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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 20 de agosto de 2022

De olho no longo prazo, ações para a primeira infância ganham força no Brasil

De olho no longo prazo, ações para a primeira infância ganham força no Brasil

Foto: Governo do Ceará

Fase crucial para o desenvolvimento da criança é alvo de projetos e pesquisas por todo o país

Por Ana Estela De Sousa Pinto érica Fraga-uol - 19/05/2019 - 08:56:27

Em meados de 2017, quando Keith Ribeiro foi pela primeira vez à casa de Cassio, então com três anos de idade, o garoto tinha parado de comer, chorava muito e se recusava a ir à escola.


Com deficiência auditiva desde que nasceu, o menino, uma irmã e um irmão adolescentes eram criados só pela mãe, a manicure Lívia.



Quando o irmão, que era sua única referência masculina, foi internado na Fundação Casa, Cassio regrediu psicologicamente.



Keith passou a se reunir com a família toda semana, como visitadora do programa Criança Feliz, no município de Arujá (Grande São Paulo). O foco era fortalecer o vínculo afetivo entre o menino, a mãe e a irmã. As atividades também visavam incentivar a estimulação verbal de Cássio.



“Como ele gostava muito de animais, levava figuras e histórias a partir das quais eles pudessem conversar”, diz Keith.



Hoje, aos cinco anos, Cassio nomeia bichos como “cachorro”, “vaca” e “cavalo” e tenta formar frases. Também pronuncia claramente a palavra “escola”, que voltou a frequentar: ele está no jardim 2.



Lançado em 2016, o programa de visitação domiciliar do governo federal atende, hoje, 600 mil gestantes e crianças, como Cassio, e é considerado um dos maiores nesse estilo no mundo. Mas não é uma iniciativa isolada no Brasil.


À medida em que crescem as evidências da importância dos investimentos na primeira infância, fase que vai de 0 a 6 anos, outros projetos ganham força no país.


Há desde programas locais consolidados, como o Primeira Infância Melhor (PIM, no Rio Grande do Sul), até experimentos, como um que acaba de ser concluído no Ceará, por meio de uma parceria entre o Banco Mundial e o governo estadual.



A Fiesp (Federação da Indústria do Estado de São Paulo) lançou recentemente o Projeto Empresários pela Primeira Infância, em parceria com a Fundação José Luiz Egydio Setúbal.


A iniciativa, que está em fase incipiente, buscará ajudar a mapear a situação das crianças de 0 a 6 anos no Brasil e treinar técnicos para apoiar ações das empresas nessa área.



“Os investimentos na primeira infância são os mais duradouros, trazem ganhos que se estendem pela vida toda”, diz Ely Harasawa, secretária nacional de Promoção do Desenvolvimento Humano do Ministério da Cidadania.



Partindo desse mesmo diagnóstico, a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) —onde Ely trabalhou entre 2010 e 2015— se dedica, há mais de uma década, a desenvolver projetos que aumentem a estimulação adequada das crianças.



Entre as ações que a instituição desenvolve atualmente, está uma pesquisa em Boa Vista (RR) em parceria com a prefeitura e a Fundação da Faculdade de Medicina da USP.


A iniciativa envolve visitas domiciliares e reuniões de grupos nos Cras (Centros de Referência de Assistência Social). Iniciado em 2017, o projeto deve alcançar 9.600 crianças até 2021, quando será feita a avaliação de impacto.


“Inúmeros programas mostram que o olhar para duas gerações, a dos pais e a dos filhos, pode ser muito efetivo para a ruptura dos ciclos de baixo desenvolvimento”, diz Marina Fragata Chicaro, coordenadora de conhecimento aplicado da FMCSV.



As afirmações de Ely e Marina são referendadas, principalmente, pela pesquisa seminal de James Heckman, que já era um economista consagrado —vencedor do Nobel da área em 2000— quando começou a desvendar a ligação entre a primeira infância e a desigualdade social.



O acadêmico traduziu em números o que especialistas em primeira infância já percebiam: o estímulo adequado nos primeiros anos de vida pode alterar o rumo de crianças que, sem essa atenção, estariam destinadas a perpetuar a história de pobreza de suas famílias.



Um dos cálculos de Heckman e seus coautores mostra que cada US$ 1 investido no desenvolvimento infantil gera rendimento anual (descontada a inflação) de 8% a 10% no futuro, contra 5% das aplicações no mercado de capitais.



A medição foi feita a partir da comparação do desempenho de adultos que, quando crianças, participaram de programas de desenvolvimento infantil voltados a famílias pobres com o de outros com características similares que não foram alvos de iniciativas.


Os indivíduos do primeiro grupo tiveram melhores resultados escolares, salários mais altos, menor envolvimento com criminalidade e menor dependência de serviços sociais. Tudo isso entrou na equação do retorno futuro de Heckman.


“Se não houver desenvolvimento cognitivo, nutricional e socioemocional na primeira infância, todo o investimento que se fizer em educação básica terá pouco retorno, pois as crianças já chegam à escola com deficiências importantes”, diz Rita Almeida, economista do Banco Mundial.


Por isso, os projetos de atenção à primeira infância têm buscado fortalecer os vínculos afetivos entre pais e filhos e orientar os responsáveis tanto em questões relacionadas à saúde quanto ao desenvolvimento de forma mais ampla.


“As famílias de renda alta têm acesso à informação e se mobilizam para que seus filhos atinjam seu potencial. É muito mais custoso para as famílias pobres fazerem o mesmo”, diz o economista brasileiro Flávio Cunha, coautor de Heckman em trabalhos pioneiros sobre o tema.



Pesquisador na Universidade Rice, nos Estados Unidos, Cunha acaba de testar na Filadélfia um programa que incentiva pais de baixíssima renda a conversarem mais com os filhos. Estudos anteriores mostram que a linguagem de crianças pobres aos 36 meses equivale à das nascidas em famílias de alta renda aos 24 meses.



“O estímulo à maior interação verbal é menos custoso para essas famílias porque ela é integrada mais facilmente à rotina e é prazerosa”, diz Cunha.



Um primeiro passo do projeto, que durou 13 semanas, foi explicar aos pais como funciona o cérebro infantil, tema sobre o qual há grande desconhecimento.


Pesquisa feita pela FMCSV em 2017 mostrou que, no Brasil, 40% dos pais ignoravam o potencial de desenvolvimento até os seis meses de idade, e a vasta maioria dos participantes não sabia que esse processo tem início já na gestação.



Depois da fase introdutória, em que esses conceitos são apresentados, o experimento de Cunha e seus coautores evoluiu para as visitas já voltadas ao monitoramento da interação verbal dentro das famílias. As palavras trocadas entre os participantes eram mensuradas por um gravador digital acoplado na roupa do principal cuidador.


Ao longo do programa, os responsáveis recebiam dicas dos visitadores sobre como intensificar as conversas com as crianças. O resultado foi um aumento de 52% no número de interações verbais entre pais e filhos. “Os pais passaram a acreditar que as interações são importantes para o desenvolvimento da linguagem da criança”, diz Cunha.



O economista, que participou do projeto patrocinado pelo Banco Mundial no Ceará —cujos resultados estão sendo mensurados—, pretende replicar o experimento da Filadélfia no Brasil.



Outros programas voltados à primeira infância no país também terão seu impacto avaliado, o que ainda é raro no universo de políticas públicas brasileiro.



Um piloto de visitação domiciliar conduzido no bairro do Butantã (zona oeste de São Paulo) com 800 crianças de 9 a 12 anos já foi avaliado e teve resultado positivo.


As famílias de metade das crianças —chamadas de grupo tratamento— receberam visitas quinzenais de 45 minutos para orientação. Os agentes ensinavam os responsáveis a estimular seus filhos por meio de brinquedos feitos a partir de materiais recicláveis do dia a dia.



O desenvolvimento tanto das crianças participantes quanto das pertencentes ao chamado grupo controle —que não recebeu a intervenção— foi acompanhado.


Após um ano, o desenvolvimento das crianças participantes ficou acima do das pertencentes ao grupo que não recebeu a intervenção tanto na pontuação geral quanto em cada um dos itens analisados: desenvolvimento motor, cognitivo e de linguagem.


Resultados precisos ainda serão divulgados. Alexandra Brentani, responsável pelo projeto, acredita que seus efeitos serão duradouros: “A experiência muda a forma como a mãe vê a criação de uma criança”, diz ela, que é do departamento de pediatria da Faculdade de Medicina da USP.



Mas, segundo pesquisadores, será importante nos próximos anos reunir mais evidências do impacto de longo prazo desses programas para que o apoio político, empresarial e das famílias continue aumentando.



O economista do Ipea Rafael Guerreiro Osório, que estuda pobreza e inclusão social, chama a atenção para o fato de que o investimento na primeira infância, “vital para o desenvolvimento do país”, tem resultados de longo prazo. Por isso, afirma, deveria ser aliado a medidas que mitiguem a pobreza das famílias de forma mais imediata.


“É preciso criar empregos para pessoas menos qualificadas, com impacto nos locais em que elas moram, como saneamento e infraestrutura urbana”, afirma.


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