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Defesa de Carlos Ghosn parte para o ataque e diz que Nissan ‘adultera a verdade’

Defesa de Carlos Ghosn parte para o ataque e diz que Nissan ‘adultera a verdade’Foto: O Antagonista

Carlos Ghosn, ex-presidente da Nissan

Estadão Conteúdo - 08/01/2020 - 10:01:29

Poucas horas antes de conceder sua primeira entrevista depois de fugir da Justiça japonesa, Carlos Ghosn , por meio de seu time de defesa, divulgou um comunicado afirmando que a Nissan “adultera a verdade” ao afirmar que realizou uma “robusta e cuidadosa investigação interna” sobre os supostos crimes do ex-chefe da aliança Renault-Nissan.

O comunicado classifica a investigação interna da Nissan com adjetivos como “falha, tendenciosa e desprovida de independência”.

“Na verdade, os fatos demonstram que essa investigação nunca teve o objetivo de revelar a verdade. Foi iniciada e conduzida com o objetivo específico e determinado de derrubar Carlos Ghosn para impedi-lo de ampliar a integração entre a Renault e a Nissan, o que ameaçava a independência da Nissan, uma das mais icônicas e relevantes companhias japonesas.”

O executivo cita que diferentes investigados tiveram tratamentos diversos por parte da investigação. “Hari Nada, que tinha a própria conduta investigada, chefiou a apuração mesmo depois que ele se declarou culpado de acusações criminais”, continua o comunicado dos advogados de Ghosn.

De acordo com o time de defesa do executivo, a investigação interna da Nissan, conduzida com o escritório Latham & Watkins, não foi independente. O comunicado diz que a banca de direito não buscava fatos, uma vez que era justamente a responsável legal pelo caso contra Ghosn.

O comunicado diz ainda que a Nissan nunca tentou conversar com Carlos Ghosn sobre os temas sob investigação – e que até hoje a empresa não compartilhou com o acusado os arquivos ou as evidência relativas à investigação.

As perguntas que a entrevista de Carlos Ghosn pode ajudar a responder

A aguardada entrevista de Carlos Ghosn , ex-todo-poderoso da aliança Renault - Nissan , pode responder várias perguntas sobre o passado e também sobre o futuro do executivo que foi preso no Japão, em novembro de 2018, e deixou o país em uma fuga empreendida em 29 de dezembro do ano passado, bem em meio às comemorações do ano-novo, principal feriado japonês.

A entrevista pode ser a chance de Ghosn explicar como foi sua saída do Japão – embora muitos apostem que ele vá evitar dar detalhes demais sobre o tema. E deve servir de palco para a apresentação de sua defesa. Muitos apostam seu principal alvo será a Nissan. Ele deve acusar ex-colegas de conspiração. Na terça-feira, 7, prevendo um ataque, a montadora divulgou, após muito tempo de silêncio, um comunicado dizendo que ter feito uma investigação criteriosa sobre o executivo.

Ex-titã da indústria automotiva, Carlos Ghosn está mobilizando a imprensa internacional, que está presente em peso em Beirute. Com nacionalidade brasileira (onde nasceu, em Porto Velho), libanesa (onde foi criado pela mãe) e francesa (onde cursou universidade e ganhou notoriedade como executivo), Ghosn conseguiu apoio do governo do Líbano, que garantiu que não vai extraditá-lo para o Japão.

A seguir, alguns dos pontos que podem ser esclarecidos sobre o caso Ghosn x Nissan na entrevista prevista para as 10 horas (no horário de Brasília) desta quarta-feira, 8:

Rota de fuga

Embora já se saiba que Ghosn deixou o Japão por jatos particulares alugados de uma empresa turca, algumas questões levantadas ao longo dos últimos dias seguem sem resposta: ele foi mesmo de trem de Tóquio a Osaka? Como ele passou pelas autoridades aeroportuárias sem ser percebido? Quem o ajudou na fuga?

Direito de defesa

Até agora, Ghosn nunca fez uma ampla defesa sobre as acusações que pesam contra ele . A Nissan chegou a dizer que ele teria escondido US$ 44 milhões de sua renda. O executivo deve dizer que foi alvo de uma conspiração. A entrevista pode ser a chance de ele mostrar documentos e também explicar as razões pelas quais a empresa teria interesse em prejudicá-lo.

Relação com o Líbano

O Líbano é uma pequena economia em crise econômica e que recebeu cerca de 1 milhão de refugiados sírios ao longo dos últimos anos. Com indústria fraca e prejudicada por conflitos iminentes em seu entorno, o país virou o porto seguro do executivo. Em alguns programas de TV libaneses, políticos chegaram a sugerir que Ghosn pode ser um bom consultor para o Estado libanês ou até, no futuro, exercer um cargo no governo.

Sistema judiciário japonês

Contando as duas vezes em que foi preso, Carlos Ghosn ficou durante quatro meses em um centro de detenção japonês. Ele poderá detalhar mais esse período e sobre as táticas da Justiça do país para extrair confissões de seus acusados. No Japão, a taxa de condenação do judiciário chega a 99%. Ghosn já apontou, em comunicado, ter fugido de um sistema injusto, no qual ele acredita que não teria direito a um processo de julgamento justo.

Busca por um desfecho

Com o processo no Japão interrompido pela fuga do executivo, uma das opções seria transferir o processo de Ghosn para o Líbano – possibilidade que já foi aventada pelo ministro da Justiça libanês, Albert Serhan. Ele disse que, em respeito ao governo japonês, essa seria uma alternativa à extradição do executivo, uma vez que as duas nações não têm um acordo nesse sentido.

Rumos para a carreira

Apesar de ter 65 anos, muita gente aposta que a carreira de Carlos Ghosn não está totalmente encerrada. O executivo, que ajudou a montar a aliança Renault-Nissan ainda no fim dos anos 1990, e trouxe a Mitsubishi mais recentemente para o grupo, ainda poderia buscar outras metas profissionais? Se tiver de ficar no Líbano por um longo período, suas ambições caberiam em uma economia de recursos limitados?

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