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Após agressões físicas e psicológicas, mulheres encontram novos significados para a vida

Após agressões físicas e psicológicas, mulheres encontram novos significados para a vidaFoto:

Djana Prado passou o Natal de 2017 na rua devido a agressões do ex-marido e ao preconceito de pessoas próximas. Este ano, celebra a superação

Por Alan Rios - Correio Braziliense - 26/12/2018 - 08:52:54

Lugar de fala e de acolhimento

Após agressões físicas e psicológicas, mulheres encontram apoio e buscam novos significados para a vida, rompendo os ciclos de violência. Espaços para compartilhar relatos e vivências funcionam em Samambaia e na Asa Sul.

No dia do Natal de 2017, Djana Prado dormiu na rua. A mulher de 38 anos até tinha uma casa, mas dormir no chão, sem um teto, no frio, era mais seguro do que voltar para lá. “Eu estava comemorando com meu marido, mas ele começou a beber demais e a ficar agressivo. Nós discutimos e ele me bateu muito. Quando eu consegui escapar, corri para fora e ele não me alcançou. Mas eu não tinha para onde ir; então, dormi na rua. Passei o Natal na rua.”

Apesar de ter se sentido isolada, Djana não estava sozinha. Ela é uma das milhares de vítimas de violência doméstica do Distrito Federal, capital que registra todo dia mais de 30 casos de agressões sofridas por mulheres. Mas, ao mesmo tempo, surgem locais de apoio para que elas sejam ouvidas, como o projeto de terapia comunitária gratuita no Recanto Ecológico Saburo, em Samambaia.

Em meio à área verde, Djana continua seu relato. “Ele me jogou no chão, me chutou e fez tudo o que uma pessoa pode fazer de ruim, mas eu não podia nem ir para a casa dos meus familiares, porque já ouvi deles que eu merecia apanhar”, conta a paisagista. Ouvindo tudo aquilo, pessoas que sabem o que é ser vítima dessas violências físicas e psicólogas acompanham cada frase que sai com dificuldade da boca de quem tantas vezes foi calada. Uma das ouvintes é Neuza Batista, a assistente social e terapeuta que criou o Projeto Renascer.

“Desde quando eu ainda estava na faculdade de psicologia, muitas mulheres já me procuravam. E percebi que elas precisavam desse apoio. Então me formei, consegui um espaço ecológico e começamos a fazer sessões de terapia comunitária, constelação familiar, meditação, reiki e yoga. Tudo sendo oferecido de graça para a comunidade há sete meses”, explica Neuza.

O interesse em fornecer esse auxílio era antigo. Há 20 anos, ela começou seus trabalhos de assistente social em comunidades do Pôr do Sol e do Sol Nascente, áreas de Ceilândia que abrigam muitas famílias de baixa renda. “E lá eu percebi que a violência doméstica era algo comum na nossa sociedade, tanto que as próprias vítimas tinham dificuldade em perceber que estavam sendo maltratadas.” Neste ano, o sonho de criar um grupo de apoio gratuito saiu do papel e começaram os atendimentos semanais em Samambaia.

Maria*, 47, viveu durante cinco anos em um relacionamento em que ela só podia sair de casa acompanhada do marido. Mas só com a terapia conseguiu enxergar e enfrentar a situação de violência. “Fiquei esse tempo todo sendo torturada psicologicamente pelo homem que vivia comigo, e demorei a perceber que o que ele fazia era quase um cárcere privado. Eu tinha que andar com ele e olhando para baixo, porque ele brigava comigo sempre que eu cumprimentava alguém, achando que eu tinha um caso com essa pessoa. E, mesmo assim, eu me sentia culpada, pedia desculpas, falava que eu estava errada em toda briga.”

Escuta atenta

Com Elizabeth*, a situação foi ainda prio. Mesmo após ter sofrido vários casos de agressão dentro de casa, foi julgada. Colocavam nela a culpa de tudo o que aconteceu. “Meu marido sempre me desmerecia, eu sofria muita agressão psicológica e verbal. Mas o pior aconteceu com minha filha, de 4 anos. Em 2016, ela começou a ter comportamentos estranhos na escola, só queria ficar embaixo da mesa, não interagia com ninguém e chorava muito. A professora conversou comigo, me alertou que poderia ter acontecido algo e, quando conversei com ela, ela me contou o que o pai dela fez. Na mesma hora, corri direto para a delegacia e fomos para o Instituto de Medicina Legal (IML). Lá foi constatado o estupro”, relata.

Fora do espaço ecológico onde participa da terapia gratuita, Elizabeth ouviu muitas acusações de que ela era a culpada. Ela não entendia, porque não havia escolhido qualquer pessoa para ter um filho e o casal planejou muito a gestação daquela criança. Com a assistência social e o auxílio dos professores e da diretora da escola da menina, a mãe conseguiu encontrar ajuda para seguir em frente. Fez acompanhamento no Programa de Prevenção e Atendimento às Pessoas em Situação de Violência (PAV) e depois conheceu o Projeto Renascer, onde está até hoje. “O pior já passou. Toda vez que vejo essas pessoas que me acolheram, meus olhos se enchem de água.”

Maria também conseguiu sair do relacionamento abusivo e hoje namora um homem totalmente diferente, cuidadoso, carinhoso e respeitoso. “Percebi que temos que nos amar para sermos amadas. Um conselho que eu dou é: lute! Não desista de você, você pode”, afirma.

E, para Djana, o fim de 2018 será diferente. “Por meio das terapias, nós encontramos força para mudar nossas situações, nos protegermos e nos valorizarmos, virando um poste para dar luz a outras mulheres que estão por baixo, sendo agredidas. Então, quero que outras mulheres conheçam minha história e pensem ‘se ela conseguiu, eu também consigo’. Eu consegui me libertar.”

Serviço

Projeto Renascer

Endereço:

Recanto Ecológico Saburo.

Área especial 1,

Feira do Produtor de Samambaia.

QN 614 — Samambaia Sul

Projeto Support

Endereço:

Ed. Multiempresarial,

701 Sul, Sala 309

Recuperação da autoestima

A psicóloga Karoline Barcelo explica que não é simples quebrar um ciclo de violência e terminar um relacionamento abusivo. “Uma pessoa que nunca sofreu violência não tem noção do que as vítimas passam. Elas são anuladas pouco a pouco, não é uma coisa que acontece de uma hora para outra. Quem sofre as agressões não está saudável emocionalmente e não tem estrutura para sair disso.”

Foi pensando nisso que a especialista e uma colega de profissão, Jeane Cristine, se reuniram para criar outro programa de apoio gratuito, o Projeto Support.

“Nós reunimos um grupo e discutimos temas que vão impactar, para que elas possam enxergar que estão dentro de um relacionamento abusivo. Depois, temos um tempo individual e, caso identifiquemos uma demanda, encaminhamos para a terapia convencional. No fim, vamos começar a dar cursos de qualificação profissional e pretendemos fazer parcerias para encaminhar as mulheres que passarem por essa etapa para o mercado de trabalho”, conta Jeane.

Uma das primeiras participantes foi Juliana*. A mulher de 34 anos sofre violências recorrentes do marido. Além das agressões, que já a levaram ao hospital, discussões por conta da roupa que ela usa fazem parte do cotidiano. “Eu não via solução para mim, porque meu marido dizia que ia me matar e depois se matar. Mas, quando cheguei à terapia, ouvi: ‘Fica tranquila, porque você não estará sozinha mais’, e aquilo mudou tudo.”

“Aqui eu fui recebida e, pela primeira vez, voltei para a casa querendo viver. Tive mais confiança e me senti bem e até lembrei do que eu gostava de fazer, porque já tinha esquecido do que eu tinha de qualidade”, diz, emocionada.

* Nomes fictícios

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