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Além de muros e guerras: um grande mosaico de arte política no Iraque

Além de muros e guerras: um grande mosaico de arte política no IraqueFoto: Estadão

Pinturas, esculturas, fotografias e santuários homenageando manifestantes mortos são artes com tom político de um tipo raramente visto no país

Alissa J. Rubin, The New York Times - Estadão Conteúdo - 19/02/2020 - 09:39:27

O adolescente para em frente a um mural na parede de um edifício-garagem inacabado, ansioso para explicar o significado ao visitante. “O homem do meio está pedindo às forças de segurança: ‘Por favor, não atirem em nós, nós não temos mais nada, nada’”. O jovem de 18 anos, chamado Abdullah, enfatiza o ‘nada’ contemplando a imagem em preto e branco na parede. Desenhado a carvão num estilo realista-socialista, o mural, de quatro metros de comprimento, mostra um grupo de homens carregando nos braços companheiros caídos.

Abdullah é um guia artístico não oficial de uma das galerias menos imagináveis: a casca de uma estrutura de 15 andares, conhecida localmente como Restaurante Turco, que se debruça sobre o Rio Tigre. Os primeiros cinco andares do prédio são um dos vários pontos artísticos que brotaram em Bagdá na esteira da recente onda de protestos antigovernistas. Paredes, escadarias e parques foram transformados em enormes telas.

De onde vem essa arte? Como pode uma cidade na qual a beleza e as cores foram praticamente suprimidas há décadas pela pobreza, a opressão ou a indiferença de sucessivos governos ganhar de repente tanta vida? “Temos muitas ideias para o Iraque, mas ninguém do governo nos pergunta quais são”, pontuou Riad Rahim, de 45 anos, professor de arte.

Pinturas, esculturas, fotografias e santuários homenageando manifestantes mortos são uma arte política de um tipo raramente visto no Iraque, onde se faz arte há pelo menos 10 mil anos. “No começo, foi só uma rebelião, mas agora é uma revolução”, afirmou Bassim al-Shadhir, iraquiano-alemão que viaja entre seus dois países e participou dos protestos. “Hoje, no Iraque, existem artes plásticas, teatro, conferências e distribuição gratuita de livros", enumerou.

Ele é autor do mural que mostra um homem morto pelas forças de segurança, com o sangue que ainda corre do coração formando uma poça grande demais para ser oculta pelos militares mascarados em pé atrás do corpo. Perto, outro mural pede às Nações Unidas que socorram o Iraque. Outro ainda mostra um mapa do país dentro de um coração e a frase “Oh, meu país, não sofra tanto”.

Numa pintura no prédio do Restaurante Turco, um tuc-tuc paira acima de um teto. Os veículos de três rodas, que não requerem licença para dirigir e viraram ambulâncias não oficiais, levando feridos para tendas de primeiros socorros, são hoje mascotes dos manifestantes.

Mais de 500 pessoas foram mortas e milhares feridas nos protestos. Uma galeria de retratos em um parque atrás da Praça Tahir mostra fotos dos mortos.

Recentemente, Rahim e um amigo começaram a fazer maquetes de seis monumentos históricos iraquianos. Eles já concluíram a do minarete de Al Hadba, em Mossul, destruído na luta com o Estado Islâmico, a do zigurate (templo babilônico) de Samarra e a do prédio do Restaurante Turco. “Queremos mandar ao mundo a mensagem de que esta é nossa cultura – somos educados, somos pintores, poetas, músicos, escultores – e isso é o que significa ser iraquiano”, explicou Rahim. “O Iraque não tem apenas lutas e guerras, como muitos pensam”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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