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Categoria adoecida. Estresse na rotina do professor

Categoria adoecida. Estresse na rotina do professorFoto: CorreioWeb

"Tem sido um momento de adaptação. Primeiro, foi o choque de saber tudo o que está acontecendo mundialmente e, logo em seguida, todas as demandas para manter a aprendizagem e o contato com os alunos"

Mariana Machado - Correioweb - 21/07/2020 - 07:55:30

Com a pandemia, a carga de trabalho dos educadores das redes pública e particular aumentou, principalmente pela necessidade de adaptação com as aulas remotas. Agora, a preocupação é com a possibilidade de retorno das atividades presenciais

Professores da rede pública, o casal Suely Silva e César de Paula sente dificuldades para adaptar a rotina de aulas com a dos filhos em casa: desgaste mental (Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Professores da rede pública, o casal Suely Silva e César de Paula sente dificuldades para adaptar a rotina de aulas com a dos filhos em casa: desgaste mental

No lugar da lousa, a tela do computador. Em vez de giz, mouse. A rotina dos professores precisou ser adaptada durante a quarentena, trocando a sala de aula por videochamada. Preparar lições, gravar vídeos, produzir slides e apresentar tudo on-line sobrecarregou os docentes, que se viram em uma nova realidade de ensino. Agora, eles preparam-se para o retorno das atividades presenciais, que continuarão dividindo tempo com as remotas.

Na casa dos professores Suely Silva, 42 anos, e César de Paula, 47, o casal soma as rotinas como educadores à de pais e donos de casa. “Tenho um filho de 9 anos e um de 2, e eles demandam muita atenção. Se eu estou dando aula, o mais velho vem, quer participar”, destaca César. “Enquanto mulher, por mais que a gente faça o discurso da divisão das tarefas, eu me sinto sobrecarregada, porque, antes, tinha o horário da escola, quando me dedicava só ao trabalho, e depois, vinha a gerência da casa. Agora, é tudo junto. O desgaste mental é muito grande”, conta Suely.

"Tem sido um momento de adaptação. Primeiro, foi o choque de saber tudo o que está acontecendo mundialmente e, logo em seguida, todas as demandas para manter a aprendizagem e o contato com os alunos"

Paula Cavalcante, professora do ensino fundamental do Sigma

E haja criatividade para dar conta de prender a atenção dos jovens. Vale mostrar trechos de filmes e séries, vídeos e slides. Na residência do casal, um quarto virou estúdio, com luzes, câmeras e todo tipo de equipamento. César dá aulas de filosofia no Centro de Ensino Médio 3 (CEM 3) de Taguatinga e conta que, embora esteja bem-adaptado ao método, sente que a grande dificuldade está no acesso dos estudantes. “Gosto da dinâmica do ao vivo, sinto-me em sala de aula e funciona para mim. Mas muitos alunos não podem ter internet de qualidade em casa, ou não têm computador, e fazem tudo pelo celular, o que não é a mesma coisa”, observa.

Para Suely, as coisas são um pouco mais difíceis. Ela é pedagoga na Escola Classe 317 de Samambaia, que atende à educação infantil. “Os meus alunos têm entre 4 e 5 anos. É frustrante, porque eu lido com crianças pequenas, quando não há aprendizado sem afetividade”, explica. Sem a força do abraço, passa a ser muito mais difícil lecionar. “Na periferia, existe muita coisa envolvida, como fome, drogas, alcoolismo. Alguns pais têm condições de lidar com os conteúdos, mas muitos não. Envolvê-los é mais complicado.”

Os dois estão preocupados com a volta para a sala de aula, enquanto o DF continua registrando escalada tanto em número de infectados como de óbitos por covid-19. “É evidente que o Brasil não se preparou para essa pandemia. Pareceu que, em Brasília, se faria um bom trabalho, mas não fez”, critica César. “Com a volta dos estudantes, a contaminação será geral. Não tem nenhuma medida preventiva das escolas que vá resolver em uma situação de disseminação desse vírus, que é bem perigoso”, diz o docente.

Antônio di Lélis, vice-diretor do CEM 3, explica que a escola se prepara, pensando no afastamento de carteiras, instalação de totens para álcool em gel e lavatórios na entrada da escola. Contudo, toda a comunidade escolar está cautelosa com o retorno. “Sem uma vacina, estamos angustiados de voltar. Fizemos um questionário com os profissionais e, de 60 pessoas, mais ou menos 60% afirmaram ser grupo de risco, ou ter alguém em casa que precise ser preservado”, detalha. “A nossa profissão exige trabalhar na coletividade. O aluno recebe o professor com um abraço e evitar isso na volta presencial será muito complicado”, ressalta.

Pelo Decreto nº 40.939, publicado no Diário Oficial do Distrito Federal (DODF), as instituições de ensino da rede pública podem voltar a funcionar a partir de 3 de agosto. Na última semana, a Secretaria de Educação divulgou o calendário de retorno das atividades presenciais, a ser feita de forma escalonada, começando em 31 de agosto (veja Cronograma). Na rede particular, a data é 27 de julho.

Em nota, a Secretaria de Educação informou que, até o fim do mês, disponibilizará pacotes de dados gratuitos. A pasta articula uma forma de oferecer linha de crédito para a compra de computadores. Além disso, as teleaulas estão suspensas e passaram a ser transmitidas pela plataforma Escola em Casa DF, e por material impresso, para alunos sem conexão. “A proposta da pasta é de que, a partir de agosto, as aulas sigam um modelo híbrido, pelo qual metade da turma vai presencialmente à escola, e os demais 50% têm aulas pela plataforma. Na semana seguinte, a turma inverte”, adianta.

Rede privada

Para os professores das escolas privadas, a rotina também é intensa. No apartamento da professora de português Paula Cavalcante, 34, foi preciso instalar uma lousa na parede. “Tem sido um momento de adaptação. Primeiro, foi o choque de saber tudo o que está acontecendo mundialmente e, logo em seguida, todas as demandas para manter a aprendizagem e o contato com os alunos”, detalha. “Além das dificuldades pedagógicas, têm os problemas emocionais. O medo da pandemia e a angústia de não saber quando tudo isso vai acabar.” Paula dá aulas para os anos finais do ensino fundamental do Sigma. O maior desafio no método remoto é prender a atenção dos jovens. “Minha dificuldade maior é convencê-los a abrir as câmeras e ligar os microfones. On-line, nem sempre sabemos quem está ali e é preciso chamar para ver quem está”, revela.

A diretora do Sigma da Asa Norte, Áurea Bartoli, comenta que a escola desenvolveu a campanha Cuidando da gente. Quinzenalmente, uma roda de conversa on-line entre os funcionários serve como desabafo. “Eles queriam falar de saúde mental, convivência, possibilidades de comunicação e questões físicas, como o cansaço de passar o dia em frente a uma tela de computador”, destaca. Com as demandas, os encontros passaram a proporcionar momentos de meditação, música, debates e alongamentos para proporcionar bem-estar.

Doutora em psicologia e professora do Centro Universitário Iesb, Camila Torres explica que é fundamental para o profissional ter uma rede de apoio. “É a garantia de, no mínimo, uma sobrevivência saudável.” Nesse cenário, a empresa deve buscar uma forma de contribuir com a saúde mental dos trabalhadores. “Se a instituição movimenta as pessoas em torno de um amparo, para que tenham espaço para compartilhar e pensar estratégias, isso facilita. Organizações que foram compreensivas e abriram espaços de escuta favoreceram o desempenho. Aquelas que só cobraram e exigiram aumentaram o risco do adoecimento”, alega.

Cronograma

Veja a previsão de volta às aulas das escolas públicas, segundo cronograma estabelecido pela Secretaria de Educação:

» Etapa de preparação

3 de agosto — Escolas, faculdades e demais instituições de ensino da rede pública podem voltar a funcionar

De 3 a 14 de agosto — Profissionais da educação serão testados para a covid-19

De 17 a 28 de agosto — Ambientação dos profissionais das carreiras de magistério e assistência, com formação para os protocolos de segurança nas unidades escolares, de acordo com as orientações das autoridades de saúde pública

» Retorno

31 de agosto — Educação de Jovens e Adultos (EJA) e a Educação Profissional

8 de setembro — Ensino médio

14 de setembro — Anos finais do ensino fundamental

21 de setembro — Anos iniciais do ensino fundamental

28 de setembro — Educação infantil

5 de outubro — Educação precoce e classes especiais

Categoria adoecida

Estafa, ansiedade e depressão são alguns dos relatos de doenças agravadas ou desencadeadas durante a pandemia, como afirma Samuel Fernandes, diretor do Sindicato dos Professores (Sinpro-DF). “Muitos relatam adoecimento. Os professores estão trabalhando muito e, às vezes, sem condições de preparar aula adequadamente”, ressalta. “O governo cancelou as teleaulas e não cumpriu a promessa de disponibilizar internet gratuita. Os professores têm de se virar”, acrescenta.

Rodrigo de Paula, diretor jurídico do Sindicato dos Professores das Entidades de Ensino Particulares (Sinproep), também explica que muitos profissionais adoeceram. “Eles estão trabalhando duas vezes mais e há uma carga emocional grande de estresse. O número de demissões também aumentou, com mais de 700 contratos encerrados e 1,5 mil suspensos”, detalha. O retorno ao presencial também aflige a categoria. “Boa parte das escolas fez protocolos e estão preparadas para voltar, mas as pequenas não têm condição nenhuma.”

Linha de crédito

Retomar as aulas presenciais, no entanto, é opcional, destaca o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do DF (Sinepe/DF), Álvaro Domingues. “Cada escola deve fazer uma avaliação da estrutura física e da capacidade de implementar protocolo de profilaxia que seja seguro.” Para orientá-las, o sindicato montou um guia para o ensino híbrido.

Quanto às demissões, Álvaro confirma o número do Sinproep e acredita que a situação pode piorar. “Provavelmente, 100 escolas podem fechar, o que deixaria em torno de 15 mil crianças, sobretudo da educação infantil, sem vaga, porque o Estado não teria condições de absorver”, estima. “As escolas querem voltar para dar uma lição de civismo”, explica.

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