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Bielorrussos largam o trabalho para acusar a polícia de tortura em protestos que tomam conta do país

Bielorrussos largam o trabalho para acusar a polícia de tortura em protestos que tomam conta do paísFoto: Wikipedia

As primeiras rachaduras no regime autoritário do presidente Alexander Lukashenko começaram a aparecer quando um alto funcionário e policiais renunciaram em protesto contra a violência aos manifestantes.

Christopher Miller - News Contributor - 14/08/2020 - 16:33:50

Milhares de trabalhadores em empresas estatais em toda a Bielorrússia realizaram greves, e mulheres vestidas de branco e carregando flores formaram correntes humanas na capital, Minsk, na quinta-feira para protestar contra a repressão brutal aos manifestantes que tem tomado conta do país desde a disputada da eleição presidencial de domingo.

As demonstrações públicas de oposição são diferentes de tudo que o país tem visto desde que se separou da União Soviética em 1991, e elas aumentaram significativamente a pressão sobre Alexander Lukashenko, de 65 anos, o presidente autoritário que tem governado a Bielorrússia com mão de ferro desde 1994.

A group of women, many wearing white, march down a street and hold up peace signs with their hands

Vasily Fedosenko / Reuters

Mulheres participam de uma manifestação contra a violência policial após as eleições presidenciais em Minsk, Bielorrússia, em 12 de agosto.

O caos estourou depois que Lukashenko afirmou ter garantido uma vitória esmagadora na reeleição nesse fim de semana, apesar de relatos generalizados de fraude eleitoral. O grupo de oposição bielorrusso chamaram a votação de fraudulenta, enquanto os EUA e a UE condenaram a eleição como nem livre e nem justa.

Lukashenko disse que derrotou Svetlana Tikhanovskaya, uma ex-professora de inglês de 37 anos que explodiu no cenário político para desafiá-lo na eleição depois que seu marido, um vlogger popular, foi impedido de concorrer e preso. Tikhanovskaya deu início a um movimento na Bielorrússia, onde ela atraiu multidões inspiradas por sua candidatura. Após a eleição, ela fugiu para a Lituânia em circunstâncias tensas e após um misterioso encontro com autoridades eleitorais na terça-feira.

Na quarta-feira, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, disse à Radio Free Europe/Radio Liberty em uma visita à Praga que Washington quer "bons resultados para o povo bielorrusso". Ele também disse que os EUA têm observado "a violência e as consequências, manifestantes pacíficos sendo tratados de maneiras incompatíveis com a forma como deveriam ser tratados".

A Reuters citou diplomatas e autoridades da UE que disseram que provavelmente vão impor novas sanções à Bielorrússia antes do final de agosto.

Vídeos e fotos compartilhados nas mídias sociais na quinta-feira mostraram trabalhadores em uma fábrica de peças de automóveis, em uma fábrica de caminhões, em uma loja de acessórios para aeronaves e em várias outras empresas estatais abandonando o emprego. Eles disseram a seus patrões que não voltariam ao trabalho até que a tropa de choque fortemente armada parasse de agredir os manifestantes e as autoridades libertassem as milhares de pessoas mantidas em centros de detenção, segundo relatos na mídia local.

Em um vídeo, um supervisor de uma fábrica na cidade de Hrodna, no oeste do país, pede aos trabalhadores que levantem a mão se votaram em Tikhanovskaya. Quase todos na grande multidão explodem em sinal de apoio e levantam a mão.

Não foram apenas os operários que aderiram à greve nacional. Artistas da Sociedade Filarmônica do Estado da Bielorrússia também protestaram contra a violência policial e os resultados das eleições. Segurando cartazes que diziam "Minha voz foi roubada", o grupo apresentou uma emocionante interpretação de canção que já foi proposta para ser o hino oficial da Bielorrússia.

As demonstrações de oposição ocorreram quando as primeiras rachaduras começaram a aparecer no regime de Lukashenko, famosamente apelidado pelo Ocidente como "o último ditador da Europa". Em um movimento nunca visto antes, um vice-diretor de sua administração supostamente renunciou em protesto contra a violência policial aos manifestantes, e várias autoridades e militares compartilharam fotos e vídeos nas redes sociais mostrando-os jogando fora ou destruindo seus uniformes e credenciais.

Um ex-policial escreveu no Instagram abaixo de uma foto de seu distintivo policial e condecorações: "17 anos de serviço terminados. Minha consciência está limpa. Polícia com as pessoas." No momento da publicação, tinha mais de 380 mil curtidas.

As oposições também têm se espalhado para a poderosa máquina de mídia estatal da Bielorrússia, com vários apresentadores de talk shows populares e apresentadores de noticiários anunciando suas saídas por causa do abuso de manifestantes ordenado pelo governo.

"Como esposa, mãe, funcionária da mídia e cidadã, não consigo olhar de forma tranquila para o que está acontecendo no país agora", disse Marina Mishkina, repórter de uma estação de rádio estatal, a um serviço bielorrusso da Radio Free Europe. "Estou com medo de tudo agora. Ando pela rua e estou com medo. Abro as redes sociais e estou com medo [do que vou ver]."

Policiais da tropa de choque, que somam milhares, têm sido enviados por todo o país, transformando ruas e praças públicas, onde famílias antes passeavam, em campos de batalha sangrentos. A maior concentração deles está em Minsk, onde os protestos estão agora em seu quinto dia, e os confrontos nas ruas estão os mais violentos.

A woman stands in the foreground with her back to the camera and her arm in the air giving a thumbs-down toward a line of law enforcement officers in the background

Vasily Fedosenko / Reuters

Uma mulher gesticula durante uma manifestação após a eleição presidencial em Minsk, Bielorrússia, em 10 de agosto.

As forças policiais têm usado granadas de atordoamento, gás lacrimogêneo, balas de borracha e até mesmo munição real para reprimir multidões de manifestantes. Elas têm confiscado ambulâncias e as usado para disfarçar sua abordagem enquanto caçam pessoas nas ruas. E elas têm como alvo jornalistas que cobrem os eventos, espancando-os e destruindo seus equipamentos.

Pelo menos 68 jornalistas, incluindo jornalistas estrangeiros, foram detidos, e 23 deles permanecem em centros de detenção, informou o site de notícias russo MediaZona.

A jornalista Hanna Liubakova, de Minsk, citando suas próprias fontes, informou na quinta-feira que a polícia começou a procurar correspondentes estrangeiros nos hotéis. Na terça-feira, o chefe do departamento de imigração do Ministério das Relações Exteriores da Bielorrússia alertou que repórteres que estavam trabalhando sem credenciamento do governo seriam presos, deportados e proibidos de entrar no país por 10 anos.

O ministério se recusou a conceder credenciamento de imprensa a dezenas de veículos de comunicação, incluindo o BuzzFeed News, que se inscreveram na corrida para as eleições.

Enquanto isso, as autoridades libertaram dezenas dos mais de 6 mil manifestantes que foram presos durante os protestos. Eles saíram cambaleando de centros de detenção em toda a Bielorrússia e foram recebidos por familiares e amigos ansiosos. Alguns deles relataram suas experiências horríveis durante a detenção.

Nos últimos dias, surgiram vídeos de abusos da polícia contra manifestantes. Em um vídeo amplamente compartilhado, dezenas deles são vistos sendo espancados com cassetetes pela polícia enquanto estão deitados de bruços em um complexo cercado por muros altos e arame farpado. Em outro, filmado de fora dos centros de detenção, é possível ouvir os manifestantes gritando e implorando à polícia para não espancá-los. Em um vídeo que foi ao ar pela televisão estatal, uma voz disfarçada que não é mostrada pela câmera diz a um grupo de jovens manifestantes, com seus rostos gravemente machucados e as mãos amarradas nas costas, para se desculpar e jurar não participar de mais manifestações.

O jornalista russo Nikita Telizhenko, que foi detido pela polícia e mantido em uma cela por 16 horas antes de ser libertado, descreveu ter sofrido e testemunhado espancamentos violentos, bem como as condições horríveis em que as pessoas são mantidas.

Na delegacia, ele disse: "O cara na minha frente, eles bateram a cabeça dele de propósito no batente da porta de entrada do departamento de polícia. Ele gritou de dor. Em resposta, eles começaram a bater na cabeça dele e a gritar: 'Cale a boca, vagabundo!'"

Ele continuou: "A primeira vez que eles me bateram, foi quando me tiraram da van da polícia. Eu não me abaixei o suficiente e fui atingido com uma mãozada na cabeça e depois com uma joelhada no rosto."

Telizhenko descreveu a sala onde os manifestantes estavam sendo mantidos como coberta por "um tapete vivo" de pessoas sobre as quais ele teve que andar. Então ele disse que a polícia ordenou que ele deitasse de bruços. "E não havia onde deitar. As pessoas estavam deitadas em poças de sangue."

Este post foi traduzido do inglês.

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