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É falso que termômetros infravermelhos causem danos à glândula pineal

É falso que termômetros infravermelhos causem danos à glândula pinealFoto: Reprodução

Aparelhos têm a função de medir comprimento de ondas infravermelhas naturais que o corpo emite e não apresentam riscos ao cérebro

Talo Rômany - Agência Lupa/yahoo - 17/08/2020 - 20:07:02

Circula nas redes sociais um post que afirma que os termômetros infravermelhos, usados para medir a temperatura das pessoas como forma de prevenção à Covid-19, causaria danos à glândula pineal. Por meio do ​ projeto de verificação de notícias ​, usuários do Facebook solicitaram que esse material fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa :

“Disse ao funcionário que um termômetro infravermelho nunca deve ser apontado para a testa de alguém, especialmente de bebês e crianças pequenas. […] Como profissional da área médica, recuso-me a visar diretamente a glândula pineal, que está localizada diretamente no centro da testa, com um raio infravermelho. No entanto, a maioria das pessoas concorda em passar por isso várias vezes ao dia! Nossas glândulas pineais devem ser protegidas, pois é crucial para nossa saúde agora e no futuro”
Imagem publicada no Facebook que, até as 14h do dia 14 de agosto de 2020, tinha sido compartilhada por mais de 350 pessoas

É falso que termômetros infravermelhos causem danos à glândula pineal - Foto: Reprodução

FALSO

A informação analisada pela Lupa é falsa. Especialistas escutados pela reportagem afirmam que não há qualquer possibilidade ou evidência científica de que o termômetro infravermelho corporal cause algum dano à glândula pineal.

O neurocirurgião Paulo Honda, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), disse que a aferição feita pelo termômetro infravermelho é de superfície, incapaz de atingir qualquer parte do sistema nervoso central. Ao ser questionado se esses aparelhos podem emitir alguma radiação que provoque danos cerebrais, afirmou que não. “A luz emitida pelos termômetros digitais é a ultravioleta, diferente de substâncias radioativas e incapaz de causar dano cerebral”, respondeu.

O neurorradiologista Leonardo Macedo, secretário executivo da Sociedade Brasileira de Neurorradiologia (SBNR), também afirmou à reportagem que não há evidências científicas de que o termômetro infravermelho cause danos cerebrais.

Diversas plataformas de checagens de fatos pelo mundo verificaram o mesmo conteúdo. À AP News, o Dr. Haris Sair, diretor de neurorradiologia da Johns Hopkins University, diz que os termômetros infravermelhos são projetados para medir o comprimento de ondas infravermelhas naturais que o corpo emite. Ou seja, os termômetros não enviam luz infravermelha para o corpo. Além disso, o especialista explica que a testa também não está particularmente perto da glândula pineal, que está localizada nas profundezas do cérebro.

Mireille Rossel, professora e pesquisadora em neurociências da Pratique des Hautes Études (EPHE), disse à agência AFP que não há qualquer possibilidade de o termômetro infravermelho causar algum dano à glândula pineal. “Seria preciso cruzar completamente a caixa craniana para chegar a essa pequena glândula que fica na parte inferior do cérebro”, diz.

O termômetro infravermelho corporal também foi peça de desinformação em países como México e Chile como causador de danos aos neurônios e à retina. Todas as publicações foram desmentidas.

Termômetro infravermelho

O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) publicou em maio um guia sobre o uso de termômetros infravermelho. Segundo o documento, os aparelhos clínicos medem a energia irradiada pelo paciente, que é então convertida em um valor de temperatura. Ou seja, os aparelhos têm a função de detectar a radiação emitida pelo corpo. Nesse tipo de medição não há contato direto com a pessoa, “o que torna um método mais seguro”, diz o Inmetro, pois diminui uma possível contaminação cruzada entre pacientes. Se a temperatura estiver acima do normal, soa um bipe diferente. Segundo a doutora em enfermagem pela UFRJ Tânia Vignuda, para ser considerada um sinal de Covid-19, a temperatura corporal deve ser maior que 37,7ºC.

O Inmetro informa ainda que a precisão da verificação da temperatura depende do local de medição. “Na testa temos uma indicação de temperatura um pouco maior comparada à superfície exposta do braço ou da perna, em torno de 0,8 ºC. Por essa razão, o usuário somente deverá medir no local indicado pelo fabricante”, diz o instituto. O neurocirurgião Paulo Honda afirmou que, como a aferição é de superfície e deve obedecer uma certa distância, a testa é mais adequada do que outras partes do corpo, por estar descoberta e facilitar a aferição perpendicular ao raio emitido pelo termômetro.

A Food and Drug Administration (FDA), órgão regulador de medicamentos nos Estados Unidos, indica o uso do termômetro infravermelho corporal para reduzir o risco de contaminação cruzada e minimizar a propagação do vírus. O texto não menciona que o aparelho pode provocar riscos ou danos cerebrais.

Em nota, o Inmetro informou ainda que os termômetros infravermelhos são regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A reportagem consultou diversos manuais de fabricantes desses aparelhos ( aqui, aqui e aqui ). Os documentos explicam como funciona a medição da temperatura corporal, a distância a ser tomada na hora da medição e os cuidados com os aparelhos. Não há indicações de que esses termômetros causem danos cerebrais.

Glândula pineal

A glândula pineal é responsável por produzir a melatonina, hormônio que regula o ciclo circadiano, mais conhecido como “relógio biológico” – quando é necessário dormir e acordar. Especula-se a possibilidade de existência de outras funções, mas não há consenso científico sobre elas. Conhecida como “terceiro olho”, o interesse pela glândula é antigo. O filósofo francês René Descartes (1596-1650), por exemplo, acreditava que essa estrutura era a “sede da alma”.

Essa mesma checagem foi verificada pelo Aos Fatos.

Nota:‌ ‌esta‌ ‌reportagem‌ ‌faz‌ ‌parte‌ ‌do‌ ‌‌ projeto‌ ‌de‌ ‌verificação‌ ‌de‌ ‌notícias‌‌ ‌no‌ ‌Facebook.‌ ‌Dúvidas‌ sobre‌ ‌o‌ ‌projeto?‌ ‌Entre‌ ‌em‌ ‌contato‌ ‌direto‌ ‌com‌ ‌o‌ ‌‌ Facebook‌ .

Editado por: Chico Marés

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