×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 16 de maio de 2022

'Brasil é um país diverso, mas preconceituoso', diz primeira modelo trans a posar para a Victoria's Secret

'Brasil é um país diverso, mas preconceituoso', diz primeira modelo trans a posar para a Victoria's SecretFoto: Lucas Seixas-UOL

Valentina Sampaio afirma que seu sucesso não é vitória só dela, mas da sociedade inteira

Monica Bergamo-gabriel Rigone/uol-folha - 29/12/2019 - 12:50:03

A vida de Valentina Sampaio, 23, é puro contraste.


A cidade de Nova York, onde mora sozinha, em nada lembra o pequeno vilarejo de pescadores no qual cresceu no Ceará com seis irmãos. Os rumos profissionais a levaram para longe dos pais, com quem sempre foi grudada.


A carreira de modelo não é a que ela imaginava seguir na infância. Valentina customizava as próprias roupas: queria ser estilista. E o sucesso na trajetória, que a consagrou como a primeira transexual a posar para a grife Victoria’s Secret, em agosto deste ano, é encarado como um golpe na intolerância que poderia ter barrado seu caminho.


“Lembro que minha carreira estava bem no início. Foi lá em Fortaleza”, começa a contar. “Estava no estúdio, pronta para fotografar, até que descobriram que eu era trans.”


“Me senti mal, como se eu fosse a errada. Como se estivesse enganando alguém. Só queria sumir de lá. Na hora, o diretor me disse que eu estava fora por não saber como os clientes da marca reagiriam à campanha”, relembra.


Valentina tinha deixado seu vilarejo para cursar moda em Fortaleza.


Foi reprovada por faltas —apesar de comparecer a todas as aulas e ter bom desempenho nas provas. “Eu só respondia como Valentina. E, no sistema, não havia esse nome matriculado. Então eu nunca assinava as chamadas”, explica ela.


A capital cearense a colocava de frente para os desafios. Não havia mais cajueiros, que sempre serviram de refúgio na infância. “Tenho muita saudade da praia, do meu lugar. Quando chega agosto isso aumenta, porque é quando começam a florescer os cajus, minha fruta preferida.”


“Passava horas embaixo dos cajueiros desenhando. E o caju tem uma essência muito forte, muito característica. É um cheiro que remete muito ao meu lugar. E isso me faz perceber que o que importa é a nossa essência. Ela é única. Eu posso pegar um caju, cheirar, comer ele. Mas eu não posso pegar a essência dele para mim.”


Hoje, quando volta à prainha, é recebida com orgulho pela vizinhança que a viu crescer. Mas as passadas são rápidas. Tempo para ficar não há muito.


“Embora eu tenha apartamento em Nova York, vivo mais dentro do avião. Minha mala está sempre comigo. É tudo muito imprevisível”. Ela roda o mundo, mas faz um esforço enorme para não perder as raízes.


Conversa pelo celular com os pais todos os dias. Era a eles que ela contava o passo a passo das negociações com a Victoria’s Secret. “São as pessoas que mais torcem por mim.”


Eles ainda não conseguiram visitá-la no exterior. Há crianças pequenas na família, o que dificulta as viagens. “Mas minha vontade é trazer todos eles para perto de mim”, afirma.


Ainda não houve muito tempo para que a família assimilasse a mudança dos rumos de sua estrela. A ascensão de Valentina foi rápida.


Foi selecionada para o filme “Berenice Procura”, lançado em 2018, e atuou ao lado de atrizes como Cláudia Abreu e Vera Holtz. Assim que as gravações no Rio de Janeiro terminaram, foi convidada para protagonizar uma campanha do Dia Internacional da Mulher pela L’Oréal. “Aquilo já me trouxe uma visibilidade maior”, diz ela.


Mudou-se para São Paulo, onde desfilou na SP Fashion Week pela primeira vez em 2016. Começou a construir uma carreira internacional, e já reside nos Estados Unidos há mais de um ano.


“O Brasil é um país muito diverso, mas muito preconceituoso. A gente [transexuais] não tem o mesmo espaço na sociedade. Somos marginalizadas, vistas como pervertidas, aquela coisa meio escandalosa, que faz programa, uma imagem negativa.”


“Então, ser a primeira transexual da Victoria’s Secret, não é uma vitória só minha, nem só da comunidade trans. É da sociedade inteira, que pode perceber que é possível haver inclusão.”


A própria Victoria’s Secret esbarrou em casos de intolerância neste ano. O ex-diretor de marketing da grife Ed Razek deixou a empresa após declarar que não achava que a marca exibiria modelos trans ou plus size em seu desfile anual “porque esse show é uma fantasia”. “São 42 minutos de entretenimento”, chegou a acrescentar ele.


O desfile acabou sendo cancelado em 2019.


“A marca está aprendendo a importância disso. Muitas grifes do mundo da moda estão aprendendo a importância de abraçar a diversidade”, diz Valentina.


Nas redes sociais, recebe muitas mensagens de apoio. Conta que muitas transexuais a procuram, e ela responde.


“Mas amor, eu tenho um monte de haters [“odiadores”] também. Antes, eu reagia muito pior [do que agora] aos ataques. Ainda hoje ainda apago algumas mensagens”, admite.


Não sabe onde estará no futuro —apenas tem noção do potencial, já que ascendeu meteoricamente. Quer ter filhos mais para a frente.


Mas quando perguntada se sonha em seguir carreira como atriz, se deseja escrever um livro, ela escapa.


“Só quero viver em tempos melhores no futuro. Me imagino num mundo melhor para todo mundo. Onde nós todos tenhamos os mesmos espaços e oportunidades. Que as chances não sejam limitadas apenas por sermos quem somos.”


“As pessoas julgam. Mas ainda não param para ver a história que há por trás.”

Comentários para "'Brasil é um país diverso, mas preconceituoso', diz primeira modelo trans a posar para a Victoria's Secret":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Revista portuguesa publica artigo de Juiz do TJDFT sobre inovação

Revista portuguesa publica artigo de Juiz do TJDFT sobre inovação

No texto, o magistrado do TJDFT trata da abordagem do New Public Service, no âmbito dos estudos ligados à Administração

Verdades que ninguém te conta: A importância de falar sobre a maternidade real

Verdades que ninguém te conta: A importância de falar sobre a maternidade real

Livro recém-lançado pela Editora MOL em parceria com a Tip Top reúne relatos de mulheres sobre os desafios reais que chegam com a vida de mãe, como as mudanças no corpo e os julgamentos externos

Bolsonaro veta integralmente Lei Aldir Blanc, que previa R$ 3 bilhões anuais ao setor cultural

Bolsonaro veta integralmente Lei Aldir Blanc, que previa R$ 3 bilhões anuais ao setor cultural

Texto de autoria da deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) calcula que medida alcançaria 4.176 municípios brasileiros

Cópia restaurada de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' será exibida em Cannes

Cópia restaurada de 'Deus e o Diabo na Terra do Sol' será exibida em Cannes

A última versão digitalizada do filme é de 2002 e tem qualidade inferior à atual

Autora estreante lança livro criado a partir do desejo de se comunicar durante a pandemia

Autora estreante lança livro criado a partir do desejo de se comunicar durante a pandemia

“Quando escrevo, é para me lembrar da esperança que eu mesma sei que tenho”, diz Nathália Ferreira

Eu acredito no livro!

Eu acredito no livro!

Numa necessidade rápida, até podemos contar com um trago de águas quase podres, mas para a vida, para beber água viva, o livro é o único lugar onde nos encontraremos com a civilização, com o melhor dela

Ribeirão Preto celebra a literatura nacional com o 'Revolução Poética na Fábrica'

Ribeirão Preto celebra a literatura nacional com o 'Revolução Poética na Fábrica'

Serão cindo dias de programação gratuita, reunindo 14 autores de referência do universo cultural brasileiro

Capas influenciam quase 30% das crianças na escolha do livro

Capas influenciam quase 30% das crianças na escolha do livro

Diante das diversas motivações que podem influenciar na escolha de um livro antes da compra, a capa é uma das mais citadas pelos entrevistados, em especial entre as crianças

Livro detalha o primeiro disco lançado por Nara Leão, em 1964

Livro detalha o primeiro disco lançado por Nara Leão, em 1964

O álbum traz ainda Berimbau, de Vinicius e Baden Powell, que ainda nem era chamado de afro-samba. Outro exemplo: a faixa Nanã (Coisa Nº 5), que estaria no clássico disco Coisas, de Moacir Santos, lançado em 1965.

Quarteto de cordas lança álbum com obras de compositoras brasileiras

Quarteto de cordas lança álbum com obras de compositoras brasileiras

Pelos temas, pelas múltiplas estéticas e pela interpretação, o disco se faz a partir de diferentes, pessoais e fascinantes olhares

A história do mafioso que desafiou a máfia

A história do mafioso que desafiou a máfia

No filme, ele conta a história de um mafioso de verdade, Tommaso Buscetta, membro da Cosa Nostra que delatou seus antigos companheiros para o famoso magistrado Giovanni Falcone.