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Conheça a história de uma vítima de estupro que teve filho aos 11 anos, em 1998

Conheça a história de uma vítima de estupro que teve filho aos 11 anos, em 1998Foto: Marcia Foletto/O Globo

‘Aquilo me mudou para sempre. Nunca mais brinquei’, diz Marcelina Machado de Oliveira, que teve aborto autorizado pela Justiça, mas não por seus pais

Nataniel Lima - O Globo/oito E Meia - 23/08/2020 - 12:00:43

Marcelina Machado, 33 anos, engravidou depois de ser estuprada, aos 10, e hoje tem um filho de 22: aborto foi autorizado pela Justiça, mas os pais da menina decidiram manter gestação

No quintal, castigado pela seca, uma boneca esquecida lembra o passado que Marcelina Machado de Oliveira, 33 anos, não viveu. Na mesma casa em Sapucaia, no Sul do estado do Rio, em que morava quando foi estuprada, aos 10 anos, Marcelina, hoje mãe de quatro filhos, nubla o olhar ao lembrar dos nove meses, há 22 anos, em que enfrentou, sem entender, a gravidez de Luciano, seu mais velho. A então menina teve o aborto autorizado pelo juiz Luiz Olimpio Cardoso, que atua na comarca até hoje, mas seus pais optaram pela não interrupção da gravidez. Foi abrigada em um lar católico, em Jacareí, interior de São Paulo. Lá fez o parto, em 13 de maio de 1998. Aos 11 anos.

— Eu não desejo que ninguém passe pelo que eu passei. Era muito difícil. Depois de três meses do estupro, fiquei muito enjoada. O médico da cidade me disse que eu estava grávida. Aquilo me mudou para sempre. Nunca mais brinquei — diz Marcelina, cercada por Letícia e Iara, de 13 e 9 anos, também suas filhas. Fora o enjoo que sentiu, ela não dá mais detalhes da gestação. Questionada, faz silêncio, como se fosse uma memória difícil demais de alcançar.

Desde o crime, o município criou uma estrutura para receber denúncias de abuso. No abrigo criado para proteger as crianças, há dez, entre 2 e 17 anos. Oito delas abusadas sexualmente por parentes. A movimentação em torno do caso de Marcelina era a mesma que foi despertada neste mês pelo aborto da menina de dez anos que engravidou depois de ter sido estuprada — o suspeito é seu tio.

— Havia um batalhão de gente na porta do fórum naquele dezembro de 1997 — lembra Olimpio Cardoso. — Não sou contra nem a favor do aborto. Eu não sou mulher, sou homem, e quem deve decidir é a mulher. Autorizei o aborto, mas de fato quem autoriza é a lei. A menina não tinha ideia do que estava acontecendo. Consegui uma ambulância, ela foi para o Rio, mas um padre veio de Santos, fez a cabeça, e os pais desistiram.

Dentro da Igreja Católica, há visões divergentes sobre a interrupção voluntária da gravidez. Além da corrente Pro-Vida, há um grupo crescente de mulheres católicas que atuam pelo cumprimento do direito que a lei define.

— Se a gente considera como direito o aborto nos casos de abuso ou estupro, não há por que fazer discussão religiosa sobre isso. Enxergar uma criança em uma situação dessa como assassina é não entender o tamanho da tragédia — afirma Regina Jurkewicz, da equipe das Católicas pelo Direito de Decidir.

O juiz se preocupa com o que chama de naturalização do absurdo. Na avaliação do magistrado, o quadro de abuso permanece o mesmo.

Marcelina e a mãe tinham dois medos: de a então menina morrer no aborto, mesmo feito legalmente e com acompanhamento médico, ou de morrer no parto.

— Conversávamos muito com um padre daqui. Depois um grupo de católicas convenceu meus pais a não me deixarem fazer o aborto.

O criminoso e pai de Luciano nunca foi encontrado. Marcelina conta que era um trabalhador mais velho, que prestava serviço nas plantações de cana da região. Os pais não denunciaram o estupro. Na entrevista ao GLOBO, ela apontou o lugar do crime. Ao lado da janela do quarto onde costumava brincar.

Luciano Machado, 22 anos, trabalha em um abatedouro de frangos, em uma cidade vizinha, em São José do Vale do Rio Preto. A mãe ligou para ele durante a entrevista e decidiu seguir ao seu encontro, na saída do trabalho. Marcelina reafirmava a toda hora o amor pelos filhos. Tímido, com olhar baixo, ele conta que estudou até o quinto ano e “se juntou” à sua companheira, de 41 anos, no ano passado.

Tem um olhar triste, e explica a razão na primeira palavra que pronuncia no início da conversa com O GLOBO. A mãe se afasta e chora:

— A gente se sente culpado. Saber que nasceu de um crime, de um estupro. Eu já perguntei muito sobre o meu pai. Minha mãe começou aos poucos a me contar tudo quando eu tinha dez anos. Fico pensando no quanto ela sofreu. Queria muito saber por que ele fez isso — diz Luciano.

Ele ainda lembra ter se sentido “triste e caído” ao saber de sua origem:

— Muita gente até hoje diz que era para eu ter sido jogado no lixo. Sei que eram duas crianças, uma cuidando da outra.

Para sua mãe, “é uma história difícil”.

— Mas é como digo sempre: história é que nem dinheiro, tem que ser contada.

Fonte: O Globo

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