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Confusão mental na tela

Confusão mental na telaFoto: Correio Braziliense

Alexandre Nero é o astro do bizarro longa Albatroz: personagem tem sinestesia e a condição se reflete nas imagens do filme

Por Ricardo Daehn - Correio Braziliense - 07/03/2019 - 17:59:42

Em lançamento pela Paris Filmes, Albatroz — que chega aos cinemas na próxima quinta — é um filme que suscitou avisos em cartazes de cinemas com alerta sobre o possível impacto em pessoas com sensibilidade à luz e que sofrem de epilepsia. “Eu mesmo gostaria que todo o espectador pudesse ver. Para mim, foi uma surpresa”, observa o diretor Daniel Augusto, à frente do segundo filme de ficção, depois de Não pare na pista, no qual tratou da vida de Paulo Coelho.

“Simão (Alexandre Nero) é o personagem central de Albatroz e tem sinestesia: pelos princípios da neurociência, ele ouve sons ao mesmo tempo em que vê cores. O filme procura criar a atmosfera de sinestesia, com pesadelos. Isso pode ser tanto agradável quanto desagradável, a depender de cada pessoa”, avalia o diretor.

No longa, um fotógrafo é confrontado com a opção de, num momento de confusão terrorista, apostar na continuidade do ofício em vez de reagir fisicamente e resguardar uma mulher agredida. “Neste último ano de combate às fake news, pesa isso de se estabelecer onde está a verdade... O Brasil, no cinema, tem uma tradição de narrativas ligadas ao realismo. Busquei um cinema mais onírico, com defesa da arte, retratando o processo da arte e sublinhando a importância dela. Meu filme flerta com uma herança modernista — em períodos fascistas, no passado, era uma linha de cinema tratada como arte degenerada. Fui honesto nas intenções com o que quero dizer”, pontua o realizador.

Um “primeiro time” da televisão, do cinema e do teatro — entre as quais, Andrea Beltrão, Andréia Horta, Maria Flor e Camila Morgado — tomou parte do elenco, “em busca de linguagem mais ousada”. Há tempos, Daniel Augusto pretendia realizar uma obra que tivesse mais de uma possibilidade de interpretação. “Queria fazer um filme que fosse um quebra-cabeças cujas peças pudessem ser encaixadas de mais de uma maneira. Cabe ao espectador encaixar, por conta própria. Não se trata de um filme interativo, como foi um episódio do Black mirror”, comenta Daniel.

Albatroz tem por objetivo se entroncar numa tradição que foge à do surgimento do cinema, com documentários como os dos irmãos Lumière. “Apostei numa tradição mais imaginativa ligada ao Georges Méliès — com desdobramentos no expressionismo alemão, no surrealismo e que vai desembocar em David Lynch e David Cronenberg, entre outros. Queria que o filme se estabelecesse num lugar entre sonho e pesadelo”, conta o diretor.

Dos cineastas que trabalham com enredos assemelhados, Daniel destaca David Lynch que, com filmes como A estrada perdida, carrega “um certo ruído — uma estranheza própria do filme”. Às múltiplas interpretações, somam-se, em Albatroz, embaralhamentos de tempos e de histórias, além da paleta de gêneros integrada por ficção científica, drama, suspense e thriller.

Ao custo de R$ 6 milhões, a obra desafiou o cineasta, o diretor de fotografia e a diretora de arte na escolha das cores a serem usadas. “Optamos, por exemplo, por recorrer a fades coloridos, já que o protagonista associa cores a certos sons”, diz. Num jogo de brincadeira, mistérios e de assumidos excessos de pretensão, o cineasta compara Albatroz à questão machadiana do “traiu ou não traiu” ou do pacto com o diabo — feito, ou não, por Riobaldo — em Grande sertão: veredas. Cabe ao espectador formular as respostas.

"Queria fazer um filme que fosse um quebra-cabeças cujas peças pudessem ser encaixadas de mais de uma maneira. Cabe ao espectador encaixar, por conta própria."

Daniel Augusto, diretor de Albatroz

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