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Ator potente e com olhar amplo

Ator potente e com olhar amploFoto: Correio Braziliense

Cauã Reymond fala sobre a experiência de filmar com Matheus Nachtergaele em Piedade, longa que abriu o Festival de Brasília

Ricardo Daehn-correio Braziliense - 25/11/2019 - 08:06:52

Claudio Assis, diretor do longa Piedade (concorrente ao Festival de Brasília) propiciou o encontro de Cauã Reymond com o grande público e, claro, o burburinho que ele sempre causa. O filme trata do esfacelamento de uma família frente ao poderio do avanço industrial. “Assis é um diretor irreverente, faca na caveira. Ele sempre te desafia, subverte e bota o dedo na ferida”, observa Cauã. Num telefonema de Assis, sob o tratamento de ‘cabra’, Cauã não pestanejou: mesmo sem ler o roteiro, tomou parte de Piedade.


Inseguro “mas feliz”, Cauã, que, reencontrou, no filme, Fernanda Montenegro (a Bia Falcão de Belíssima), encarou um lotado Cine Brasília na noite de sábado. Ao lado dele esteve um dos atores mais participativos dos filmes de Claudio Assis: Matheus Nachtergaele. Numa cena comentada, veio o pesado desafio: uma cena gay com o personagem de Nachtergaele.

Coube ao astro de O auto da compadecida, na base da brincadeira, a avaliação do eventual parceiro da ficção: “Você sabe que uma cena de sexo diante das câmeras não é bem uma cena de sexo. Temos dificuldades adicionais (risos). É o estabelecimento de uma intimidade, diante de muitas pessoas da equipe. É preciso ter fé cênica, mas respeitar muito teu amigo de cena. Para saciar os desejos mais sórdidos (risos), posso confirmar, efetivamente, que Cauã é um homem lindíssimo. Mas o sexo, no filme, entra com o sentido de um sexo predatório, a serviço da história”, descreve Nachtergaele.


Como é levar o emblema de ator global fazendo filme alternativo? Que peso tem em ser Cauã Reymond?
Já fiz tantos filmes! Quando se fala isso, vem a anulação de uns 13 filmes feitos. Ouço isso e soa como 17 anos de eterna estreia (risos). Não tenho o peso de ser o Cauã — tenho a sensação de movimento, de força. Ser um ator global me ajudou a possibilitar os projetos de cinema. Inclusive, há dois anos, abrimos o Festival de Brasília com o longa Não devore meu coração, do qual sou coprodutor. Chegamos com o filme em festivais como Sundance e Berlim. Há seis anos tenho sido coprodutor de filmes numa lista que traz Alemão, Uma quase dupla e Tim Maia. Com a minha popularidade, ajudo a captar recursos e criar filmes nos quais acredito. Na maioria das vezes, nem são os comerciais. Eu sou mesmo é do cinema rebelde, do cinema de arte. Isso modificou e me levou a trabalhar em registro diferente na televisão. Principalmente na época em que as linguagens de tevê e cinema não se misturavam muito.

Quais são teus próximos projetos?
Sou produtor do Pedro, uma ideia minha e do meu sócio Mário Canivello. Convidamos a Laís Bodanzky para dirigir. É uma coprodução portuguesa. Vou ser protagonista da próxima novela das nove, depois de Amor de mãe, que será de Licia Manzio. Tô no ar, há menos de um mês, com a segunda temporada de Ilha de Ferro. Da novela, posso falar que faço dois irmãos, que são gêmeos (risos). Fiz a série Dois irmãos, na mesma condição. Na novela, eles serão muito distintos. Voltando ao cinema: no Pedro, faço D. Pedro I — a gente conta a história por meio de um olhar feminino. É a trajetória de quando ele foi expulso do Brasil até a chegada em Portugal. O espectador o vê fragilizado, mas conseguindo se reerguer, na chegada a Portugal, e sua reconquista do trono, com apoio de um Exército infinitamente menor.


E a cena que não quer calar, em Piedade, do encontro gay do teu personagem com o do Matheus Nachtergaele...
Tinha feito um filme com a Leandra Leal em que interpretei um homossexual. Foi muito bacana, chamava Estamos juntos e ganhei até prêmios. Não era um mergulho tão vertical quanto o exigido pelo Claudio Assis. O Matheus, agora, até disse pra mim: ‘Tô com medo que as pessoas se decepcionem (risos)’. Elas tão imaginando tantas coisas, há dois anos (risos). Tivemos muita exposição por causa do trecho do filme (risos). Quanto à pegada dele (risos)... O Matheus é um tubarão no filme. Ele tem que ter pegada, em todos os aspectos. O personagem dele é multinacional e pretende comprar terras de todo mundo, por conta da indústria do petróleo. Ele tem pegada com todos os personagens. Quanto ao filme, nem sabia se queria ver, pelo nervosismo e insegurança. Há uns sete anos não gosto de me assistir. Se tiver passando e vejo uma cena, eu paro. Só vejo os filmes em que sou produtor, ultimamente, porque esses sou obrigado a ver (risos).


Como é chegar quase aos 40 anos?
A gente vai amadurecendo. Isso te dá um olhar crítico sobre você mesmo. Você entende melhor acertos e erros. Pode soar arrogante, mas te dá uma potência, um olhar para o mundo mais amplo. Mais jovem, você olha mais para seu umbigo. Principalmente antes de ser pai. A paternidade e a maturidade agregaram um olhar amplo em mim. Tenho minha filha de sete anos (do casamento com Grazi Massafera). Considero que sou um artista que está sempre desabrochando, e curioso.


Qual o papel do ator, neste tempo de valorização das mulheres, das diretoras, das atrizes?
É o de abraçar a igualdade, em todos os aspectos. Nosso período de mudança não fala só do feminino. Fala de todos os gêneros, e de todas as possibilidades da sexualidade. Temos falado sobre racismo — é uma defesa de igualdade, como um todo. Há um tempo atrás, saí de uma novela e fiz um clipe da Barbara Ohana. Fiz um homem que se vestia de mulher. Não gosto de rotular trans ou travesti. Gosto de expressar um lugar mais amplo, e ali defendemos a tolerância. Abraçar as mudanças faz parte do artista.

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