×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 17 de outubro de 2021

Conselho de Saúde aponta responsabilidade do governo Bolsonaro em crise de Manaus

Conselho de Saúde aponta responsabilidade do governo Bolsonaro em crise de ManausFoto: Michael Dantas

Órgãos federais e estudais também engrossam coro e dizem que gestão precisa viabilizar soluções para caos sanitário

Por Cristiane Sampaio - Brasil De Fato - 17/01/2021 - 10:48:31

O Conselho Nacional de Saúde (CNS) rebateu, nesta sexta-feira (15), as declarações do governo Bolsonaro a respeito do caos sanitário na cidade de Manaus (AM), onde a falta de oxigênio provocou a morte de diferentes pacientes na quinta-feira (14) por asfixia.

A conselheira Vanja Santos, da mesa diretora da entidade, disse que o presidente da República não pode se isentar da responsabilidade sobre a situação da capital amazonense, onde a covid-19 já matou mais de 5.300 pessoas. O CNS também publicou nota na noite desta sexta (15) pedindo "providências imediatas" para a crise.

“Já faz muito tempo, desde o início da pandemia, que o governo federal não tem feito a parte dele, que seria agir desde o principio pra que nós não chegássemos a este ponto, tomar a dianteira do cuidado com a população brasileira. Nós tivemos, no primeiro momento, o governo fazendo pouco da pandemia, das infecções”, disse Santos ao Brasil de Fato, após Jair Bolsonaro dar mais uma declaração controversa sobre o avanço do novo coronavírus no país.

"A gente está sempre fazendo o que tem que fazer, né? Problema em Manaus : terrível o problema lá, agora nós fizemos a nossa parte, com recursos, meios", declarou o chefe do Executivo.

O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, também se manifestou de forma polêmica após o agravamento da situação da cidade. Ele chegou a colocar a culpa nas chuvas, por exemplo.

A manifestação foi feita três dias após Pazuello visitar o Amazonas, que hoje acumula quase 6 mil óbitos registrados e mais de 223 mil infecções pelo novo coronavírus, segundo contagem oficial.

O ministro também culpou a distância e as dificuldades de logística para tentar embasar a carência de oxigênio, suprimento que é de responsabilidade do governo federal.

E acrescentou: “Manaus não teve a efetiva ação no tratamento precoce com diagnóstico clínico no atendimento básico, e isso impactou muito a gravidade da doença”.

A declaração do mandatário é uma referência indireta à defesa do governo Bolsonaro em torno do uso de medicamentos sem comprovação científica para esse tipo de tratamento, como é o caso da cloroquina.

“O governo federal tira algumas coisas da cabeça e quer impor à população sem que pra isso tenha dados científicos. É um pacote que eles tentam impor e querem culpabilizar os médicos e as instituições que não aderirem a isso. É uma política genocida da população brasileira, e eu não posso ver essa declaração do Pazuello como algo sério”, critica Vanja Santos.

O que faltou?

Na avaliação do CNS, o governo federal tem “forte responsabilidade” no processo que levou a capital amazonense ao status atual da crise de saúde pública. Segundo aponta a conselheira, em primeiro lugar, o “descompromisso” de Bolsonaro com o enfrentamento à covid-19 deixou gestores locais à deriva, tendo que administrar por conta própria fluxos e demandas que, via de regra, dependem de uma lógica conjunta – a mesma que orienta o Sistema Único de Saúde (SUS), que opera de forma tripartite, envolvendo União, estados e municípios.

“Faltou um plano nacional de enfrentamento à covid-19, o que acabou sendo feito pela Frente pela Vida. Faltou o governo estabelecer um plano como esse e chamar os pares pra dialogar, participar e interagir com ele. E faltou acompanhar o desenrolar nos estados, estabelecimento de lockdown onde fosse necessário, etc.”, resgata Vanja Santos, lembrando que Bolsonaro chegou inclusive a criticar o lockdown do estado do Maranhão, por exemplo, em maio de 2020.

Para o Conselho Nacional de Saúde, faltou ainda abastecer os entes federados com insumos e equipamentos, como é o caso do remédios, equipamentos para exame pulmonar, entre outros. “Também faltam profissionais especializados para o cuidado intensivo dos pacientes que necessitam de auxílio para respirar”, acrescenta Vanja, ao falar em “negligência”.

Uma situação foi puxando a outra. E, quando você vê a situação do Amazonas, se está buscando oxigênio pra região que é exatamente o pulmão do mundo. Mas, quando você chega nessa situação e vai no hospital, está faltando muito mais do que oxigênio”, relata a conselheira, ao mencionar que familiares de pacientes estão buscando remédios e equipamentos por conta própria para tentar aumentar a expectativa de vida dos doentes.

Outros órgãos

Diferentes órgãos públicos federais e estaduais ajudaram a engrossar o coro feito pelo CNS. Na quinta-feira (14), por exemplo, uma ação civil pública protocolada na Justiça Federal de Manaus apontou que o governo Bolsonaro seria o responsável por ter que buscar uma saída para o colapso na disponibilidade de oxigênio medicinal no estado.

A argumentação é do Ministério Público Federal (MPF), da Defensoria Pública da União (DPU), do Ministério Público do Estado do Amazonas, da Defensoria Pública do Estado do Amazonas e do Ministério Público de Contas estadual. Juntos, eles assinam a ação.

A Justiça acatou parcialmente os pedidos feitos pelos órgãos e estipulou prazo de 24 horas para que o governo Bolsonaro se manifestasse e providenciasse a transferência de pacientes para outros estados.

Também foi estabelecido que a União deve apresentar planejamento de suprimento das necessidades da rede estadual de saúde.

Seguindo a mesma linha, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, na noite desta sexta (15), que a gestão Bolsonaro tem responsabilidade sobre a situação e precisa enviar oxigênio para a capital amazonense com urgência.

Também determinou o prazo de 48 horas para que a gestão apresente um plano detalhado com estratégias de atuação no local. A decisão atende um pedido feito pelo PT e pelo PCdoB e estipula ainda que o governo atualize o plano a cada 48 horas “enquanto perdurar a conjuntura excepcional”.

Edição: Leandro Melito

Comentários para "Conselho de Saúde aponta responsabilidade do governo Bolsonaro em crise de Manaus":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Em greve, caminhoneiros dizem que movimento será 'principalmente' em Santos, São Paulo

Em greve, caminhoneiros dizem que movimento será 'principalmente' em Santos, São Paulo

No fim de julho, transportadores da região interromperam as atividades durante um dia, sem impactos à operação do Porto de Santos.

A contragosto, governo vê Câmara aprovar verba de R$ 234 mi para combater covid entre indígenas

A contragosto, governo vê Câmara aprovar verba de R$ 234 mi para combater covid entre indígenas

Indígenas são mais suscetíveis a doenças infectocontagiosas, por isso a pandemia ampliou as ameaças que circundam o segmento

Mais de 200 entidades lançam documento rejeitando MP que extingue Bolsa Família e PAA

Mais de 200 entidades lançam documento rejeitando MP que extingue Bolsa Família e PAA

A MP significa o fim do PAA, instrumento que permite que o poder público adquira a produção de alimentos da agricultura familiar camponesa e doe para instituições que atendem população em situação de vulnerabilidade

Governo não renovará operação das Forças Armadas na Amazônia, diz Mourão

Governo não renovará operação das Forças Armadas na Amazônia, diz Mourão

Mesmo com o fim da operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), militares continuarão a dar apoio logístico, disse o vice-presidente.

PF desarticula contrabando de ouro de terras indígenas venezuelanas

PF desarticula contrabando de ouro de terras indígenas venezuelanas

Operação La Cadena cumpre 40 mandados de prisão, busca e apreensão

Covid pode ter afetado 'cérebro' de Ciro Gomes, diz Lula após pedetista atacar Dilma Rousseff

Covid pode ter afetado 'cérebro' de Ciro Gomes, diz Lula após pedetista atacar Dilma Rousseff

'Vou decidir no ano que vem', diz Lula sobre ser candidato

"O mundo perdeu a admiração pelo Brasil", diz Gilberto Gil

Um dos maiores artistas da MPB e ex-ministro da Cultura lamentou o retrocesso nacional

Após leilão fracassado, oferta permanente de petróleo é

Após leilão fracassado, oferta permanente de petróleo é "ameaça eterna" em Fernando de Noronha

O arquipélago de Fernando de Noronha é considerado Patrimônio Mundial Natural pela UNESCO desde 2001

Xuxa chama Bolsonaro de 'genocida' e pede que apoiadores deixem de segui-la no Instagram

Xuxa chama Bolsonaro de 'genocida' e pede que apoiadores deixem de segui-la no Instagram

“E você que é a favor da vida, assine o impeachment agora”, completou a apresentadora, ao compartilhar vídeo em que Bolsonaro reclamava por não ter conseguido ver o jogo do Santos por não estar vacinado

Ciro fala em conspiração de Lula por impeachment de Dilma, que o acusa de mentir

Ciro fala em conspiração de Lula por impeachment de Dilma, que o acusa de mentir

Em entrevista ao podcast Estadão Notícias, Ciro lembrou que nomes com os quais Lula ensaia uma reaproximação política hoje, como os emedebistas Renan Calheiros e Eunício Oliveira, patrocinaram a deposição de Dilma, tratada pelo PT como golpe.

Fascismo está na raiz do bolsonarismo, diz coordenador do Observatório da Extrema Direita

Fascismo está na raiz do bolsonarismo, diz coordenador do Observatório da Extrema Direita

Bolsonaro usou uma série de símbolos ligados ao integralismo em seu governo, como o slogan "Deus, Pátria e Família"