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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 29 de janeiro de 2022

'Cerrado também dá açaí, é só cuidar', diz agricultora responsável por produção no DF

'Cerrado também dá açaí, é só cuidar', diz agricultora responsável por produção no DFFoto:

Aida cuida de 2,5 hectares de açaizeiros na região rural da Fercal. Ela vende 1kg da polpa do açaí por R$ 35 .

Por Milena Castro*, G1 D - 12/03/2020 - 16:16:21

Quem olha a foto acima, pode até dizer que a agricultora Aida Kanako Ashiuchi Cardoso segura um punhado de jabuticabas nas mãos. Isso acontece pela cor e pelo formato do fruto.

Mas, na verdade, Aida é responsável pelo plantio de açaí no Distrito Federal. Uma cultura incomum no centro-oeste do Brasil, visto que a terra é mais seca e menos nutritiva em comparação ao Norte.

"O cerrado também produz açaí. É só cuidar."

A agrônoma é responsável pela produção de 2,5 hectares de açaizeiros na região rural da Fercal. Ela participa de todas as etapas do processo de produção: do plantio à venda.

Aida morou três anos no Pará e conta que, quando voltou para Brasília, encontrava apenas as versões industrializadas do produto. "Era uma espécie de sorvetinho que virava água depois de derretido", relembra.

Ela diz que a vontade de plantar açaí cresceu depois que os filhos começaram a consumir a fruta. A mãe queria que eles conhecessem o "açaí de verdade".

"Eu dizia, isso não é açaí não. Deixa que a mãe vai plantar para tirar a polpa pra vocês, pra tomarem um açaí de verdade."

Aida segurando um cacho de açaí. No fundo esquerdo os açaizeiros, enquanto no lado direito tem um curral de gado. — Foto: Milena Castro/ G1DF

Em 2007, ela começou a plantar em um terreno maior. Após cinco anos os pés começaram a dar frutos.

Aida esperou, sem pressa. Hoje, participa de todas as etapas do processo de produção: do plantio à venda.

O G1 fez um levantamento e encontrou no DF apenas produtores com plantações pequenas, tendo um ou dois açaizeiros, ou pessoas que ainda estão no início da produção – com, no máximo, 100 mudas com menos de três anos. Aida foi a única produtora com mais de um hectare plantado no Cerrado.

Aos 65 anos, a agrônoma faz parte dos 38% de mulheres produtoras rurais cadastrados na Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) do Distrito Federal.

A história da paulista Aida Kanako Ashiuchi Cardoso, descendente de japoneses e brasiliense de coração é a sexta reportagem especial do G1 em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado no último domingo (8).

O objetivo é dar visibilidade a temas e exemplos que cercam a temática feminina. Nesta quinta-feira (12), o foco são as mulheres pequenas agricultoras. Confira as outras reportagens da série:

Antes mesmo de conseguir plantar o açaí, Aida teve que enfrentar um longo processo de convencimento do marido. Ela contou à reportagem que já tinha mais de uma década que eles eram proprietários da chácara de 114 hectares, no entanto, o objetivo do esposo era a criação de gado.

Ela começou plantando umas poucas mudas, enviadas por uma amiga do Pará. "Pra ter certeza que era possível", lembra.

O local escolhido para plantar era perto de um pequena vala com água. "Era preciso garantir a umidade", diz ela.

"Logo virou uma touceira e começou a dar aqueles cachos. E eu falando pro meu marido: esse negócio dá aqui, é só dar água."

Após muita insistência, Aida conseguiu convencer o esposo, que cedeu um pedaço da chácara para que ela plantasse. Ela lembra que o lugar só tinhas cascalho e que, por isso brincou: "Isso é um desafio. Ele tá me desafiando, que desaforo."

Assim, a mulher decidiu chamar um trator, revirou os cascalhos, preparou a terra e instalou um sistema de irrigação. Fez as covas para plantar e também selecionou quais cachos seriam usados para fazer as mudas.

De lá para cá, a plantação não só cresceu e deu muitos frutos, como o marido passou a incentivar o trabalho de Aida, que agora pretende plantar um novo tipo de açaí, batizado de BRA Pai d’Égua. "Ele é resultado de uma seleção da Embrapa do Pará", conta a agrônoma.

Os pesquisadores afirmam que, no Norte do país, a fruta pode ser produzida durante o ano todo. Aida diz estar curiosa para saber se o mesmo acontece no Cerrado.

Mudas de açaí Pai d’Égua dentro de uma estufa sendo irrigadas. — Foto: Milena Castro/ G1DF


Diferenças entre o Norte e o Centro-oeste


A agrônoma Aida Kanako Ashiuchi Cardoso explica que a etapa de extração é um dos processos que mais diferencia a produção de açaí no Norte e no Distrito Federal. O clima brasiliense é mais seco e como o fruto precisa de muita água – desde a plantação até o momento de extração da polpa – quanto menor a quantidade de água no solo, maior o tempo de molho.

Para driblar o solo seco, ela investiu em um sistema irrigação que traz água por gravidade dos morros próximos e, quando necessário, a plantação é irrigada com a água de um poço artesiano. A produtora também usa fertilizantes para enriquecer os nutrientes da terra.

Entenda o processo de extração da polpa

  1. Primeiro o fruto é colocado em um catador onde são eliminados insetos e sujeira superficiais;
  2. Depois, o açaí fica de molho no cloro;
  3. Em seguida é enxaguado até tirar todo cloro;
  4. Mais tarde o açaí é colocado de molho em uma água a 85°C;
  5. Por fim, ele é despejado na chamada "despolpadeira" – uma máquina para extrair a polpa.

Após todo esse processo, Aida embala e pesa cada embalagem, que é certificada e congelada. Elas tem 1kg e cada uma é vendida por cerca de R$ 35.

No último final de semana, pela primeira vez a produtora participou da Feira Rural do Parque, promovida pela Emater-DF. O evento foi no estacionamento 13 do Parque da Cidade.

Para Aida, o objetivo não foi vender, e sim "divulgar o produto para os diversos frequentadores do Parque".

Aida entregando um saco com dois pacotes de polpa de açaí para uma compradora na Feira Rural no Parque, em Brasília. — Foto: Milena Castro/ G1DF

O professor da Universidade Federal do Pará e diretor geral do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA) Hervé Rogez, cita os principais benefícios do açaí. Segundo ele, o fruto reúne o tripé da dieta mediterrânea – azeite de oliva, fibras e antioxidantes.

Ele afirma que a incidência de doenças cardiovasculares e de câncer é menor na população que tem uma alimentação rica nesses produtos. O açaí, tipicamente brasileiro, é "três em um".

“O óleo presente no açaí, que é o caráter cremoso dele, tem a mesma composição do azeite de oliva, ele também tem muita fibra e é uma bomba em antioxidante."

*Sob supervisão de Maria Helena Martinho.

Leia mais notícias sobre a região no G1 DF.





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