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Após fraudes na UnB, estudantes negros cobram rigor na aprovação por cotas

Após fraudes na UnB, estudantes negros cobram rigor na aprovação por cotasFoto: Metrópoles

Movimento negro negocia criação de Diretoria de Ações Afirmativas – uma banca para avaliação dos cotistas e de combate ao racismo

Francisco Dutra - Metrópoles - 15/07/2020 - 07:28:36

Após fraudes no sistema de cotas raciais da Universidade de Brasília (UnB), estudantes do Movimento Negro cobram rigor na aprovação de cotistas pela instituição. Para evitar novos episódios, combater o racismo e implantar políticas de inclusão e respeito, defendem a criação da Diretoria de Ações Afirmativas, ligada diretamente à Reitoria da universidade.

A diretoria seria composta por alunos e professores do Movimento Negro. Do ponto de vista de Jack Di Araújo Vieira, psicólogo, mestrando em Direitos Humanos pela UnB, ativista do movimento antirracista e LGBT, o novo órgão teria a missão de organizar uma banca de identificação para fazer a avaliação presencial de cada cotista aprovado antes da matrícula na instituição.

As denúncias de fraudes partiram dos próprios estudantes do Movimento Negro em 2017. Desde então, a universidade investigava as denúncias e, nessa segunda-feira (13/7), decidiu expulsar e anular créditos e diplomas de 25 estudantes acusados. O caso ainda será avaliado pelo Ministério Público Federal (MPF). Para Jack, o capítulo destaca a importância da vigilância e do monitoramento das cotas.

“A implantação da Diretoria de Ações Afirmativas também teria a missão de implementar a política racial dentro da UnB. Essa é nossa maior luta. Estamos em diálogo com a Reitoria”, afirmou. “A gente também iria acompanhar e apurar os casos de racismo e dar uma resposta para a universidade. Buscar uma resolutividade destes casos”, completou o ativista

UnB embranquecida

O Movimento Negro imagina que existam mais fraudadores. “Os dados mostram que mais de 50% dos alunos da UnB são negros. Claro que não. A UnB não é negra. É uma universidade super embranquecida. A UnB mudou muito. Não é mais aquela de 10 anos atrás, super branca. Mas certamente esse dado de 50% não corresponde à realidade e ao dia a dia”, ponderou.

Neste sentido, o ativista frisou: a cobrança e o diálogo constante do Movimento Negro foi determinante para a conclusão da comissão de investigação das fraudes montada pela instituição. As suspeitas pairam, inicialmente, sobre os cursos de Medicina e Direito, que reuniam a maioria dos estudantes expulsos nesta semana.

Cotas destorcidas

“O racismo no Brasil é silencioso, nos exclui dos espaços. No campus de Saúde, de Medicina, a gente não está lá, mas a cota está, e será usada. Mas quando é usada vemos o racismo que existe na própria instituição: a gente sabe que existem pessoas que conseguem entrar na universidade de forma clandestina”, lamentou Jack.

Mayara Castro de Souza, mestranda do programa em Direitos Humanos e Cidadania, compartilha da opinião do colega. Ela entrou na UnB pelas cotas e passou por uma avaliação presencial em 2012. A sessão foi filmada e a estudante, arguida por pessoas negras. Na época, a situação foi desconfortável. Mas após as fraudes, a universitária mudou de postura e defende a volta da banca.

“A banca é necessária para a política de cotas ser implementada como deveria ser. Da forma como o Movimento Negro militou e pautou a questão. Foi uma vitória. E a gente precisa efetuá-la de forma sincera e verdadeira, como a política definitiva”, explicou. Segundo Mayara, a aplicação apenas da autodeclaração também abre brechas para fraudes em concursos públicos.

Ela considera justo que a UnB busque as pessoas lesadas pelos 25 fraudadores da política de cotas, os alunos e alunas que deixaram de entrar na universidade nas vagas destinadas a indígenas e negros porque outros estudantes conseguiram burlar a seleção. Para ela, isso seria uma forma de reparação do dano causado a negros e indígenas.

Mayara afirma que o Movimento Negro está organizando um coletivo de ações afirmativas na UnB. “Não só a UnB. O racismo é estrutural. E, infelizmente, para a instituição não ser racista, ela tem que praticar pautas anti-racistas. O nosso sistema brasileiro ainda tem uma dificuldade imensa em relação a isso”, destacou.

O Metrópoles perguntou para Mayara se ela já sofreu racismo na UnB e a resposta foi imediata. “Com certeza. A partir do momento em que a maioria da população é negra, mas entro numa universidade onde só tinha eu mais três alunas negras em uma turma, eu sofri racismo. E vi isso lá. A todo momento”, encerrou.

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