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Caminho do Brasil até fim da quarentena promete ser árduo

Caminho do Brasil até fim da quarentena promete ser árduoFoto: Deutsche Welle

Pesquisadores brasileiros consideram impossível estimar quando o pior terá passado no país, mas adiantam que saída do coronavírus exigirá superação do pico de infectados e testes de imunidade abrangentes.

Deutsche Welle - 11/04/2020 - 08:31:46

Foram necessários 76 dias de isolamento e semanas sem novos casos de infectados pelo Sars-Cov-2 para que as autoridades chinesas tomassem a decisão de encerrar a quarentena na cidade de Wuhan, epicentro da pandemia de covid-19. Na quarta-feira (08/04), os 11 milhões de moradores voltaram a sair de suas casas dentro de uma normalidade maior, com a certeza de que o pior já passou – o que está longe de significar que não haverá novas ondas da doença.

A DW Brasil conversou com pesquisadores para entender quando, afinal, o pior terá passado também para os brasileiros. Há ao menos duas certezas: é cedo demais para aliviar qualquer restrição no país, e não é possível responder com segurança quando e como se sairá da quarentena. Em princípio será necessário boa parte da população já estar imunizada, e ter sido superado o pico da curva de infectados.

Encontrar respostas torna-se complexo porque, além de se tratar de um inimigo desconhecido e todo estudo neste momento vir com uma lista de ressalvas, há no Brasil um problema adicional: faltam dados fidedignos, apontam os pesquisadores.

Sem testes em massa e com outros tantos represados em laboratórios, não é possível saber ao certo como a curva de infectados evolui e como a doença avança em diferentes regiões. Assim, fica difícil fazer previsões. Por enquanto, só se sabe que o país se encontra na subida da montanha de novos infectados. Quando chegar ao cume, é impossível prever, dizem os pesquisadores, que olham com muita desconfiança qualquer estimativa do tipo.

"O problema de sair da quarentena é o seguinte: você só vai poder sair com certeza, quando todas as pessoas ou 80% da população estiver imunizada", diz Fernando Reinach, biólogo, professor aposentado da Faculdade de Bioquímica da Universidade de São Paulo e colunista de O Estado de S. Paulo .

Ele aponta duas possibilidades: imunização: pela vacina – que está longe de chegar – ou pela doença . "Acho que a primeira chefe de Estado que falou isso claramente foi a [chanceler federal alemã] Angela Merkel, que disse que achava que 70% dos alemães teriam que pegar o vírus. Como todas as pandemias, só acaba quando o vírus não tem mais quem infectar."

Ele explica que só se verificam os resultados de uma eventual liberação depois de 15 a 30 dias: "Vamos supor que libere hoje [da quarentena], as pessoas começam a se contaminar e a doença começa a se espalhar, 15 dias depois começam a aparecer casos no hospital, 20 dias depois começam a morrer de novo. E aí decidem fechar de novo, e são mais 20 dias para ver o resultado do fechamento."

O pneumologista Carlos Alberto Barros Franco, membro da Academia Nacional de Medicina, lembra que a ideia do isolamento não é evitar que se pegue o coronavírus, mas que não se tenha um grande contingente da população contaminado ao mesmo tempo, sobrecarregando o sistema de saúde.

"A questão não é se vou pegar, é quando. Eu quero pegar quando houver leitos disponíveis, quando puder receber tratamento adequado, porque se não, vai-se morrer não pelo vírus, mas por não conseguir atendimento." Ele, que atende pacientes de covid-19 num hospital particular do Rio de Janeiro, conta que toda a ala separada para o coronavírus já está lotada.

O tal pico da curva

Fala-se muito sobre a superação do pico da curva de infecções como uma linha limítrofe de quando se poderia começar a pensar em relaxar as restrições. Por exemplo: hoje o Brasil está na subida dessa curva, com o número de casos aumentando a cada dia, e teria ultrapassado o pico quando esse número passasse a cair. Contudo, ninguém é capaz de dizer em que momento dessa queda seria seguro suspender a quarentena.

"Até agora, o único país que realmente subiu e desceu a curva foi a China", onde o alívio da quarentena só chegou depois de duas ou três semanas sem registro de novos casos e com cerca de 70% da população imune, explica Reinach.

Para Domingos Alves, professor e pesquisador do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que trabalha com projeções no grupo de pesquisadores Covid-19, o primeiro passo para se pensar em sair da quarentena é dispor de dados confiáveis, o que não ocorre hoje no Brasil.

"A gente vê muito isso de que as medidas de contenção já surtem efeitos. Eu desafio esses pesquisadores a mostrarem a metodologia deles e mostrar que o intervalo de tempo que estão tomando não excede a faixa de erro do modelo deles. Vemos, por exemplo, em alguns gráficos, que a tendência de subida diminui, depois explode em seguida – até porque tem exame represado."

Segundo Alves, o que precisa ser observado é a tendência da curva, e no momento se está no começo da subida. Ele também alerta que é preciso levar em conta a heterogeneidade do país e dos estados. Por isso não faria sentido liberar um estado inteiro da quarentena ao mesmo tempo: seria preciso estudar características como estruturas etárias e acesso a água.

Passaporte de imunidade

Considerados pelos profissionais e pesquisadores ouvidos pela DW Brasil um elemento importante no planejamento da saída da quarentena, os testes de imunidade começarão a ser feitos no Brasil em poucos dias. Eles diferem dos de infecção: enquanto estes detectam a presença do vírus, o imunológico serve para detectar a presença e a quantidade de anticorpos, e determinar quem está imune – embora não seja possível afirmar que quem já contraiu o Sars-cov-2 esteja 100% livre de uma nova contaminação.

Brasileiros de diferentes regiões farão exames, como parte de um esforço para começar a testar a população, liderado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com ao menos 12 milhões de reais do Ministério da Saúde, que também pagará pelos testes.

"A ideia é fazer 100 mil testes, distribuídos em três rodadas, de forma que se possa comparar a evolução da epidemia ao longo do tempo", explica um dos coordenadores do projeto, o epidemiologista Aluísio Barros. Como numa pesquisa eleitoral, ao todo serão testados por amostragem habitantes de 133 municípios escolhidos por serem sedes de sub-regiões estaduais.

A testagem imediata de imunidade não é uma unanimidade. Para Alves, diante da falta do gargalo de exames que se tem para determinar os infectados, o Ministério da Saúde deveria estar direcionando os recursos nesse sentido. Já Reinach defende que a saída da quarentena precisa ser planejada desde já.

"O que acho importante deixar claro é que o número de testes que vai ser usado para esta pesquisa é relativamente pequeno, comparado com o total de testes que o ministério comprou, e a importância de conhecer a proporção dos já infectados é enorme, para se poder manejar bem as ações de saúde", justifica o pesquisador da UFPel.

Outros países têm ido nesse sentido. A Alemanha tenta avançar com um projeto de pesquisa sobre um tipo de passaporte da imunidade, permitindo ex-pacientes de covid-19 voltarem à vida normal após serem testados. Pesquisadores do Centro Helmholtz para a Investigação de Doenças Infecciosas planejam testar a imunidade de 100 mil cidadãos. Segundo a revista Der Spiegel , se aprovado, o projeto começará a ser implementado no final de abril.

Em quarentena desde 9 de março, a Itália também estuda algo parecido. Ainda em abril, a região do Vêneto, no norte, deve começar a coletar 100 mil amostras de sangue de toda a região: primeiro de milhares de profissionais de saúde e depois de funcionários públicos, para estudar em laboratórios os anticorpos de quem tem o vírus e de quem se recuperou dele, conforme informações do The New York Times .

No caso do Brasil, Barros diz não saber o que será feito com os dados de imunidade colhidos, e se haverá uma espécie de passaporte de imunidade. Questionado a respeito da medida e sobre seu planejamento para saída da quarentena, o Ministério da Saúde não se manifestara até a publicação desta matéria.

Mas nem todos estão seguros a respeito do passaporte: segundo a pesquisadora da Yale School of Medicine, ouvida pelo jornal português Público , portadores de anticorpos "podem potencialmente transmitir o vírus". Por isso seria prematuro pensar que estão protegidos e não podem transmitir a doença. O diretor do Instituto Pasteur, Stewart Cole, defende que "é preciso mais tempo" para saber quais anticorpos se ligam ao coronavírus e protegem contra a covid-19.

Itália e China: duas abordagens para saída da quarentena

Mesmo tendo decretado o fim do período de isolamento na maior parte do país, o governo chinês mantém controle estrito sobre os cidadãos, e a liberação é gradativa. A brasileira Luana Borges, professora de inglês na província de Xian, conta que a população segue usando máscara facial e sendo submetida a constantes medições de temperatura, além de ser controlada por meio de um código QR ( Quick Response code ) de saúde municipal.

Em diversas cidades, há um QR para cada habitante, informando sua condição de saúde com base tanto em declarações próprias quanto em dados de que o governo dispõe. Assim, os cidadãos recebem códigos marcados em verde, amarelo ou vermelho,.

Somente os residentes com código verde podem circular livremente pela cidade. Os portadores de códigos amarelos e vermelhos devem manter a quarentena e se registrar diariamente numa plataforma de internet para prestar informações, até obterem o código verde.

Longe de impor um controle governamental como o da China, a Itália, país europeu mais afetado pela pandemia, ainda estuda como sair da quarentena. Além de gradativa, a liberação não deverá ser nacional, e o caminho pela frente pode ser maior do que o esperado. Nesta quinta-feira, o número de mortes registradas voltou a crescer: 610 contra 542 na véspera; e os novos casos também aumentaram, de 3.836 para 4.204. A contagem diária foi a mais alta desde 5 de abril, segundo a agência de notícias Reuters.

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