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Casos de sífilis sobem 334% no Distrito Federal

Casos de sífilis sobem 334% no Distrito FederalFoto: Pixabay

Dados do Governo do Distrito Federal apontam que, de 2010 a 2018, número de registros da doença saltou de 424 para 1.841 na capital do país. Homens foram os mais diagnosticados nesse período

Jéssica Eufrásio-correioweb - 22/11/2019 - 08:14:21

Uma epidemia preocupa as autoridades de saúde do país e do Distrito Federal. Os casos de sífilis adquirida subiram 334,1% em oito anos, segundo dados da Secretaria de Saúde do DF. O monitoramento desse número começou em 2010. Naquele ano, houve 424 notificações na capital federal. Em 2018, a quantidade alcançou 1.841 registros. Em oito anos, foram 9.192 ocorrências. Os dados referentes ao ano passado, antecipados ao Correio, devem ser publicados pela pasta até o fim do mês.


Se tratada adequadamente, a sífilis tem cura. No entanto, depois de a pessoa ficar livre da bactéria causadora da infecção — a Treponema pallidum —, ela pode voltar a se contaminar, se houver nova exposição. A única forma de prevenir a doença é por meio do uso da camisinha durante as relações sexuais. E o tratamento disponível é por meio da administração de penicilina benzatina, a Benzetacil, que pode ser indicada até três vezes. Após as aplicações, é necessário continuar o acompanhamento médico por um período de três meses a um ano. Se não for diagnosticada, a sífilis pode não apresentar sinais ou sintomas e, na fase mais grave, provocar lesões em órgãos vitais e levar à morte (leia Conheça a sífilis).



Há três anos, a designer gráfica Camila*, 29 anos, descobriu que estava com a infecção. “Fui fazer um check-up a pedido de um endocrinologista e deu positivo (para sífilis). Levei um susto quando vi (o resultado). Fui, desesperada, a uma emergência e falei que queria começar o tratamento”, relata. O caso da jovem demandou duas injeções de penicilina por semana, em um intervalo de 21 dias. “Não sei há quanto tempo eu tinha, mas o médico viu que, pelos índices (mostrados no exame), era há muito tempo”, acrescenta.


Para Camila, o assunto ainda envolve tabu na sociedade. Ela diz que só se lembra de ter aprendido sobre a infecção na escola e de modo superficial. “Falam muito pouco sobre isso no colégio e, mesmo assim, quando acontece, a gente nem lembra mais”, confessa. A designer comenta que se tornou mais preocupada com a proteção. “Todo mundo tem de fazer exames sempre. E usar camisinha”, recomenda a jovem.


Notificações
O número nacional de casos subiu 3.922% de 2010 a 2018. De lá para cá, tanto o Distrito Federal quanto o Brasil têm apresentado quantidades cada vez maiores de pacientes infectados. Para o Ministério da Saúde, o aumento gradativo anual corresponde a uma epidemia. Nos dois cenários, os homens têm sido os principais afetados pela doença. Ainda nesse intervalo, os diagnósticos entre homens saltaram de 260 para 1,3 mil (435% a mais) no DF. Do total de registros na capital federal, 6,5 mil (70,9%) são em pessoas do sexo masculino. Entre as mulheres, essa taxa subiu 175% (de 163 para 449).


No Brasil, os casos só começaram a ter notificação obrigatória junto ao Ministério da Saúde a partir de 2010. Coordenadora de Vigilância das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), Angélica Miranda afirma que a pasta desenvolve ações voltadas principalmente aos jovens. Em 1º de novembro, o órgão lançou uma campanha destinada a esse público. Apesar do enfoque, Angélica destaca que o trabalho de conscientização não se limita a grupos específicos. “Trabalhamos com dados de notificação. Eles se aproximam do que é provável na situação geral e entre pessoas de escolaridade mais baixa. Não há dados mostrando se há mais pobres ou ricos. No caso das gestantes, os registros predominam entre jovens negras”, detalha a coordenadora.


Orientação
Ainda segundo a porta-voz do Ministério da Saúde, o Governo Federal, desde 2007, oferece apoio a coordenações municipais, fornece mais testes e antibióticos, capacita a rede de profissionais da atenção primária e se dedica em especial ao tratamento de grávidas, a fim de evitar mais casos de sífilis congênita — passada de mãe para filho durante o parto ou a gestação. Angélica lembra, ainda, que, com o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, a atividade sexual tem sido mais frequente entre a população idosa.


No ano passado, no DF, a doença atingiu, em maior escala, pessoas de 20 a 29 anos. No entanto, a incidência em pacientes com mais de 60 anos teve destaque no levantamento mais recente da Secretaria de Saúde, que considerou as notificações de 2013 a 2018. Nesse intervalo, elas passaram de 31 para 102 (229%). Os índices de sífilis congênita também subiram: de 152 para 384 (152%).


Os dados da pasta divergem em relação aos divulgados em outubro pelo Ministério da Saúde devido ao tempo necessário para repasse das informações atualizadas. Apesar disso, para Alberto César da Silva, professor do curso de enfermagem do Centro Universitário Iesb, o cenário de epidemia resulta de falta de orientação sobre a infecção, a prevenção e o tratamento dela. “É uma doença que só pode ser transmitida em relação sexual ou de mãe para filho. A prevenção é simples: usar preservativo”, ressalta.


A principal forma de detecção é por meio do teste rápido, cujo resultado fica pronto em até 30 minutos. Ele é disponibilizado gratuitamente em todas as unidades básicas de saúde (UBSs). Quando há reagentes, é necessário coletar amostra de sangue para análise e confirmação do diagnóstico em laboratório. Em gestantes, o tratamento é iniciado sem necessidade de segundo teste.


Cinco pergutas para

CARINA MATOS, gerente de Vigilância de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde

Pode-se dizer que há uma epidemia de sífilis no DF?
Sim. Tivemos esse aumento importante no número de casos. Colocando-se a média nacional, pode-se dizer que estamos fazendo parte disso.


Como a Secretaria de Saúde enfrenta esse problema?
Temos tido aumento, principalmente, do número de casos de sífilis adquirida. Se compararmos 2010 com 2018, precisamos levar em consideração que tivemos aumento da testagem rápida, do número de diagnósticos. Essa é uma das razões para ter um aumento tão importante. Hoje, o teste ocorre em qualquer UBS (unidade básica de saúde). Outras coisas que o DF tem feito são capacitações regulares dos servidores de saúde e distribuição de insumos de prevenção: preservativos peniano e vaginal e gel lubrificante. O tratamento (contra a sífilis) é ofertado em todas as UBSs. Não só diagnosticam como também estão habilitados a tratar. Também temos feito a implementação do plano de enfrentamento à sífilis.


Em que consiste esse plano?
Em um conjunto de ações que fazemos para enfrentar a epidemia. Colocamos metas visando à diminuição ou à estabilização dos casos. Há oferta maior de testes; monitoramento de casos; acompanhamento de gestantes; meta de um número de testagens durante a gestação; acompanhamento da criança que nasceu com sífilis. É um conjunto de ações não só para detectar e diagnosticar mais, mas também para promover tratamento e acompanhamento do paciente, além de prevenção.


Em se tratando de campanhas, o que está previsto?
Existe uma lei que determina que a última semana de novembro seja focada na prevenção da Aids e de outras ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis). Durante essa semana, faremos várias ações voltadas a isso. Nas UBSs, incentivamos testagens; aumentamos o número de preservativos e lubrificantes que distribuímos; há alguns eventos, como seminários e rodas de conversa. Durante toda a semana, haverá ações, e elas começam a partir de segunda-feira.


O que mais é importante que a população saiba?
Que temos insumos de prevenção disponíveis e à disposição em todas as UBSs; temos testagem, para fazer o diagnóstico; tratamento; insumos para monitoramento. Temos todas as ferramentas para conter essa epidemia. De nada adianta termos o (setor) público e profissionais capacitados se não temos a busca por parte do paciente. Infelizmente, as ISTs ainda são um tabu e motivos de estigma, vergonha. Nem sempre as pessoas conseguem abordar a saúde sexual como abordam qualquer outra. Em função desse tabu, temos dificuldade muito grande de conter (o avanço do número de casos).

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