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Coletivo de voluntários promove ações para incentivar integração social

Coletivo de voluntários promove ações para incentivar integração socialFoto: Correio Braziliense

Salu (E), Felipe Velloso e Vitor Tucci: ações humanistas para dar dignidade e trabalho a quem precisa

Correio Braziliense - 09/02/2019 - 12:52:32

Uma oportunidade. É o que muitas pessoas em situação de rua querem e precisam para mudar de vida. Com o apoio de voluntários que acreditam no próximo, muitos têm alcançado a esperança de um futuro melhor longe das ruas. Assim ocorreu com o autônomo José Salustiano, 35 anos. Hoje morador de uma quitinete em Ceilândia e com emprego fixo, ele viveu os últimos dois anos pelas ruas do Distrito Federal. Seu último “lar” foi o Parque da Cidade.

Salu, como é conhecido, saiu da casa da mãe logo no início da adolescência, aos 12 anos, quando começou a viver de favor em uma igreja. Com o passar do tempo, decidiu ir para o mundo, e o mundo não era tão receptivo como ele imaginava. Medo, violência, insegurança faziam parte da rotina de Salu. No ano passado, teve a oportunidade de conhecer o coletivo No Setor, um projeto de revitalização do Setor Comercial Sul. Desde então, o ex-morador de rua passou a frequentar a região no centro do Plano Piloto para participar das atividades. Foi por meio do coletivo que o hoje trabalhador autônomo conseguiu fonte de renda e uma moradia.

“Trabalhar com eles me deu a possibilidade e a oportunidade de alugar um quarto. Consegui várias doações e minha casa está montada. Eu fico no escritório aqui do coletivo, na limpeza, entrego documentos. Com o apoio dessas pessoas, passei a ter uma nova perspectiva de vida, de esperança e de estar no meio da sociedade”, conta Salu.

Para o ex-morador de rua, além da ajuda do governo, por meio de instituições como os Centros de Referência de Assistência Social (Cras), o apoio de coletivos, empresas privadas e voluntários faz toda a diferença no dia a dia das pessoas em situação de rua. “Com essas ajudas minha autoestima melhorou. Hoje, não penso mais em ficar na rua, mas sim em crescer. Esses projetos não ajudam só a mim, mas a muitas outras pessoas a terem esperança. Lembro-me de que, com ajuda de pessoas, uma moça conseguiu reencontrar a família e voltar para casa”, recordou, emocionado.

Limpeza nas festas

O intuito do coletivo No Setor é realizar projetos sociais, culturais, esportivos, entre outros, que envolvam o maior número de pessoas que trabalham, transitam ou vivem no Setor Comercial Sul. Como forma de agregar os moradores de rua no programa, a ideia foi chamá-los para trabalhar na limpeza das festas realizadas na região. A ação se transformou em uma reintegração ao mercado de trabalho.

“Nosso objetivo desde o início é fazer uma transformação positiva no centro de Brasília. E uma das ações que pensamos foi enxergar nesse negócio uma oportunidade de incluir aqueles que têm menos privilégios. Começamos a ver as habilidades deles e decidimos dar início a esse projeto”, explicou o empreendedor social e um dos fundadores do No Setor, Felipe Velloso, 28.

Segundo Felipe, atualmente vivem de forma fixa no Setor Comercial Sul entre 50 e 100 moradores de rua. Em épocas de fim de ano, chega a 200 pessoas. O No Setor tenta envolver todos, mas nem sempre é possível. “A gente até pensou em desistir, porque alguns deram trabalho no início, mas vimos que muitos estão interessados e decidimos continuar tentando. Agora está dando certo, mesmo que de uma forma amadora, no sentido de amor mesmo”, destaca.

A ação é uma parceria do coletivo com a empresa FGS Limpezas Gerais. O empresário Gilberto Silva, 45, contou que sempre teve vontade de realizar um trabalho social, mas nunca surgiu a oportunidade. “Eu tinha no coração o desejo de ajudar e fico feliz da vida podendo beneficiar essas pessoas que vivem aqui. Nessa região, todo mundo conhece todo mundo, e a gente acabou criando laços de amizade mesmo”, conta.

Gilberto ressalta ainda que a realização do trabalho não é benéfico apenas para ele, como empresário, mas para as pessoas que estão envolvidas que conseguem ajudar, até mesmo, a família com o valor que recebem. “Eu pago uma média de R$ 100 por festa. Mas alguns ainda recebem uma gorjeta a mais”, explica.

Resultados positivos

Jean Carlos da Cruz, mais conhecido como Passarinho, 38, mora no Setor Comercial há alguns anos. Com o trabalho de limpeza que desenvolve, além de comprar utensílios para si, consegue ajudar o filho de 14 anos. Ele está juntando dinheiro para a compra do material escolar do adolescente que vai iniciar o 8º ano.

“Não digo que pago uma pensão, porque o dinheiro não é muito, mas sempre procuro ajudar meu filho. Esse trabalho me dá a chance de querer seguir uma vida diferente. Com o projeto, temos incentivo a um trabalho. As pessoas que passam por aqui costumam nos desprezar e esquecem que também somos seres humanos. A gente agora tem, pelo menos, um pouco de dignidade”, afirma Passarinho.

Futebol à noite: o esporte é essencial para as pessoas se desligarem dos problemas diários (Arquivo Pessoal)
Futebol à noite: o esporte é essencial para as pessoas se desligarem dos problemas diários

Futebol para todos

Outra ação desenvolvida com os moradores de rua pelo No Setor é o Festuc, um futebol que acontece toda sexta-feira, às 19h, no Setor Comercial Sul. O projeto foi iniciado por mais um parceiro, o administrador Vitor Tucci, 28, que costumava jogar futebol com amigos em casa. Com o passar do tempo, resolveram ampliar a brincadeira.

“Foi quando pensamos: por que não levarmos o jogo para o Setor Comercial? Tudo começou igual a gente joga na rua, colocamos chinelo como trave e iniciamos com poucas pessoas. Agora, quando você chega, está lotado de gente. Eles (os moradores de rua) sabem o dia, o horário, tudo certinho”, disse Vitor.

De acordo com o coletivo, o esporte é essencial para que as pessoas que vivem ali se desliguem dos problemas diários e tenham um momento de lazer, que é direito de todo ser humano. Hoje, o que eles precisam para dar continuidade ao futebol é a doação de tênis ou chuteiras. “A maioria deles joga descalço. Nós conseguimos algumas doações de chuteiras, mas ainda são poucas. Quando um jogo acaba, eles devolvem para os próximos usarem”, explicou Vitor. “Para apoiar o projeto, entregar doações ou participar do jogo é só aparecer aqui às 19h toda sexta-feira. Todos são muito bem-vindos”, completou.

"As pessoas que passam por aqui costumam nos desprezar e esquecem que também somos seres humanos. A gente agora tem pelo menos um pouco de dignidade”

Jean Carlos da Cruz, o Passarinho

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