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Basta de covardia! Chega de mortes! Entre a revolta e a tristeza

Basta de covardia! Chega de mortes! Entre a revolta e a tristezaFoto: Pixabay

Professora de 43 anos é a 13ª vítima de feminicídio no Distrito Federal neste ano. Policial civil, que viveu relacionamento de menos de um ano com a servidora pública, a assassinou no local de trabalho e, depois, se matou.

Correio Braziliense - 21/05/2019 - 05:25:53

O acusado Sergio Murilo dos Santos Tinha 51 anos Nasceu em Natal (RN) Era policial civil desde 1996 Trabalhava na 13ª DP (Sobradinho) desde julho de 2018 Morava em Sobradinho Tinha dois filhos, de 20 e 17 anos A vítima Debora Tereza Correa Tinha 43 anos Nasceu em Brasília Era professora da Secretaria de Educação desde 2001 Morava na Asa Norte Não tinha filhos

A sede da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro tornou-se palco do 13º feminicídio registrado na capital federal neste ano. Na manhã de ontem, o policial civil Sergio Murilo dos Santos, 51 anos, entrou com uma pistola calibre 40 no edifício da Secretaria de Educação, na 511 Norte, e disparou três vezes contra a ex-namorada, a professora Debora Tereza Correa, 43. Depois disso, ele se matou. A 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) investiga o caso. Ainda não há data prevista para os sepultamentos.

Segundo relatos, Debora Tereza enfrentava problemas com o companheiro desde o início do relacionamento, em 2017. Naquele ano, ela registrou uma ocorrência por injúria, ameaça e dano material contra Sergio na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam). Em agosto passado, uma discussão entre o casal terminou na 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho), onde ele trabalhava.

Na ocasião, os dois estavam em um carro. Debora pediu para descer do veículo, mas Sergio não deixou. Após alguns minutos brigando, a vítima conseguiu sair e pediu para que um casal chamasse a polícia. O homem tirou fotos do policial civil, que se exaltou. Eles se agrediram e foram encaminhados para a delegacia. Ali, os dois homens acabaram autuados por lesão corporal, e a professora pediu medidas protetivas contra Sergio pelas ameaças sofridas.

Apesar de o pedido ter sido deferido pela Justiça, Debora não cortou relações com o agente. Eles permaneceram juntos e, em setembro, quando tiveram uma briga, ela acionou a polícia. Sergio não foi preso, sob a alegação de que a professora permitia o contato entre os dois, e usou como testemunha o porteiro do prédio onde ela morava à época. Segundo relatos de amigos, a vítima acabou o namoro no ano passado, ao descobrir que o policial era casado, e se mudou para a Asa Norte. Ela deixou de atuar em Sobradinho e passou a trabalhar no Plano Piloto.

Uma colega de trabalho que preferiu não se identificar disse que Debora queria terminar o namoro, mas Sergio não aceitava e a perseguiu ao longo de dois anos. “Nesse dia, ela fez ocorrência, passou a ter medida protetiva e se mudou de Sobradinho, onde ambos moravam, para ele não encontrá-la mais”, relatou. Ainda segundo a servidora, os dois nunca viveram juntos e, mesmo após as denúncias, ele continuava atrás dela. “Quando alugou um novo local, ela não colocou nada em nome próprio e mudou de celular, mas ele a rastreou pelo trabalho”, completou.

O policial civil chegou ao prédio da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte, às 9h42: armado e sem revista na entrada
O policial civil chegou ao prédio da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte, às 9h42: armado e sem revista na entrada
O policial civil chegou ao prédio da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte, às 9h42: armado e sem revista na entrada O policial civil chegou ao prédio da Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro, na 511 Norte, às 9h42: armado e sem revista na entrada

Pânico

Sergio chegou ao local em um carro de transporte por aplicativo e entrou armado no edifício, às 9h42. Aparentando tranquilidade na portaria, ele apresentou a identidade funcional e disse que precisava avaliar o andamento de um processo com entrada na Regional de Ensino de Sobradinho. Passou da recepção sem ser revistado. O policial civil, então, dirigiu-se ao terceiro andar, onde fica a Subsecretaria de Gestão de Pessoas, e pediu para falar com a ex-namorada, funcionária do setor. Não se sabe, ainda, se ambos conversaram, mas, depois de a vítima se virar de costas, ele atirou três vezes contra ela. Em seguida, disparou contra o próprio olho.

A professora da Secretaria de Educação e advogada Lucilene Marques, 44, chegou ao prédio minutos após os tiros, antes da Polícia Militar. “Foi surreal, uma tragédia de cena de filme. Ele se apresentou como se fosse resolver um processo administrativo. E, quando viu a Debora, sorriu para ela. Mas, depois, deu os tiros”, contou a servidora, a partir de relatos de colegas.

A servidora da Secretaria de Educação Isabel Helena Rabelo, 47, estava em uma das salas de fundo do prédio quando ouviu um barulho. A princípio, pensou que alguns armários tivessem caído. “O ruído foi muito forte. Não deu para identificar o tiro. De repente, todo mundo saiu gritando. Foi quando soubemos que um homem tinha atirado contra uma servidora. Foi um momento desesperador e de pânico”, relatou.

A Polícia Civil ainda apura os detalhes do caso. “É um fato lamentável. Estamos tomando todas as providências para falar com as testemunhas e saber as causas e os porquês de algo tão trágico. A Corregedoria-Geral da Polícia também está investigando”, ressaltou o delegado Laércio Rossetto, da 2ª DP. Em novembro, Sergio foi condenado pela Vara de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Sobradinho por crime de violação à Lei Maria da Penha. A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público, em defesa de Debora, mas o réu recorreu e, em março, foi absolvido em segunda instância.

Em nota, a Secretaria de Educação lamentou a morte da servidora. “Neste momento de dor, a SEE/DF (Secretaria de Educação) se solidariza com a família, os amigos e os colegas da servidora. A pasta está à disposição para contribuir na investigação do caso.” O secretário de Educação, Rafael Parente, não estava no local no momento do crime e cancelou a agenda do dia para seguir até a Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto e Cruzeiro. “Está todo mundo muito triste e em choque tentando saber o que fazer para que isso não aconteça mais dentro das regionais, dentro das escolas. A gente não pode viver com medo e estado constante de que alguma coisa vai acontecer”, disse Rafael.


Empenho coletivo

O governador Ibaneis Rocha (MDB) lamentou o caso e anunciou que o governo investirá em campanhas para combater o feminicídio. Segundo o chefe do Executivo local, para isso, será necessário que toda a sociedade contribua. A proposta do GDF, segundo ele, é investir em campanhas publicitárias para que familiares e vizinhos denunciem a violência e para que os índices desse crime diminuam. “Temos de ter atuação mais forte. Também precisamos do Poder Judiciário mais presente. As mulheres não devem, de maneira nenhuma, se calar”, destacou.

Por SARAH PERES e WALDER GALVÃO

Entre a revolta e a tristeza

Familiares de Debora Tereza não sabiam que ela sofria ameaças e perseguições do policial civil Sergio Murilo, casado havia 19 anos. Segundo os parentes, a vítima era reservada e não compartilhava a vida pessoal.

Em um apartamento de cinco cômodos na Asa Norte, familiares, amigos e colegas de trabalho de Debora Tereza Correa, 43 anos, se reuniram na tarde de ontem. A todo momento, o interfone tocava, conhecidos chegavam e se acomodavam em algum canto livre na casa da vítima. A mãe da professora de português, de 72 anos, era a mais abalada com a morte da filha. O rosto denunciava choro contínuo e, devido à fraqueza, foi levada para o Hospital de Força Aérea de Brasília (Hfab).

O irmão mais velho da vítima, Samuel Correa, 53, não conteve a emoção. “Isso destruiu a minha família. Perder a minha irmã assim é uma tragédia muito grande. A minha mãe está péssima, sem conseguir raciocinar direito. Para o meu pai, parece que a ficha não caiu. Para mim, parece que não é real”, desabafou.

Os familiares de Debora não sabiam das ameaças e das perseguições sofridas pela servidora da Secretaria de Educação. “Só vi esse sujeito (Sergio Murilo) algumas vezes. A minha irmã era muito reservada. A única coisa que ela nos disse é que estava em um relacionamento complicado com esse homem, mas não dava detalhes”, acrescentou Samuel. “Quando passava por alguma dificuldade, ela guardava para si. Parecia o tipo de pessoa que acreditava ser capaz de resolver tudo sozinha”, lamentou.

Samuel questiona o fato de Sergio Murilo ter mantido o porte de arma mesmo depois de ter sido denunciado três vezes pela vítima e condenado, em primeira instância, pelo Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher de Sobradinho, em 2018. “Como uma pessoa com o histórico dele continuou com o revólver? Acho que teve uma omissão muito grande nesse aspecto. Isso nos faz pensar se apenas a medida protetiva, realmente, é capaz de proteger a vítima. Além de tudo, ele entrou armado na sede da Secretaria (de Educação) e a matou. É revoltante”, ressaltou.


Mancha

O policial civil era casado havia 19 anos e morava com a mulher e a filha do casal, em Sobradinho. Abalada, a companheira do agente não conversou com a reportagem. No entanto, um familiar dela contou que a tragédia surpreendeu a todos. “Não conseguimos acreditar no que aconteceu”, disse. Segundo a parente, o casamento de Sergio não passava por problemas, e ele nunca deixou a casa da família. “Ele era uma pessoa tão calma que muita gente nem acreditava que era policial”, afirmou. Ela acrescentou que a relação do investigador com a vítima foi descoberta pela família, ontem, por meio de reportagens. “É uma situação difícil, principalmente para os filhos. Todas essas informações publicadas só nos deixam mais confusos. A situação está desencontrada e ainda temos de lidar com a perda de uma pessoa”, relatou.

A colegas de trabalho, Sergio relatou estar em processo de separação. A história veio à tona após a primeira ocorrência registrada na 13ª DP (Sobradinho) sobre o relacionamento dele com Debora. “Ele disse que continuava morando no mesmo imóvel, enquanto procurava uma quitinete na região, mas que os laços do casamento estavam cortados”, afirmou um policial civil.

Quando houve o descumprimento da medida protetiva de Debora, em setembro, agentes da unidade onde Sergio atuava questionaram a postura dele. “Depois desse último caso, ele disse que o relacionamento havia acabado. Inclusive, chegou a relatar que estava com outra pessoa. Todos ficamos surpresos, porque ele, simplesmente, passou para o outro lado. Antes de tirar a própria vida, tornou-se um assassino, o que combatemos todos os dias. Ele manchou a bandeira da Polícia Civil”, acrescentou o policial.


Três perguntas para

Lourdes Bandeira, professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB)

Dos 13 feminicídios até agora no DF, quatro foram na região de Sobradinho. Há algum

motivo para esse crescimento e medidas que podem ser feitas na área específica?

A princípio, a região onde acontecem os crimes não é determinante para eles. Mas, quando se começa a observar a recorrência, é necessário uma análise profunda. Avaliar naquele contexto se há a cultura da denúncia por parte da mulher, se há um descaso por parte das forças de segurança, se há punições aos agressores e proteção às vítimas que funcionam. Após esse levantamento, é necessário atuar nas áreas identificadas como mais críticas, tanto com ações preventivas quanto com uma atuação integrada entre comunidade, polícia e Justiça.

Mesmo com uma condenação em primeira instância e outras denúncias de violência doméstica, a medida de restringir o porte de arma não foi levantada. Considera isso uma falha?

Com certeza. A corregedoria da polícia tem poder e autonomia para isso e poderia ter atuado de forma a limitar esse direito, redirecionando-o para uma outra área. Por ter registros de casos de violência, seja contra mulher ou não, ele ou qualquer policial não deveriam permanecer com uma arma. Ele (Sérgio) usou da condição de policial para matar a vítima, premeditou o crime e, depois, se matou, um ato de covardia que mostra a fragilidade desta pessoa.

O autor havia sido absolvido de um crime contra a vítima no âmbito da Lei Maria da Penha. Mesmo com tantas leis e políticas públicas, casos como esse não se mostram mais raros. Por quê?

Houve uma falha judicial grave em que o homem foi absolvido. Quando não se faz nada de concreto para afastá-lo e puni-lo, a raiva, a ideia de agredir e tirar a vida de uma mulher não é trabalhada. Além disso, minhas pesquisas mostram que, na maioria dos casos em que o homem é preso e não se toma uma medida para reverter a “síndrome do abandono”, ao ser solto, o agressor volta e comete o crime. Neste contexto, a mulher faz a denúncia, mas não é orientada para os próximos passos, de como se proteger e sair dessa situação de vulnerabilidade. Outra prioridade deve ser as ações preventivas dentro das escolas para que essa recorrência seja rompida com as gerações futuras.

Memória

4 de janeiro

» O corpo de Patrícia Alice de Souza, 23 anos, foi encontrado com marcas de tiro na Quadra 9 Engenho Velho, na Fercal. A vítima estava desaparecida havia três dias. Cinco meses após o crime, os dois suspeitos foram detidos: um adolescente de 17 anos e Warley Pereira do Nascimento, 20.

 (Facebook/Reprodução)


5 de janeiro

» O segundo caso do ano foi registrado na Quadra 8 do Setor Oeste do Gama. O ajudante de pedreiro Thiago de Souza Joaquim, 33, matou a companheira, a dona de casa Vanilma Martins dos Santos (ambos na foto), 30, com uma facada no tórax. O agressor fugiu e foi preso dois dias depois.


28 de janeiro

» A dona de casa Diva Maria Maia da Silva, 69, foi assassinada com pelo menos cinco tiros pelo companheiro, Ranulfo do Carmo Filho, 72. O autor do crime também disparou três vezes contra um dos filhos do casal, que vivia junto

havia 50 anos. Policiais perseguiram o assassino,

que confessou o crime.

 (Facebook/Reprodução)


31 de janeiro

» A servidora aposentada da Secretaria de Educação Veiguima Martins (foto), 55, foi morta pelo marido, José Bandeira e Silva, 80. A vítima havia decidido dar um fim ao relacionamento, o que motivou o crime. O homem ateou fogo para simular um incêndio e morreu por intoxicação.


11 de março

» A dona de casa Cevilha Moreira dos Santos, 45, foi assassinada pelo companheiro, Macsuel dos Santos Silva, 35. Ela foi encontrada morta na quitinete onde os dois moravam, na Quadra 5 de Sobradinho, com uma facada no peito. Macsuel fugiu a pé e ainda não foi encontrado. A 13ª DP (Sobradinho) investiga o crime.


17 de março

» Maria dos Santos Gaudêncio, 52, foi encontrada morta dentro de casa, no bairro Fazendinha, no Itapoã, dois dias depois de ser assassinada a facadas pelo namorado, o cabeleireiro Antônio Pereira Alves, 44. Ele foi encontrado pouco mais de uma semana depois, em Chapadinha (MA).

 (Arquivopessoal)


31 de março

» A estudante Isabella Borges, 25, foi assassinada pelo ex-marido Matheus Galheno, 22 (ambos na foto). Ela morava com a família no Paranoá e tinha um casal de gêmeos de 1 ano com o vigilante. A vítima segurava a filha no momento

em que foi atingida por um dos dois disparos. Matheus se matou em seguida.

14 de abril

» Grávida de três meses do quinto filho, Luana Bezerra da Silva, 28, levou ao menos quatro facadas nas costas e uma no pescoço. O crime ocorreu na AR 5, em Sobradinho 2. O suspeito, Luiz Filipe Alves de Sousa, 20, fugiu após o crime. A 35ª DP (Sobradinho 2) ainda apura o caso. O autor está foragido.

21 de abril

» Eliane Maria Sousa de Lima, 49, morreu na casa da irmã, no Gama. Ela foi esfaqueada pelo cunhado, o açougueiro Josué Pereira da Silva Filho, 47, ao tentar defender a irmã e mulher do agressor, Paula Otacilio de Lima, 43. Josué foi linchado por vizinhos e, após sair do hospital, foi preso em flagrante.

 (PCDF/Divulgação)


9 de maio

» Em 25 de abril, o vigilante Júlio César Villanova, 55, invadiu a casa da ex-mulher Cácia Regina Pereira da Silva (foto), 47, em Sobradinho, e a atacou com ácido sulfúrico. Ele se matou em seguida. Cácia passou duas semanas internada no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), mas não resistiu aos ferimentos.


6 de maio

» A gari Jacqueline dos Santos Pereira, 37, foi assassinada pelo ex-marido, o motoboy Maciel Luiz Coutinho da Silva, 39. Ele matou a vítima a facadas em Santa Maria. Com Jacqueline, a polícia encontrou as medidas protetivas contra o agressor. Maciel morreu atropelado na BR-040 após fugir da cena do crime. A vítima deixou três filhos.


9 de maio

» A ambulante Maria de Jesus do Nascimento Lima, 29 anos, foi morta pelo companheiro, Henrique Farley Carneiro de Almeida, 36. Depois de esfaquear a vítima na Chácara Santa Luzia, em Taguatinga Sul, o agressor jogou o corpo dela em uma manilha de esgoto. O corpo foi encontrado dias depois. Henrique foi preso e confessou o crime.

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