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Com passeios, Bolsonaro desperta nossos instintos primitivos

Com passeios, Bolsonaro desperta nossos instintos primitivosFoto: Reprodução TV Globo

Fica a pergunta: por que ele faz isso?

Luiz Fernando Vianna - Revista época - 14/04/2020 - 08:49:42

Ele aguça a aflição dos que não suportam mais o isolamento para satisfazer o que, além de burrice, pode ser sadismo, no site de Época, mostra que, nos últimos dias, houve redução do isolamento social em 26 dos 27 estados brasileiros – a exceção é o Amazonas, onde o sistema de saúde está à beira de colapsar.Não é correto afirmar que isso esteja acontecendo apenas graças à campanha de Jair Bolsonaro para que as pessoas saiam às ruas. Seria imaginar que grande parte da população é vulnerável aos desígnios de um líder. Segundo as pesquisas, porém, não mais do que 30% dos entrevistados o aprova como presidente.

Bolsonaro está falando aos nossos instintos primitivos. As orientações de isolamento, por parte do Ministério da Saúde e de governos estaduais e municipais, estão completando um mês. Para quem as tem seguido, em nome do bem-estar próprio e coletivo, há inevitável saturação. O lar vira prisão, os afetos viram rusgas, o descanso vira tédio. Um incentivo do presidente, mesmo para quem não o tolera, é capaz de funcionar como um empurrão para fora de casa.

Fica a pergunta: por que ele faz isso? A resposta mais cândida aponta que ele é mal assessorado. O deputado Osmar Terra (MDB-RS), médico que vem trabalhando em parceria com o presidente para derrubar Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, chegou a cravar que morreriam menos de mil pessoas por conta do novo coronavírus. Já perdeu a aposta, como qualquer bípede provido de neurônios sabia que aconteceria. Outro influente, o filho 02 Carlos Bolsonaro, que instalou no Palácio do Planalto um “gabinete do ódio” destinado a espalhar mentiras e atacar pessoas, é inepto para ponderações equilibradas.

Há a tese bastante plausível da burrice. Jair Bolsonaro seria um imbecil. Não conseguiria enxergar que, ao contribuir para que dezenas de milhares de pessoas morram, perderá o posto, a carreira política e, talvez, a liberdade. Terá sido um líder que atentou contra vidas pelas quais deveria zelar.

Há uma terceira hipótese que não exclui as anteriores: Bolsonaro tem na morte alheia o seu prazer maior. A defesa entusiasmada da ditadura e, especificamente, da tortura (o militar torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra é seu grande ídolo) indica que o sofrimento dos outros provoca nele alegria. Para além dos interesses comerciais, pode haver componentes macabros nas relações estreitas de sua família com as milícias assassinas do Rio de Janeiro.

Na sexta 10, em mais um passeio que provocou aglomeração, o presidente limpou a coriza com o braço direito e, em seguida, o estendeu para uma idosa tocá-lo. Dentre tantas, é uma cena que marcará a narrativa da irresponsabilidade de Bolsonaro nos tempos de pandemia. Momentos antes, fizera a segunda visita, em pouco tempo, ao Hospital das Forças Armadas. Com a própria saúde ele está preocupado.

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