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Canto diferente faz biólogo descobrir nova espécie de rã

Canto diferente faz biólogo descobrir nova espécie de rãFoto:

Pesquisador descreve espécie mais de meio século depois de registro sonoro feito pelo naturalista Werner Bokermann.

Por Patrícia Lauretti / Do Jornal Da Unicamp / Fotos: Antoninho Perri Com Edição De Imagem De Luis Paulo Silva - 20/12/2018 - 22:08:21

A Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV), do Museu de Zoologia da Unicamp, guarda alguns dos registros feitos em campo pelo naturalista Werner Bokermann (1929-1995), famoso pelo estudo dos chamados anfíbios anuros, ou seja, rãs, sapos e pererecas. Um áudio coletado por ele em fevereiro de 1965 - para acessar o áudio, coloque o número 31921 no alto da página, à direita, em “pesquisar coleções”) traz o canto de uma rã que até então ninguém conhecia e que, naquela época, foi encontrada na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte. Mais de meio século depois já se sabe que a rãzinha que cantava muito rápido ali é a Pseudopaludicola matuta, descoberta recente do biólogo Felipe Silva de Andrade, aluno de doutorado da Unicamp. O achado se transformou em um artigo publicado em novembro no artigo publicado em novembro no European Journal of Taxonomy. Andrade assina o artigo com os pesquisadores Isabelle Haga, Mariana Lyra, Thiago de Carvalho, Célio Haddad, Ariovaldo Giaretta e Luís Felipe Toledo.

Na publicação, Felipe, como autor principal, descreve a morfologia da rã, as análises de seu material genético, e, sobretudo, seu canto, que é um importante diferencial para essas espécies. “O canto de anúncio da P. matuta é uma vocalização composta por séries de curtas notas pulsadas, tendo cada nota dois pulsos. A principal diferença é a rapidez com que as notas são emitidas pelos machos”, descreve o biólogo.

O biólogo e aluno de doutorado Felipe Silva de Andrade: incursões em duas localidades de Minas Gerais

Felipe fala da diferença da matuta em relação à Pseudopaludicola mineira, sua parente mais próxima, identificada pelo pesquisador argentino Fernando Lobo, em 1994. No registro de Bokermann, disponível na Fonoteca, o canto da P. matuta acabou sendo confundido por muitos anos com o canto da P. mineira. Não fosse o ouvido apurado de Felipe talvez o equívoco perdurasse. “Os machos de P. mineira emitem as suas notas pulsadas mais lentamente”, esclarece.

A expedição em busca da rãzinha que cantava diferente levou Felipe à cidade de Curvelo e ao Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais. O pesquisador teve sorte porque na véspera caiu um temporal e as rãs apareceram. “Silêncio no brejo é ruim e, se não chove, o bicho não canta”, avisa.

Com gravador e microfone em mãos, ele foi “entrevistar os sapos” como ficou parecendo para os moradores locais. Felipe relata que é muito difícil conseguir separar o canto de um único indivíduo para ser analisado depois. A espécie costuma ter pouco mais de um centímetro e o pesquisador precisa aproximar bastante o microfone para conseguir uma boa amostra.

Curvelo é o local onde foi encontrada a Pseudopaludicola giarettai, outra rã parente da P. matuta. Foi na descrição desta espécie que o pesquisador reportou que havia outra que vivia no local, ainda não identificada. “Daí surgiu o interesse de voltar a Curvelo. Pseudopaludicola matuta e P. giarettai ocorrem juntas na região. Lá é a localidade tipo das duas espécies”, destaca Felipe.

A cidade fica a menos de 200 quilômetros de viagem da Serra do Cipó, onde a P. matuta também pode ser encontrada, além da “irmã” P. mineira. O mistério é que a espécie descoberta por Felipe fica na parte de baixo da serra enquanto a P. mineira ocorre na parte mais alta. “Encontramos dentro do parque uma deixa para futuros estudos para entender o papel da Serra do Cipó no processo de formação dessas espécies”, afirma o doutorando.

O professor Felipe Toledo: há milhares de espécies ainda desconhecidas

A P. matuta é a quarta espécie de rã descrita pelo estudante e pesquisador e a segunda em seu projeto de doutorado orientado pelo professor e xará Felipe Toledo. O professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Ariovaldo Giaretta é coorientador de sua tese. O doutorando catalogou, ainda na graduação, a Pseudopaludicola facureae que recebeu esse nome em homenagem à professora Kátia Facure, da UFU. Durante o mestrado Felipe catalogou a P. jaredi em homenagem ao pesquisador Carlos Jared, do Instituto Butantã. Já no doutorado e antes da P. matuta, Felipe descobriu a P. florencei que batizou assim em homenagem ao fotógrafo Hércules Florence considerado um dos “pais” da bioacústica.

Biodiversidade

O Brasil é o país número um no mundo em biodiversidade e não poderia ser diferente em relação aos anfíbios. O professor Felipe Toledo, também coordenador e curador da Fonoteca, calcula que há milhares de espécies diferentes de pererecas sapos e rãs já cadastradas e outras milhares ainda desconhecidas. As análises de bioacústica são fundamentais para entender o comportamento das espécies. Geralmente quem canta é o macho, para atrair a fêmea.

Felipe Toledo ressalta a importância dos museus e fonotecas para a preservação desses acervos. “Vivemos um momento sociopolítico complexo. Tivemos o incêndio do Museu Nacional no Rio de Janeiro e temos convivido com a redução do incentivo à pesquisa”. O docente considera que é preciso destacar a importância dos museus não só pelos exemplares de animais depositados, mas também pela coleção de sons.

Nesse sentido, o professor, alunos e funcionários da Fonoteca Jacques Vielliard escreveram uma carta à revista Nature, também publicada em novembro.

A Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard está entre as quatro maiores do mundo

Na carta, os autores destacam o sistema de segurança do Museu de Zoologia e da coleção de sons da Fonoteca da Unicamp, considerada a quarta maior do mundo e a principal da América Latina. “Se nosso acervo pegar fogo, temos cópias em vários locais e inclusive em depósitos virtuais. Nós chamamos a atenção ainda dos governos e dos pesquisadores sobre a importância de depositar suas gravações e preservar o acervo. Sem esse tipo de coleção da biodiversidade, a gente não consegue nem descobrir que as espécies são novas”, comenta o professor.

“Toda nação que sonha um dia em ser desenvolvida investiu pesadamente em pesquisa básica como as que estamos fazendo. O Brasil pode ser um modelo nisso, tratando a biodiversidade de outra forma”, complementa o doutorando.

 

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