×
ContextoExato

Contexto Exato

Brasil - Brasília - Distrito Federal - 17 de outubro de 2021

Dados apresentados em audiência apontam negligência da Vale sobre risco de rompimento

Dados apresentados em audiência apontam negligência da Vale sobre risco de rompimentoFoto: Isis Medeiros

Superintendência do Trabalho cita ausência de drenagem, estruturas danificadas e falta de manutenção como exemplos

Por Amélia Gomes - Brasil De Fato - 29/03/2019 - 10:39:31

Na semana em que se completam dois meses do crime que vitimou 216 pessoas e chocou o mundo, outras dezenas de comunidades de Minas Gerais vivem o medo de o drama se repetir. Barão de Cocais, Macacos, Congonhas, Itatiaiuçu e Ouro Preto são apenas algumas delas. Na quarta-feira (27), três sirenes tocaram em duas cidades, já que o nível do risco de rompimento passou para iminente. Em Itabira, cidade onde nasceu a Vale, o alarme foi soado por engano.

No caso de Macacos e Ouro Preto, a Defesa Civil de Minas Gerais inclusive denunciou que a empresa já sabia da reclassificação do risco das barragens durante o dia, mas deixou para acionar os alarmes apenas à noite. Esta e outras denúncias foram divulgadas em audiência pública sobre o assunto realizada nesta quinta (28) na ALMG, em BH. Essa foi a segunda reunião da CPI sobre o rompimento da barragem de Brumadinho, que prevê encontros periódicos para falar do assunto.

Segurança da barragem era negligenciada desde 2002

A Vale adquiriu o complexo minerário do Córrego do Feijão em 2001 e, segundo dados apresentados pelos auditores, desde 2002 a estrutura apresentava falhas na segurança. Os auditores apontaram que havia erros na segurança, desde a presença de animais em cima da estrutura - cerca de 60 cabeças de gado pastavam no local, o que é proibido por lei - até a formação de lençóis de água na barragem devido à ineficácia na drenagem e também a ausência de um radar captador de movimentação na estrutura.

Além das falhas na manutenção da estrutura, outra irregularidade apontada é a execução de explosões próxima à estrutura. De acordo com os técnicos, a mineradora estava realizando operações nas duas minas que eram muito próximas à estrutura, a do Córrego do Feijão e a mina da Jangada, o que é proibido por lei. No dia do crime inclusive, 25 de janeiro, foram realizadas duas explosões no local. Uma delas foi efetuada uma hora após o rompimento da barragem.

19 barragens da Vale não vão conseguir nova certificação de segurança

Todas as certificação de segurança das barragens de rejeitos em Minas Gerais expiram no próximo dia 31. Para conseguir a renovação, as empresas precisam comprovar que as estruturas estão seguras. No entanto, nenhuma certificadora quer conferir às mineradoras o atestado. “Das 19 barragens à montante da Vale nenhuma delas vai receber a certificação dia 31. Nenhuma delas. Essa é a realidade”, afirmou o auditor fiscal do trabalho Daniel Dias Rabelo. Isso significa que todas essas estruturas podem ser reclassificadas em seu nível de risco de rompimento, ou seja, podem acontecer mais evacuações em outras cidades.

Contorcionismo nos números

A Agência Nacional de Mineração determina que para uma barragem ser considerada segura precisa pontuar, no mínimo, 1,3 na escala de segurança. A auditoria apontou que desde setembro de 2018 a barragem do Córrego do Feijão não atingia a meta. Para conseguir a certificação, a empresa teria modificado o método de cálculo da segurança. “Ela estava marcando 1.09, ou seja, abaixo do exigido. Aí eles modificaram o método de cálculo e chegaram a uma meta mínima de 1.05. Como ela estava com uma estabilidade de 1.09 foi liberada a certificação. Eles fizeram um tortura nos números”, denunciou o auditor Marcos Ribeiro Botelho.

Durante a audiência, os parlamentares também denunciaram que funcionários da empresa estariam assediando os gabinetes para saber como estão sendo votados os requerimentos referentes às investigações sobre o crime.

Em Congonhas, moradores podem finalmente ter resposta

Após se negar a acatar a recomendação do MPMG que sugeria a remoção de 2500 moradores, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) solicitou na quarta-feira (27), que as negociações com o órgão fossem retomadas. De acordo com o promotor de Justiça Vinícius Galvão, “a empresa afirmou que fica em aberta a avaliação e possibilidade, ou não, de acordo quanto aos itens constantes na Recomendação, bem como a busca de eventuais outras soluções que se mostrarem pertinentes”, ressalta.

O documento, expedido pelo promotor de justiça Vinícius Alcântara Galvão, recomenda a remoção dos moradores dos bairros Cristo Rei e Residencial Gualter Monteiro. O promotor exige, entre outras ações, o pagamento de aluguel para as famílias, auxílio financeiro e solução, em caráter emergencial, para o fechamento da creche Dom Luciano e da Escola Municipal Conceição Lima Guimarães, que deixaram de atender mais de 200 crianças por causa do risco de rompimento da barragem. Ainda nesta semana, a empresa e o Ministério Público devem se reunir para iniciar as negociações.




Edição: Joana Tavares

Comentários para "Dados apresentados em audiência apontam negligência da Vale sobre risco de rompimento":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório
Estudo liga plano do Brasil para o clima a maior aquecimento

Estudo liga plano do Brasil para o clima a maior aquecimento

Na véspera da COP-26, na Escócia, que começa no dia 31, há uma expectativa sobre o que o Brasil vai apresentar.

Chefe do PNUD elogia esforços da China para proteger biodiversidade, depositando grandes esperanças na COP15

Chefe do PNUD elogia esforços da China para proteger biodiversidade, depositando grandes esperanças na COP15

Foto tirada em 27 de setembro de 2021 mostra uma vista no parque de Jiuzhaigou, no distrito de Jiuzhaigou, Província de Sichuan, sudoeste da China.

Comitê dos Direitos da Criança responsabiliza Brasil, Argentina, França, Alemanha e Turquia por falta de ação climática

Comitê dos Direitos da Criança responsabiliza Brasil, Argentina, França, Alemanha e Turquia por falta de ação climática

Ativista Greta em protesto junto da ONU

Projeto dos EUA para reduzir impacto do desmatamento pode afetar exportações do Brasil?

Projeto dos EUA para reduzir impacto do desmatamento pode afetar exportações do Brasil?

A Sputnik Brasil conversou com dois especialistas sobre o impacto que um novo projeto de lei norte-americano sobre desmatamento ilegal no mundo pode ter para as exportações brasileiras

Amazonas vira epicentro da exploração madeireira da Amazônia

Amazonas vira epicentro da exploração madeireira da Amazônia

O desmatamento em junho deste ano, conforme Imazon, apontam para o terceiro maior índice de destruição da vegetação nos últimos 10 anos.

Ação salva 70 jacarés que disputavam poça no Pantanal

Ação salva 70 jacarés que disputavam poça no Pantanal

Desde o início da intervenção na Ponte 3 da Rodovia Transpantaneira, caminhões-pipa de 16 mil litros fazem a reposição diária da água do corixo para beneficiar a população que permaneceu. Um trabalho de "enxugar gelo", segundo Martins, da Ecotrópica, porque o volume é consumido diariamente pelo uso e evaporação.

Paraíba perdeu 0,28 milhões de hectares de Caatinga nos últimos 36 anos

Paraíba perdeu 0,28 milhões de hectares de Caatinga nos últimos 36 anos

Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e está sendo devastado, segundo Mapbiomas.

Seca histórica no Pantanal provoca maior vazante em 121 anos

Seca histórica no Pantanal provoca maior vazante em 121 anos

Expectativa é que chuva na região seja acima do esperado

Jaques Wagner cobra posição do Brasil para COP-26

Jaques Wagner cobra posição do Brasil para COP-26

O projeto em questão é o PL 528/21, que cria o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) para regular o mercado nacional de carbono

Área ocupada pela agricultura na Caatinga cresce 1456% em 36 anos; pastagens têm salto de 48%

Área ocupada pela agricultura na Caatinga cresce 1456% em 36 anos; pastagens têm salto de 48%

Estudo do MapBiomas mostra que 112 municípios da Caatinga perderam 0,3 milhões de hectares de vegetação nativa em 36 anos

Perfuração foi 'potencial gatilho' de tragédia em Brumadinho, diz relatório

Perfuração foi 'potencial gatilho' de tragédia em Brumadinho, diz relatório

O relatório também deu atenção especial às operações realizadas no ano anterior ao rompimento, que envolveram perfuração horizontal para instalação de drenos e perfuração de furos verticais para instalação de piezômetros, diz o MPF.