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Cem dias de luta contra o coronavírus no Distrito Federal

Cem dias de luta contra o coronavírus no Distrito FederalFoto: CorreioWeb

Depois de recuperada da covid-19, a técnica de enfermagem Simone Araújo, 44 anos (de azul), voltou ontem ao trabalho: orgulho de estar na linha de frente no combate à covid-19

Walder Galvão - Correioweb - 13/06/2020 - 08:42:09

O Distrito Federal passa de três meses desde o primeiro diagnóstico do novo coronavírus com 256 mortos, mais de 20 mil infectados e sem previsão para o fim da pandemia. Especialistas acreditam que o pico da doença na capital ocorrerá em julho

O Distrito Federal completa, hoje, cem dias do primeiro diagnóstico do novo coronavírus. Em 5 de março, a Secretaria de Saúde registrou a primeira paciente infectada e, desde então, a curva de contaminados segue em aceleração. A capital tem mais de 20 mil casos confirmados e quase 300 mortos pela covid-19. Ontem, oito pessoas perderam a vida para a doença e ocorreram mais 889 diagnósticos (leia reportagem ao lado). Não há previsão para o fim da pandemia, e o isolamento social e o uso de máscaras faciais continuam como únicas medidas eficazes para evitar a disseminação do vírus.

Após o primeiro infectado, o Executivo local adotou série de medidas para tentar frear o contágio da doença. O primeiro passo foi em 14 de março, quando um decreto suspendeu aulas e eventos que precisassem de licenças públicas. Em seguida, mais segmentos tiveram as portas fechadas, como o comércio. No período, serviços essenciais, como farmácias, mercados e padarias, ficaram abertos. O GDF também realizou 190 mil testes em massa, tornou o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) referência no combate à pandemia e colocou em funcionamento dois hospitais de campanha, um no Estádio Nacional Mané Garrincha e outro no Complexo Penitenciário da Papuda — mais um está em construção em Ceilândia.

Entretanto, mesmo com o aumento de casos, o governo flexibilizou algumas medidas de prevenção. Inicialmente, apenas alguns segmentos tiveram autorização para reabrir as portas, como lotéricas, feiras de alimentos e agências bancárias. Em 30 de abril, o Executivo local determinou o uso obrigatório de máscaras na capital e, quase um mês depois, liberou o funcionamento das lojas de rua e dos shoppings, com horários reduzidos e normas de funcionamento. Atualmente, bares, restaurantes, academias, unidades de ensino e salões de beleza seguem fechados.

Hoje, uma das maiores preocupações dos órgãos de saúde é com o avanço da covid-19 nas regiões periféricas do DF. No início da pandemia, lugares de maior poder aquisitivo, como Plano Piloto e Lago Sul, detinham a maior quantidade de casos. Porém, a doença migrou para cidades como Ceilândia, Sol Nascente e Estrutural, o que fez o GDF interromper as atividades nessas regiões por 72 horas, no início da semana, e investir no atendimento dessas regiões.

Em nota, a Secretaria de Saúde informou que, diariamente, estuda a evolução do número de confirmações para cada região e que faz projeções para as próximas semanas. Além disso, a pasta informou que a autorização dos diversos segmentos econômicos é concedida após estudos científicos, avaliações de especialistas e análises técnicas. “A Secretaria de Saúde, por meio da Vigilância Sanitária, criou dezenas de notas técnicas nas áreas de alimentos, serviços, clínicas, hospitais. Elas trazem orientações para shoppings e lojas de diversas modalidades”, reforçou.

A pasta destacou, ainda, que os decretos do GDF determinam testagem de funcionários, afastamento de quem está com sintomas, repressão às aglomerações de clientes, higienização constante de balcões, corrimãos, elevadores, respeito a distância recomendada e outras medidas. A Secretaria de Saúde alertou que o descumprimento de qualquer orientação pode gerar interdição, apreensão e multa.

Luta

Desde o início da pandemia, os profissionais da saúde estão na linha frente do combate ao novo coronavírus. Levantamento da Secretaria de Saúde mostra que 1.144 trabalhadores do setor foram diagnosticados com a covid-19 e cinco morreram devido à doença. Ontem, a técnica de enfermagem Simone Araújo, 44 anos, voltou ao trabalho após 14 dias afastada devido ao coronavírus. Ela trabalha na Unidade Básica de Saúde 3 (UBS 3) do Gama e faz plantões no hospital da mesma cidade. Ela testou positivo para a doença em 23 de maio e passou seis dias internada em uma unidade privada de Taguatinga. “Para mim, foi o pior diagnóstico que poderia ter na vida”, lamentou.

Simone é mãe de uma jovem paraplégica e ficou aflita quando descobriu estar com covid-19. “Todos pegamos aqui em casa: minha filha e meu marido. Mas só eu tive manifestação mais grave”, contou. Segundo a técnica de enfermagem, o sentimento de não saber se voltaria para casa a acompanhou no período de internação. “Amo o que faço e sei que o que aconteceu vai me dar forças para continuar na linha de frente”, ressaltou.

A infectologista Ana Helena Germoglio, 36, da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hran, reconhece que lidar com o coronavírus é um risco diário. “Na minha função, lido com tratamento de conduta dos pacientes em relação a outros e com os profissionais de saúde. Porque o meu trabalho é na prevenção da infecção”, detalhou. Na vida pessoal, ela adequou-se à luta contra a doença. Mãe de dois filhos, de 5 e 6 anos, ela chegou a ficar 2 meses sem encontrá-los, para evitar contaminações. “Hoje, vejo os meus meninos apenas aos fins de semana, tomando todos os cuidados. Eles estão na casa do pai, que consegue trabalhar em home office. Porém, mesmo nos dias de folga, o telefone não para de tocar”, comentou.

Recuperada

A primeira paciente diagnosticada com coronavírus no DF passou quase 80 dias em uma unidade de terapia intensiva (UTI). A advogada de 52 anos deu entrada no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) em 5 de março, após ter sido diagnosticada com a doença no Hospital Daher, no Lago Sul. Ela superou a covid-19 em 9 de abril. Em 18 de maio, no Hospital Brasília, a advogada deixou a UTI para ser transferida à enfermaria para tratamento de outras doenças agravadas com o vírus.



Cinco perguntas para

Jonas Brant, epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB)

Qual é avaliação do cenário atual?

O DF tinha condições de ser exemplo para o Brasil, mas vem perdendo essa possibilidade. Estava com o menor crescimento da epidemia, apesar de ter sido uma das primeiras a ter casos. O DF foi uma das unidades da Federação que mais demorou a ter aumento, mas vem se distanciando das regiões com menor número de diagnósticos.

Quais erros aconteceram?

A gente perdeu quando não organizou as ações de vigilância e rastreamento de contatos. Diferentemente da maioria dos estados, o DF conseguiu organizar a capacidade laboratorial. Nas outras unidades da Federação, esse serviço foi o gargalo, porque são estados grandes, nos quais o laboratório pertence a eles e não aos municípios. Porém, mesmo com essa vantagem, a capital não conseguiu integrar as ações.

A flexibilização das medidas de restrição foram precipitadas?

Enquanto não há redução de casos, não há a menor condição de que se flexibilize as medidas. Cada ação de flexibilização deve ocorrer com intervalo mínimo de 14 dias e com a redução de diagnósticos. Estamos vendo a sobrecarga do serviço de saúde.

Há previsão para o pico?

Os modelos sugerem que o pico seria atingido em julho.

O que a população deve fazer?

O mais importante é ficar em casa, para quem puder.



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