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Da horta para a sala de aula

Da horta para a sala de aulaFoto: Correio Braziliense

O cuidado com os peixes é passado de Renato Moraes para as alunas

Emilly Behnke-correio Braziliense - 16/12/2019 - 11:58:22

Projetos de escolas da rede pública encontraram no plantio de alimentos uma oportunidade de ensino e conscientização ambiental para alunos desde os primeiros anos. Iniciativas envolvem a comunidade e contam com a aprovação dos pequenos

O alimento no prato da merenda do aluno, além de fonte de nutrientes, pode ser fonte de aprendizado. Da semente plantada até a comida na mesa são inúmeras as possibilidades de ensino. É por meio dessa visão que escolas como o Jardim de Infância da 404 Norte trabalham desde cedo a importância do plantio saudável de alimentos. A iniciativa não é um caso isolado. Outras escolas da rede pública do Distrito Federal também cultivam hortas ou têm projetos voltados para o consumo de orgânicos e a sustentabilidade.

Projeto de horta no Jardim de Infância da 404 Norte foi uma iniciativa da diretora Rosimara Moreschi, aprovada pelos estudantes do colégio (Emilly Behnke/CB/D.A Press)
Projeto de horta no Jardim de Infância da 404 Norte foi uma iniciativa da diretora Rosimara Moreschi, aprovada pelos estudantes do colégio

De acordo com a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), existem 127 hortas escolares na rede pública do DF, conforme o levantamento mais recente, feito no ano passado. A pasta informou que, no ensino infantil, a prática é estimulada com intuito de integrar pedagogicamente a escola com a horta e promover a educação alimentar e ambiental.

Os vegetais plantados são utilizados na merenda das unidades escolares. Assim, o aluno desde cedo aprende de onde vem o alimento que está no seu prato. Para a diretora de Alimentação Escolar da Secretaria, Kelen Pedrollo, a melhor estratégia para propagar os ideais da alimentação equilibrada e nutritiva é investir em ações na educação infantil, de 0 a 5 anos. “É com essa clientela que trabalhamos melhor a ressignificação da alimentação. Eles estão mais predispostos a acolher essas ideias e criam um senso crítico para experimentar coisas novas”, explicou.

Trabalhar com os pequenos permite ganhos a longo prazo. “O objetivo é que se tornem adolescentes e adultos saudáveis, com uma alimentação que reflita em qualidade de vida”, ressaltou. São promovidas semanas temáticas ao longo do ano para conscientizar os alunos. Além disso, cada regional de ensino tem autonomia para aplicar projetos paralelos voltados para a alimentação.

Colorindo a alimentação: alunos reproduzem alimentos de forma lúdica (Lívia Bacharini/Divulgação)
Colorindo a alimentação: alunos reproduzem alimentos de forma lúdica

Semeando educação

No Jardim de Infância da 404 Norte, o projeto Por um mundo melhor vai além da educação alimentar e aborda as ideias de reúso e reciclagem da água, dos materiais e dos alimentos. “Desde 2003, trabalhamos em diversas áreas da alimentação saudável e do cuidado com a natureza”, contou Rosiara Moreschi, 53, diretora da escola.

Todo ano, a instituição acrescenta uma nova atividade ao projeto. “Agora, começamos com o reúso da água, porque, na época em que teve a crise hídrica, a regional de ensino pediu para suspender a horta para não gastar tanta água”, disse a educadora. Rosimara comenta que os alunos, de idade entre 4 e 5 anos, têm grande apego pela atividade, e, por isso, a escola buscou alternativas para não suspendê-la.

“Por dia, jogamos fora 5 mil litros de água só onde eles (os alunos) lavam as mãozinhas e escovam os dentes. Corremos atrás e agora temos um sistema de tubulação com filtragem que leva a água para a horta”, relatou. Para a instalação do sistema de reciclagem de água, a escola contou com a parceria da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF) e com doações de pais dos alunos.

A unidade tem uma compositeira para adubar a horta e a criação de abelhas jataí para a produção de mel. Segundo a diretora, os alunos se envolvem em todas as etapas de cuidado e manutenção. “Ensinamos tudo que envolve o plantio, crescimento, colheita e consumo dos alimentos. Plantamos o que eles gostam e tentamos reutilizar tudo, inclusive as cascas”, completou.

Dos produtos da horta, a alface é o preferido de Bernardo César Gomes Soares, 6 anos, um dos 180 alunos do Jardim de Infância. “Acho a horta muito legal para a alimentação da gente. Eu gosto de alface porque não é nem mole, nem duro”, contou. Já para Lorenzo Meireles Ribeiro, 5 anos, o mais interessante é a prática do plantio. “Verde é minha cor preferida, e eu gosto muito de achar as minhocas na terra.”

Plantio diferente

Alface, alho-poró, salsa, coentro, cebolinha e morango. Esses são alguns dos alimentos plantados na horta da Escola Parque da 313/314 Sul. A diferença é que eles são cultivados na água e nutridos pela matéria orgânica de peixes. O sistema de aquaponia foi implementado em 2018 e conta com o apoio da Emater-DF e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

A iniciativa busca promover o contato com a natureza e a aprendizagem integrada de conteúdos curriculares. A instituição existe desde 1977 e é destinada a promover atividades que complementam o currículo escolar das Escolas Classe. “Trabalhamos com a parte da promoção da saúde, e a gente queria alguma coisa que pudesse trazer uma diferença no aprendizado das crianças”, informou o professor Renato Moraes, 41, responsável pelo projeto.

Composto por cerca de 180 peixes de oito espécies, o sistema combina, em um ambiente de troca de água, o cultivo de plantas com a criação dos animais. “Temos a produção de alimentos, que os meninos consomem, e a parte dos peixes, que ainda não conseguimos fornecer para eles por conta da afetividade desenvolvida com os animais”, destacou Renato.

Professor de artes visuais, Renato busca envolver as atividades da aquaponia com os conteúdos artísticos, além de toda a ciência envolvida no sistema, como os conceitos de biologia, química e botânica. “Os alunos fazem tudo e sabem tudo. Entendem todo o processo.” E a diversão é garantida em todas as etapas, especialmente em dias de colheita. “Se deixar eles vão comendo tudo enquanto a gente colhe e não dá nem tempo de levar para o refeitório”, brincou.

Crianças de 9 a 11 anos participam das atividades de aquaponia. Uma delas é Sofia Noleto Pereira, 11 anos, aluna que acompanhou a implementação do projeto. “Eu gosto do processo de reutilização da água e da filtragem, porque é o que alimenta as plantas”, comentou. A estudante também gosta de comer o que é plantado. “Tudo é gostoso. Adoro cebolinha, tomate, manjericão no macarrão e morango, que é minha fruta preferida.”

O que também agrada os alunos da escola é a interatividade com os peixes do tanque. Para Beatriz Ferreira Cavalcante, 11 anos, essa é a melhor parte de todo o processo e a que mais contribui para o aprendizado. “Minha tia fez uma aquaponia, e eu cuidei de um peixe que estava machucado, porque eu aprendi como fazer aqui”, explicou. A aluna destaca que sente orgulho pelo projeto desenvolvido, pois o acompanhou desde o início e até desenvolveu um semelhante na própria casa, em menor proporção, com a ajuda dos pais.

Cor no prato

A descoberta de novos sabores é um dos pilares para desenvolver a consciência alimentar nas crianças desde cedo. É assim que o projeto Colorindo a alimentação busca ensinar crianças de 4 a 5 anos, em dois colégios no Guará. A Escola Classe 7 da região é uma das unidades a receber a iniciativa, que começou neste semestre.

Para Fernando Gabriel de Vasconcelos, 62, diretor da escola, o colégio é privilegiado por ser participante das iniciativas nutricionais promovidas pela regional. “A educação (alimentar) é fundamental na formação das nossas crianças. Fico feliz de termos esse acompanhamento, porque essa área é considerada uma área vulnerável e de estruturação familiar indefinida”, afirmou.

A instituição também recebe o projeto Escola saudável, iniciado em 2017 e voltado para alunos do ensino fundamental. As duas iniciativas ocorrem por meio de encontros, que incluem oficina culinária e oficina de horta. Cerca de 2 mil alunos foram atingidos pelas ações. A nutricionista da Regional de Ensino do Guará, Lívia Bacharini, 37, é uma das profissionais responsáveis pelos projetos.

“Nosso objetivo é que os alunos extrapolem essa barreira da alimentação saudável para a vida deles para conseguir ter escolhas alimentares corretas, com autonomia de saber o que é saudável e o que não é”, esclareceu Lívia. Os projetos surgiram de um importante diagnóstico: “Vimos que nossas Escolas Classes apresentavam a maior taxa de sobrepeso e obesidade, cerca de 28 a 30% dos alunos. Então começamos a trabalhar com elas”.

Mas o trabalho só dá certo de verdade se tiver o auxílio dos pais. Por isso, a nutricionista realiza reuniões com os responsáveis toda vez que um novo ciclo do projeto se inicia em uma escola. “Muitos pais ainda mandam lanche e percebemos que é uma quantidade exagerada de alimentos ultraprocessados, por isso buscamos a participação deles”, comentou.

Para desenvolver o projeto, a nutricionista conta com a ajuda de estudantes do programa de estágio obrigatório do curso de nutrição do Centro Universitário Unieuro, além de uma professora da instituição. A parceria é a única contribuição recebida, pois não há disponibilidade de verba, e tudo sai do bolso de Lívia, dos ajudantes e das próprias escolas.

Ana Carolina Ferreira, 24, é uma das estagiárias do projeto. Ela conta que de todos os estágios por que passou, esse é um dos que mais gostou. “Nós transitamos pelas escolas, e eu adoro a parte da educação infantil. É superdivertido. Eles não têm muito conhecimento e, às vezes, não conhecem o que apresentamos, então tem muita interação”, comentou.

As ações de educação alimentar contam, ainda, com importantes aliadas: as merendeiras, que também recebem capacitação. Edilza Lima, 49, é uma delas. Há 18 anos ela é carinhosamente chamada de “tia do lanche” ou “tia da cantina”. Na escola do Guará, já são 7 anos de trabalho. “Eles amam o lanche. Perguntam sobre tudo e têm interesse. Tem mãe que até reclama que a criança não come salada em casa, mas aqui come”, disse.

A boa aceitação da comida, contudo, é resultado de um processo integrado, que vai desde as oficinas de nutrição até o carinho e a paciência das merendeiras: “No início do ano, os pequenininhos recusam um pouco o lanche, mas depois a gente vai ensinando, e eles pegam o passo. É todo um trabalho que fazemos”, completou Edilza, orgulhosa.


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