito. Sobre isso, ela respondeu por e-mail às seguintes questões:

Qual sua opinião sobre o #MeToo? O que mudou concretamente para as mulheres depois da explosão de movimentos como este?

Nos últimos anos, avançamos um pequeno degrau da história no processo de construção do sexismo, e isso é maravilhoso. E este novo degrau trouxe, como elemento novo e essencial, a inclusão pela primeira vez, e maciçamente, dos homens dentro do feminismo, o que é o lógico. O feminismo, ou antissexismo, não é uma coisa de mulheres, é de todos, estamos mudando as relações entre sexos e os estereótipos que nos esmagam, e isso afeta a todos por igual. É o que neste momento da história milhares de homens estão compreendendo. Na última manifestação do 8 de março (Dia Internacional da Mulher) em Madri, onde estive, dados oficiais indicaram que 370 mil pessoas participaram e 40% eram homens de todas as idades.

A senhora acredita que as mudanças foram uniformes? Ou as mulheres latinas, incluindo as espanholas, têm um longo caminho até a igualdade?

A Espanha é um dos países menos sexistas da Europa, o que não significa que não persista o machismo. Mas levamos anos sendo pioneiros em muitos campos do antissexismo. Quanto à América Latina, depende muitíssimo de cada país. A América Latina é um continente e entre os países existem enormes diferenças culturais, econômicas e de todo o tipo. De qualquer modo, o machismo continua forte em todo o mundo (além disso, as mulheres nos educaram no machismo e o carregamos dentro de nós). E há muitos países onde a situação da mulher continua trágica. Elas têm de sair cobertas, não podem andar sozinhas na rua nem trabalhar, não podem estudar, são mortas a pauladas, ou queimadas vivas por causa dos infames crimes de honra. No caso de mais de um milhão de meninas, elas têm seu clítoris cortado e outras coisas espantosas. Claro que existe desigualdade.

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‘O feminismo, ou antissexismo, não é uma coisa de mulheres, é de todos’. Na foto, protesto a favor do movimento #metoo nos EUABrian Snyder / Reuters - 20/1/2018

Quais serão as batalhas das mulheres nos próximos anos?

As mesmas, insisto, que as dos homens verdadeiramente homens e, portanto, também antissexistas. Primeiramente, será preciso lutar para manter as conquistas sociais obtidas, porque o mundo está se desviando para os espectros ultras, dogmáticos e retrógrados, da política, e tentaram voltar aos valores do passado. Em segundo lugar, é necessário exigir uma maior resposta, uma resposta autêntica da comunidade internacional para combater esse genocídio que a metade do mundo comete com relação às mulheres (como disse antes, a situação de escravidão, impedindo-as de estudar ou sair à rua sozinhas, matá-las, mutilá-las). Por último, continuar aprofundando a desconstrução do sexismo para conseguir que todos, mulheres e homens, possamos desejar ser quem queremos ser de verdade, sem ter de responder a estereótipos castradores.

A senhora disse em entrevistas que não acredita na “literatura feminina” (assim como não há uma “literatura masculina”). Por que é importante não fazer essa diferenciação?

Um livro é tudo o que o escritor ou escritora é. Depende do olhar que ele tem sobre o mundo, e esse olhar nasce de um milhão de circunstâncias. Das suas leituras, seus medos, sua língua, sua classe social, sua saúde, sua beleza ou fealdade (porque seu olhar sobre o mundo será diferente, dependendo também disso), do fato de ter nascido e crescido no campo ou numa grande cidade, do seu país, seus gostos, seus acidentes, enfim, de tudo. E, dentro desse todo, o fato de ser homem ou mulher. Mas hoje as diferenças de visão decorrentes do fato de ser homem ou mulher no mundo ocidental não são algo objetivo, elas não constituem por si mesmas uma ramificação particular da narrativa. Não é possível detectar. Seria outra coisa se falássemos, por exemplo, de uma escritora no mundo talebã, que não pode sair à rua e tem de escrever às escondidas em sua casa. Neste caso, sim, há diferenças, porque sua percepção do mundo é radicalmente diferente.

Seu livro mais recente, A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver , procura analisar qual é o papel da mulher na sociedade?

Não. Este não é o tema principal do livro. Ele busca saber como podemos, todos nós, homens e mulheres, aprender a viver uma vida mais plena e mais serena. Mas claro, embora seja um livro basicamente sobre a vida, ele também trata da morte, porque, para conseguir alcançar essa plenitude vital, é necessário chegar a um acordo com a morte - com a morte propriamente dita e a dos entes queridos. Esta é a essência do livro. E depois, na sequência dessa busca, dessa aprendizagem, são ventilados muitos outros temas: o desejo, sexual e amoroso, e ainda o simples desejo da vida, que muitas vezes é capturado pelos desejos que nossos pais projetam em nós (o mandato materno e paterno é muito poderoso e às vezes destroça nossa vida). A ambição, o medo, a criatividade, o fracasso... Muitos temas, e entre eles, claro, o fato do que significa, a esta altura, ser homem ou ser mulher, e que dificuldades as mulheres enfrentaram historicamente para encontrar o seu caminho.

Como é partir de uma história alheia, como a de Marie Curie, e ir desvendando-a, ao mesmo tempo que a vincula com episódios essenciais da sua própria vida?

O livro saiu com toda a naturalidade, li o pequeníssimo diário de pesar, com apenas 25 páginas, que Marie Curie escreveu durante o ano posterior à morte do seu marido, um texto que é um grito de dor e, naquele momento, meu livro irrompeu dentro da minha cabeça, surgiu inteiro, soube ali que desejava compartilhar com Marie uma série de reflexões sobre a vida que são básicas e que todos nós, homens e mulheres, fazemos antes ou depois: esta é a vida que desejo verdadeiramente viver, o que posso fazer com o medo da morte, e todas as perguntas em torno dos temas a que me referi antes, como o fracasso, o sucesso, o desejo. E compreendi que devia retornar a essas perguntas na vida de Marie Curie para ver como ela enfrentou tudo isso.

Pareceu-me curioso o emprego das hashtags para ressaltar grandes temas tratados no livro, como #Culpa e #Ambição. Como teve essa ideia?

Também surgiram muito naturalmente. É um símbolo que indica que se trata de um pensamento em construção, em desenvolvimento ao longo do livro. Porque este livro tem algo de ensaio, mas um ensaio pouco convencional, com várias linhas de pensamento que vão se cruzando, com encadeamentos de ideias que aparecem e desaparecem e depois ressurgem. As hashtags servem para avisar o leitor que aquela palavra ou aquela frase é um tema que vai se desenvolvendo ao longo do livro. E, embora o leitor não entenda de modo consciente que a intenção é esta, o mais interessante é que as hashtags funcionam. Nós, seres humanos, somos muito bons em decifrar símbolos, embora não saibamos disso.

Se Marie Curie vivesse hoje, como seria? O que ela faria?

Seria novamente Prêmio Nobel em alguma disciplina científica, mas sua vida teria sido muito menos difícil.


Nascida em 1951, em Madri, Rosa Montero estudou Jornalismo e Psicologia. Desde 1970, colabora com diversos veículos de comunicação na Europa e na América Latina, trabalho pelo qual recebeu vários prêmios. Importante nome da literatura espanhola contemporânea, teve seus livros traduzidos para mais de 20 línguas e, em 2017, ganhou o Prêmio Nacional de Letras, na Espanha.


Expediente

Editor Executivo Multimídia
Fabio Sales
Edição de fotos
Serjão Carvalho e Ana Carolina Sacoman
Edição de textos
Ana Carolina Sacoman e Ubiratan Brasil
Reportagem
Ubiratan Brasil, Maria Fernanda Rodrigues e Guilherme Sobota

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