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Carros se aproximaram de Noélia. Polícia do Guará investiga outro feminicídio

Carros se aproximaram de Noélia. Polícia do Guará investiga outro feminicídioFoto: Correio Braziliense

Apesar da baixa qualidade, gravação obtida pela polícia mostra que vítima de feminicídio se escondeu atrás de uma moita no trajeto feito depois de deixar o trabalho, no Brasília Shopping

Sarah Peres - Correio Braziliense - 24/10/2019 - 11:28:53

Policiais civis buscam imagens de câmeras de segurança que mostrem o trajeto feito pela vendedora Noélia Rodrigues de Oliveira, 48 anos, após deixar o Brasília Shopping, onde trabalhava havia dois anos. A última filmagem da vítima com vida foi feita na saída do estabelecimento, às 22h03 de quinta-feira. O corpo de Noélia foi encontrado no dia seguinte, em uma área de difícil acesso, na Colônia Agrícola 26 de Setembro, entre a Cidade Estrutural e Vicente Pires. Noélia morreu com um tiro no olho esquerdo. Ela estava vestida, mas o corpo apresentava sinais de luta corporal.

De acordo com o relato de uma fonte policial ao Correio, uma gravação obtida pela 38ª Delegacia de Polícia (Vicente Pires) mostra a vendedora seguindo do shopping, no início da Asa Norte, até o Eixo Monumental. No percurso, é possível ver dois carros se aproximando da vítima, que, aparentemente, se esconde atrás de uma moita. Devido à baixa qualidade das imagens, não é possível identificar os automóveis nem se algum deles parou para que a vendedora entrasse.

Seis familiares de Noélia Rodrigues prestaram depoimento ontem na 38ª DP (Vicente Pires): auxílio na investigação (Sarah Peres/CB/D.A Press
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Seis familiares de Noélia Rodrigues prestaram depoimento ontem na 38ª DP (Vicente Pires): auxílio na investigação

Seis familiares de Noélia compareceram para auxiliar com informações sobre o caso na delegacia durante a tarde de ontem. O marido da vítima, o vigilante Marcos Paulo Mendes Santana, 42 anos, chegou acompanhado do advogado, Geraldo Madureira. O companheiro não é considerado um dos suspeitos, como informou a Polícia Civil.

O defensor de Marcos Paulo destacou que ele auxilia na apuração do caso. “Apesar de sofrer muito com toda a situação, ele está disponível e colaborando com as investigações. A vinda do Marcos hoje foi para pegar o celular dele. Não houve necessidade de prestar esclarecimentos quanto ao depoimento dele. Agora, tudo o que esperamos é resultado das investigações”, afirmou.

Segundo o irmão do vigilante, que não quis se identificar, as roupas usadas por Marcos Paulo na noite em que Noélia sumiu não foram liberadas pela polícia. As vestes continuam em análise no Instituto de Criminalística (IC) da Polícia Civil, assim como o carro e a moto dele, apreendidos no sábado.

O caso segue sendo tratado como feminicídio pelos investigadores, no entanto, eles não descartam outras hipóteses, como latrocínio ou homicídio. “Neste momento, a investigação passa por um momento crucial. Toda a unidade se encontra totalmente empenhada na realização de diligências que resultem na elucidação do crime”, disse a delegada Adriana Romana, chefe da 38ª Delegacia de Polícia (Vicente Pires).

O corpo de Noélia foi encontrado entre a Estrutural e Vicente Pires

Família

Noélia deixou três filhos: um menino de 16 anos, fruto do primeiro casamento, uma menina de 9 anos e um de 5, da união com Marcos Paulo, com quem estava casada havia mais de uma década. O casal vivia no Sol Nascente. Após a tragédia, o vigilante cuida das crianças com a ajuda de uma irmã e da mãe. Eles serão encaminhados para acompanhamento psicológico, segundo familiares.

O advogado Marcus Aurélio Silva Oliveira, 27, sobrinho de Noélia, relatou a preocupação da família com os filhos da vítima, sobretudo os mais novos. “Tive de contar o que ocorreu com minha tia. O mais novo ainda tem muita dificuldade em assimilar tudo por causa da idade. Ele sabe que a mãe está no céu, mas sente falta dela. A menina chora todos os dias. Se para nós é muito difícil, imagina para eles? O que fizeram com a minha tia é uma covardia muito grande”, destacou o morador de Ceilândia.

Para Arthur Henrique de Oliveira, 28, outro sobrinho da vítima, a vendedora era responsável e atenciosa com os filhos. “Tudo o que a minha tia fazia era pelos meus primos. Ela saía do trabalho e ia direto para casa, porque a menina só dormia quando a Noélia chegava em casa”, lamentou o militar do Exército. “A minha tia era cuidadosa; por isso, tenho certeza de que ela não entraria no carro de um estranho nem por transporte pirata. Acreditamos que quem fez isso com a minha tia a conhecia”, afirmou. “Vou dormir todos os dias pensando em quem poderia matá-la. Minha tia morre todos os dias em que não descobrimos quem a matou.”

* Colaborou Mariana Machado

Polícia do Guará investiga feminicídio

Mecânicos de uma oficina do Guará 2 se surpreenderam ao chegar ao trabalho na manhã de ontem. Os empregados perceberam que o lugar estava mais iluminado do que o normal, identificando um buraco no teto. Inicialmente, pensaram que alguém havia arrombado a loja, mas encontraram o corpo de uma mulher. Rubiana Rosa, 44 anos, despencou de um prédio vizinho ao estabelecimento e atravessou o telhado. Inicialmente, o caso é tratado como feminicídio.

O corpo da vítima estava dentro de um tanque usado para lavar peças de automóveis. A suspeita dos investigadores da 4ª Delegacia de Polícia (Guará) é de que Rubiana tenha caído do prédio no sábado, dia em que moradores da região informaram terem escutado um barulho alto por volta das 23h. “Faz parte do protocolo da Polícia Civil registrar toda morte violenta de mulher dessa forma. Com o andar das investigações, podemos eliminar esse qualificador”, explicou o delegado João Maciel.

De acordo com o investigador, a mulher morava duas ruas acima do lugar onde foi encontrada morta. “Testemunhas informaram que ela constantemente visitava um casal de amigos que morava no prédio. Eles ficavam na laje do prédio, consumindo drogas”, informou o delegado. No sábado, vizinhos escutaram uma briga entre a vítima e os colegas, próximo ao horário em que ela teria caído.

Pela dinâmica do caso, o delegado informou que ela pode ter sofrido um acidente ou cometido suicídio, entretanto, não descarta nenhuma linha de investigação. “A forma que o corpo dela foi projetado, próximo à parede do prédio, indica que ela pode não ter sido arremessada. Porém, apenas a perícia poderá dizer o que aconteceu”, frisou. Sobre a suspeita de a vítima ter tirado a própria vida, João esclareceu que ela passava por um término de casamento recente e que sofria de depressão.

Familiares e amigos da vítima compareceram à cena do crime, entretanto, não quiseram conceder entrevistas. “Não entendemos o que aconteceu e desconhecemos o motivo de ela estar nesse lugar. Não há o que dizer”, disse o namorado da vítima, que não quis se identificar. Rubiana deixou três filhos — dois homens e uma mulher — e um neto. (WG)

Encontro na Esplanada

Movimentos de mulheres se reúnem, no próximo sábado, para promover uma assembleia popular contra o feminicídio. O encontro está marcado para as 15h, no Museu Nacional, na Esplanada dos Ministérios. “A nossa organização para barrar esses casos é fundamental. Nós, mulheres, negras, LBTs, professoras, estudantes, trabalhadoras, desempregadas, servidoras, de dia ou de noite, em casa ou na rua, não estamos seguras”, destaca o texto de convite para o evento.

Morta em frente à filha

Walder Galvão

Segundo a polícia, o marido matou Paolla Cristine da Silva Correia (Reproducao/Facebook
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Segundo a polícia, o marido matou Paolla Cristine da Silva Correia

A vendedora Paolla Cristine da Silva Correia, 31 anos, vivia uma rotina de medo. Há 15 anos, ela era casada com Francisco Nascimento, 34, e sofria ameaças e agressões. Há pouco mais de um mês, decidiu fugir do companheiro com as duas filhas, de 11 e 12 anos, e saiu escondida da casa onde vivia, em Santa Maria, para alugar um imóvel em Valparaíso (GO), município goiano distante 35km da Rodoviária do Plano Piloto. Entretanto, resolveu dar mais uma chance ao marido, mas, segundo a Polícia Civil, ele a matou a tiros, na madrugada de ontem, em frente à filha mais velha.

Após o crime, Francisco tentou fugir, mas vizinhos acionaram policiais militares, que o prenderam próximo de casa. Ao Correio, Lurdes Correa, 50, tia de Paolla, contou que o suspeito consumia drogas, tornava-se violento e atacava a família. “Ela tentou fugir e se esconder, mas ficou sabendo que ele havia sido ameaçado de morte, ficou com pena e abriu as portas de casa novamente”, lamentou.

Na madrugada de ontem, o suspeito havia usado entorpecentes e iniciado uma discussão com a mulher. “Francisco costumava surtar quando estava alterado. Batia nela e achava que estava sendo perseguido”, relatou. Apesar do histórico de brigas e agressões, a vítima não procurou a Polícia Civil para denunciar. “Ela tinha medo de que a situação piorasse, caso procurasse ajuda; então, decidiu abandoná-lo e se esconder”, afirmou Lurdes.

No momento do crime, a caçula estava na casa de parentes. “A filha que viu a cena está muito abalada. O pai faria alguma coisa com ela também, mas tenho certeza de que a mãe interveio”, frisou Lurdes. A tia descreve a sobrinha como uma batalhadora, que gostava de trabalhar. “Era muito amada pela família e querida por todos. A ficha ainda não caiu”, lamentou.

Prisão

O delegado Rafael Pareja, do Centro Integrado de Operações de Segurança (Ciops) de Valparaíso, prendeu Francisco em flagrante. O acusado deve responder por feminicídio e porte ilegal de arma de fogo. “Após fugir, ele descartou o revólver em via pública, que foi encontrado, posteriormente. O suspeito estava a três ruas da casa onde aconteceu o assassinato”, disse o investigador. De acordo com o policial, ele não resistiu à prisão e confessou o crime.

Testemunhas ouvidas pela polícia também narraram histórias de violência cometidas por Francisco contra Paolla. “Informaram-nos sobre agressões e ameaças, porém ela não chegou a registrar boletim de ocorrência”, ressaltou. O corpo da vítima será enterrado hoje no Cemitério do Gama. A cerimônia está marcada para as 9h, na Capela 1. O sepultamento será às 14h30.

Francisco costumava surtar quando estava alterado. Batia nela e achava que estava sendo perseguido. Ela tinha medo de que a situação piorasse, caso procurasse ajuda; então, decidiu abandoná-lo e se esconder”

Lurdes Correa, tia da vítima

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