×
ContextoExato

Disputa política sobre cloroquina traz insegurança, diz médica de coalizão

Disputa política sobre cloroquina traz insegurança, diz médica de coalizãoFoto: Arquivo Pessoal

A médica intensivista Flávia Ribeiro Machado

Janaina Garcia Colaboração Para Universa - 19/04/2020 - 06:38:35

Faz pelo menos um mês que a médica intensivista Flávia Ribeiro Machado, 53, sai de casa às 7h e chega já por volta das 21h, inclusive aos finais de semana. Foram apenas dois dias de exceção à regra, na semana passada, quando viajou a Belo Horizonte, sua terra natal, para se despedir do pai, o médico, professor e escritor Ângelo Machado, 85, vítima de uma parada cardíaca.

Com uma carreira dedicada há três décadas unicamente ao sistema público de saúde, a médica preside a BricNet (Brazilian Research in Intensive Care Network), uma rede brasileira independente e colaborativa que realiza estudos clínicos na área de medicina intensiva e que, também há cerca de um mês, integra a parceria entre seis grandes hospitais públicos e privados de São Paulo com o Ministério da Saúde pela busca de uma medicação de combate à Covid-19.

Relacionadas

Engravidar agora? O que dizem médicos sobre tentar ser mãe durante pandemia

Agente funerária conta rotina com a Covid-19: "Mais medo dos vivos"

Brasileira doa mousse e café a hospitais em NY: "Respiro no meio da tensão"

A iniciativa, batizada de Coalizão Covid Brasil e que já agrega entre 40 e 60 hospitais pelo país, desenvolve pesquisas para avaliar a eficácia e segurança de medicamentos como a hidroxicloroquina, hoje no centro de uma polarização política entre quem defende o isolamento social -como o agora ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta -e quem defende a retomada das atividades econômicas - como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A médica é professora da Escola Paulista de Medicina, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), e chefe do setor de terapia intensiva do Hospital São Paulo, ligado à instituição. No comando de uma "equipe coesa e muito afinada", ela afirma que o impasse que durou semanas entre o presidente e Mandetta, substituído na quinta pelo oncologista Nelson Teich, atrapalha médicos e pesquisadores que estão na linha de frente do combate ao coronavírus.

"É ruim e lamentável que nosso governo não consiga trabalhar em time, e como um time alinhado, da mesma forma com que nós estamos motivados. Isso traz insegurança para nós, médicos e pesquisadores. Lembrando que a pesquisa tem que ser protegida de qualquer dissabor político", diz Flávia.

Ainda assim, a avaliação sobre o agora ex-titular da saúde e a expectativa sobre Teich são positivas: "O ministro Mandetta tinha uma postura muito adequada em relação às pesquisas necessárias para avaliar terapias para Covid. O novo ministro parece bastante alinhado com essa postura. Então, acho que não mudam os rumos, já que ele [Teich] já disse ser a favor da ciência", afirma.

Confira, a seguir, trechos da entrevista da médica para Universa.

*
Universa - Como integrante da Coalizão Covid Brasil, que avaliação a senhora faz sobre a diversidade de opiniões divulgadas sobre a cloroquina em meio à pandemia? Isso afeta a tranquilidade das equipes?

Flávia Ribeiro Machado - Minha ligação com esses estudos é de natureza científica, na condição de presidente do comitê científico BricNet, uma rede brasileira de pesquisa em terapia intensiva. Nosso grupo desenvolve estudos clínicos de alta qualidade e entrou nessa coalizão de instituições por conta de pesquisas nossas sobre a área de cardiologia. Os estudos da coalizão estão voltados a avaliar terapias para o tratamento da Covid; temos sete estudos planejados e alguns em andamento, todos, aprovados pela comissão nacional de pesquisa e com o apoio do Ministério da Saúde, embora não diretamente ligados ao ministério.

Três estudos que estão em andamento investigam o uso de hidroxicloroquina e azitromicina - tanto em pacientes menos graves quanto nos menos graves que precisam de UTIs. Há também estudos sobre o uso de corticoides em pacientes com a síndrome de desconforto respiratório agudo, ou insuficiência respiratória grave.

É uma pena que as manifestações sobre a cloroquina sem que os estudos sobre ela tenham sido concluídos afetem o rigor científico exigido, que tem se perdido muito. Vemos pela imprensa profissionais da saúde anunciando um suposto sucesso em suas terapias com o medicamento, ao passo que nós que estamos envolvidos em pesquisa de alta qualidade sobre isso temos muita clareza de que esses estudos são insuficientes, até o momento, para apontar eficácia ou toxicidade da substância.

A hidroxicloroquina e a azitromicina não são drogas inócuas: elas têm seu risco e podem influir em arritmia grave e parada cardíaca. A administração dessas drogas fora do âmbito de pesquisa clínica é inadequado.

O ideal é que possamos dar uma resposta o mais rápido possível, mas adequada do ponto de vista científico, que abrange tanto eficácia quanto segurança.

Na quinta, o governo Bolsonaro anunciou a demissão de Mandetta e a escolha do oncologista Nelson Teich para o comando da Saúde. Essa troca muda algo nos rumos da Coalizão Covid Brasil?

O ministro Mandetta tinha uma postura muito adequada em relação às pesquisas necessárias para avaliar terapias para Covid. O novo ministro parece bastante alinhado com essa postura. Então, acho que não mudam os rumos, já que ele [Teich] já disse ser a favor da ciência.

Qual o sentimento ao ver defesas apaixonadas pela cloroquina mesmo carecendo de confirmações científicas?

A gente compreende a comoção entre leigos ao ver gente da saúde e políticos fazendo isso - todos queremos uma droga que possa nos ajudar. Somos os mais interessados em ter terapias que nos ajudem a salvar vidas, estamos na frente de batalha. Mas o tratamento inadequado que se tem dado a isso, por alguns, expondo isso na mídia, compromete e atrapalha a pesquisa. De repente, passamos a ter pacientes e familiares nos cobrando por algo que ainda não é cientificamente comprovado e seguro.

Há familiares de pacientes contaminados por coronavírus que pedem o uso da cloroquina?

Com certeza, e sofremos muita pressão - e não só de leigos, familiares ou não, mas de outros profissionais da saúde que se deixam levar por soluções milagrosas e inadequadas. Esta semana, o coordenador dos trabalhos de combate à Covid no estado de São Paulo, o médico David Uip, revelou um cenário em que vários hospitais de grande porte na capital paulista estão com mais de 70% de ocupação em leitos de UTI. O cenário que se coloca às UTIs em um país como o Brasil, carente de investimentos em saúde pública e com isolamento social, nesse cenário, chega a ser assustador.

É possível reverter esse tipo de prognóstico?

A impressão é que as medidas de quarentena já têm feito com que não haja uma explosão de casos, como vimos na Itália e em Nova York. Ou seja, o sistema de saúde ainda está conseguindo suportar aqui porque existem a quarentena e as regras de isolamento. Trabalho unicamente no serviço público de saúde, não tenho ligação com o privado, e nossa grande preocupação tem sido a de atender pacientes que precisam de nós. O segredo é eles chegarem devagar.

Hoje [quarta, dia 15], com quatro semanas da pandemia no Brasil, a UTI concentra o grande problema, porque essa é uma doença com duração muito prolongada. Quem vem para a UTI fica de duas a três semanas. Isso eleva em muito a taxa de ocupação da UTI, e o fato de conseguirmos conter a explosão de novas internações ajuda muito.

Estamos dando alta a pacientes que sobreviveram e melhoraram depois dessas semanas todas - com alta, tenho espaço para novos pacientes. Por isso a quarentena vale tanto: porque as UTIs entraram na fase de dar alta, mas também de receber novos pacientes. É isso que permite esse espírito de não se solapar o sistema de saúde público.

Vários colegas seus, intensivistas em diferentes hospitais, têm alertado para o risco de se precisar de UTI, uma vez que a letalidade é alta.

O grande problema dessas taxas de letalidade é que o critério de internação é muito diferente de uma rede para a outra: se você pega os hospitais privados, eles internam na UTI pacientes de baixa gravidade que, nos hospitais públicos, ficariam em enfermarias. Não que na rede privada não haja pacientes graves: tem, mas em menor gravidade em proporção que na rede pública.

Consequentemente, quem interna pacientes menos graves terá uma taxa de letalidade menor - e o inverso vale para quem interna pacientes mais graves, caso dos hospitais públicos. Quem diz isso, em geral, se refere à sua população de pacientes e à sua UTI. Pode-se chegar a uma letalidade de 50% ou de 15%, ou até menos. Esse é um dado que confunde a população. E claro, UTIs melhor estruturadas terão uma letalidade menor.

Como tem sido o dia a dia e até o aspecto emocional das equipes intensivistas?

Acho que muito melhor que no começo, quando estávamos todos assustados. O receio fazia parte da nossa vivência, mas, nesse caso, era sobretudo quanto ao risco de se levar a doença para dentro de nossas casas, para nossas famílias.

Por isso que a grande preocupação nossa, gestores de UTIs, tem sido a de garantir fornecimento de EPIs [equipamentos de proteção individual] de qualidade, especialmente agora, com a falta desses materiais em tantos hospitais. Fora isso, é trabalhar em time, motivar. No nosso caso, no Hospital São Paulo, temos uma equipe muito coesa e muito afinada, mas também, se sentindo protegida.

Uma das coisas que mais sentimos é o afastamento de nossas famílias. Muitos têm ficado muito além do horário, e claro que isso afeta o contato com família. Há uma perda pessoal nessa vivência, sob o ponto de vista pessoal.

Há dificuldades com fornecedores de suprimentos, mas, por outro lado, temos visto muitas doações. De que tipo?

De todo tipo. É interessante perceber isso agora: o quanto que as pessoas parecem ter se ligado, se conectado mais aos problemas da saúde pública. Temos tido várias ações de filantropia, de cidadãos que vêm ao hospital doar saquinhos com duas, três máscaras, até doações de milhares de reais, seja de grupos que se organizaram ou das mais simples manifestações de desapego. Isso é muito positivo.

Eu nunca tinha visto algo parecido [de filantropia] nessas décadas todas de trabalho.

Como vocês, que lidam tão intimamente com vida e morte, e sentem ao ver, pessoas irem às ruas pedindo para acabar com o isolamento?

Esperamos que as pessoas reavaliem sua posição. Elas precisam compreender que na cidade de São Paulo e em muitas outras, nossa única solução é manter a quarentena. Talvez isso não possa se aplicar a toda e qualquer cidade. Mas nas cidades em que há casos de Covid, é preciso frear a circulação de pessoas, não existe regra mágica. Compreendemos essa preocupação, sobretudo, com a sobrevivência financeira das pessoas.

Mas é importante sempre lembrar: sem vida não há o que fazer com o dinheiro. E a prioridade agora é salvar vidas.

Durante as últimas semanas, houve uma espécie de disputa política por narrativas, entre saúde versus economia. Esse tipo de situação afeta o projeto do qual a senhora faz parte?

É ruim e lamentável que nosso governo não consiga trabalhar em time, e como um time alinhado, da mesma forma com que nós estamos motivados. Isso traz insegurança para nós, médicos e pesquisadores. Lembrando que a pesquisa tem que ser protegida de qualquer dissabor político. Mas nem sempre há essa preocupação por parte de governantes, infelizmente.

Como tem sido a sua rotina nesse último mês?

Tenho 53 anos, sou casada e tenho dois filhos: Lucas, de 19, e Ana, de 17 anos. Acho que temos conseguido, em casa, compreender a importância de eu sair 7h e chegar, todos os dias, até aos fins de semana, 20h30, 21h. É a maior parte do tempo lidando com UTI. Consegui parar apenas dois dias, na semana passada, porque perdi meu pai e viajei a Belo Horizonte, onde ele vivia e era escritor, ambientalista, médico e professor emérito da UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais]. Ele foi um exemplo para mim. Ele e minha mãe. E isso também acaba me dando forças, todos os dias.

Comentários para "Disputa política sobre cloroquina traz insegurança, diz médica de coalizão":

Deixe aqui seu comentário

Preencha os campos abaixo:
obrigatório
obrigatório