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Com coronavírus, Noronha se prepara para resgates de avião e tem até 'escambo' entre moradores

Com coronavírus, Noronha se prepara para resgates de avião e tem até 'escambo' entre moradoresFoto: Pixabay

Ilha paradisíaca tem de lidar com turismo suspenso e comércio fechado; sem visitantes, número de pessoas no local caiu para menos da metade

Estadão Conteúdo - 08/04/2020 - 19:17:52

O avanço do novo coronavírus obrigou Fernando de Noronha a voltar no tempo. Com o turismo suspenso e comércios fechados, o dinheiro parou de circular, as praias ficaram vazias e parte da população decidiu deixar a ilha que já confirma dez diagnósticos de covid-19. Entre os moradores, há até quem incentive a prática de escambo na vizinhança para superar a crise. Por falta de UTI no arquipélago, a administração local também está preparada para transferir pacientes graves de avião.

Em Noronha, a rotina começou a virar do avesso após o fechamento do aeroporto, a única porta de entrada para turistas, no dia 21 de março, em tentativa de conter a disseminação do coronavírus."Isso fez com que a gente cessasse praticamente toda a economia da ilha, tanto na área privada quanto pública, tendo em vista que 95% da nossa arrecadação vêm das atividades turísticas", afirma administrador-geral do arquipélago, Guilherme Rocha.

Na ocasião, 2.593 mil visitantes tiveram de voltar para casa. Hotéis, pousadas, bares e restaurantes também suspenderam a atividade ou tentam se manter por delivery. Sem movimento, parte dos moradores preferiu passar a quarentena com a família no continente - em voos, por enquanto, sem previsão de volta. No arquipélago, há relatos de empresa que demitiu até 90% do seu quadro de funcionários.

Em questão de dias, Noronha viu o número de pessoas despencar de 7,2 mil, considerando a população flutuante, para menos da metade: 3,5 mil, segundo estimativa local. "Com tranquilidade, 99% da nossa atividade é turismo: isso trouxe um choque muito grande para a comunidade", diz a empresária Adriana Flor, de 48 anos, proprietária da Pousada Mar Aberto.

Em contrapartida, os casos de coronavírus saltaram - mas sem nenhum quadro grave ou morte até o momento. A primeira confirmação foi no dia 26 de março e, duas semanas depois, já são dez diagnósticos, de acordo com a administração. Todos os pacientes são mantidos em casa, acompanhados por equipes de saúde. Em Pernambuco, o governo já considera que a doença está entrando em "aceleração descontrolada".

Isolado por 541 quilômetros do Recife, o arquipélago não conta com hospital de alta complexidade ou UTI. "A gente tem um hospital com 12 leitos bem equipados e duas salas-vermelhas, semi-intensivas, com respiradores", diz Guilherme Rocha. Para quadros clínicos de maior gravidade, o paciente teria de ser levado de avião para a capital. "Se a pessoa precisar ir para a sala-vermelha, imediatamente já solicitamos o salvo aéreo."

O resgate por avião em Noronha já é usado em outras ocorrências graves, como por exemplo acidentes. Atualmente, há duas aeronaves contratadas para prestar o serviço e o tempo de espera pode chegar a 12 horas, por causa de limitações para pousar na ilha à noite.

População ajuda a fiscalizar 'furões'

Com ordem de fechamento das praias, viaturas da Polícia Militar fazem patrulhas pelas ruas de Noronha para fiscalizar quem desrespeita os bloqueios. Carros de som também circulam para orientar sobre o isolamento social - medidas que recebem apoio de quem optou por permanecer na ilha. Em grupos de Whatsapp, remanescentes têm se organizado até para filmar os "furões" e fazer denúncias aos órgãos públicos.

"A população está bem atuante em divulgar pessoas que estão circulando", diz a empresária Janaina Ferreira, de 42 anos, proprietária da Pousada Fortaleza. "Muita gente não estava respeitando o regime de quarentena e aumentando, assim, o risco de chegar infectado."

Antes dos voos serem suspensos, moradores que desembarcassem na ilha, mesmo sem sintoma da covid-19, tinham de passar sete dias em quarentena. Já quem apresentasse qualquer sinal de gripe ficava isolado por duas semanas. Um dos casos mais emblemáticos aconteceu após um homem chegar de viagem e dar uma festa no mês passado. A PM teve de ser acionada para desfazer a aglomeração.

Segundo moradores, a principal angústia é saber quando o turismo poderá ser reaberto. "O pior é este cenário de incerteza que a gente está passando. Estou fazendo projeção de gastos até dezembro porque não sabemos quando a engrenagem, de fato, vai voltar", relata Janaina.

O administrador-geral afirma que não há previsão. "Vamos supor que Fernando de Noronha ficou livre hoje do coronavírus: ainda temos de saber como estão as outras cidades, Estados e países para poder recebê-los", diz Rocha. "E, se todo mundo ficar livre, não vai retomar o mesmo fluxo econômico do dia para o outro, porque as próprias pessoas vão precisar recuperar seu ritmo financeiro. Não pode ter afobação. O que temos de vencer hoje é a pandemia: depois a gente pensa em calcular prejuízo."

Isolamento incentiva doações e até escambo entre moradores

Embora não haja registro de desabastecimento na ilha, onde os mantimentos chegam por navio, a situação da população mais pobre já é alvo de preocupação. Recentemente, a administração comprou 2 mil cestas básicas, previstas para ser entregues nesta semana, com as quais pretende abastecer cerca de 900 famílias pelos próximos três meses.

Em outra iniciativa, um supermercado local decidiu armar uma banca com gêneros alimentícios grátis. "Pegar somente o necessário", é a orientação. Também há registro de pescas coletivas para distribuição de peixes.

A empresária Adriana Flor conta que até a prática de escambo, como uma forma de enfrentar a crise, voltou entre os moradores. "Se hoje tirei um cacho de banana e o vizinho pescou, a gente troca", relata. "É uma volta ao que acontecia lá atrás, quando Noronha era um presídio. A diferença é que agora, por causa da internet, a gente consegue diminuir a sensação de isolamento."

Sozinha na pousada (as duas filhas ficaram no Recife), ela tenta manter a rotina dos dias normais. Acorda às 6h30, faz exercício e cuida do estabelecimento. "Quando a coisa aperta, coloco uma música boa para tocar - um Lulu Santos, um Tim Maia - e fico cantando junto", conta.

Por preocupação com saúde mental dos moradores, a administração divulgou o telefone de três psicólogas contratadas para fazer atendimento remoto. Adriana não precisou recorrer ao serviço. "Nesses dias, a natureza está dando uma explosão de vida incrível. É aquele pôr do sol que você diz: 'Meu Deus, obrigado por tudo'. No fim das contas é um privilégio ficar isolada aqui."

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