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Ela descreveu em um caderno as agressões que sofreu do ex-marido por dois anos. Até ser morta por ele

Ela descreveu em um caderno as agressões que sofreu do ex-marido por dois anos. Até ser morta por eleFoto: Portal Universa

Diário de um Feminicídio

Camila Brandalise-portal Universa - 20/12/2019 - 19:07:55

— Mãe, a senhora não tem medo que ele te envenene ou te mate?

— Tenho. Se acontecer alguma coisa comigo, tem um diário em que anoto tudo. Procure esse caderno.

A conversa de dois anos antes ecoou na memória de Raquel Arnold ao ver o corpo da mãe, no chão, na tarde de 20 de setembro. Elisete Menin Arnold, 58, foi morta à queima-roupa pelo ex-marido com dois tiros, no rosto e no pescoço, na frente da casa de sua outra filha, Emelyn, em Curitiba.

Foi quando Raquel disse à irmã: "Precisamos encontrar esse diário".

Entrou na casa, de onde Elisete havia acabado de sair após uma visita a Emelyn, e foi até o quarto. Olhou em volta. Abriu o guarda-roupa. Lá estava, em uma prateleira. Enquanto folheava o caderno, as agressões saltavam das páginas.

"Deu dois socos na minha cabeça."

"Cuspiu na minha cara."

"Está me matando aos poucos de tanta humilhação."

"Preciso de ajuda, vou enlouquecer."

O diário foi escrito entre 2017 e 2019. Até então, Elisete mantinha o caderno escondido, para que o ex-companheiro, José Francisco Ferreira da Silva, hoje preso preventivamente pelo crime, não o encontrasse. "Parecia que ela sabia o que ia acontecer", diz Raquel.

Elisete tinha olhos verdes, dois empregos, três filhos e cinco netos. Esta é a sua história.

Um homem que a fizesse feliz

Elisete se separou do pai de seus três filhos em 2009. Não era uma mulher feliz. O primeiro marido era alcoólatra. Depois da separação, com os filhos já grandes, decidiu voltar a estudar. Fez um curso técnico de enfermagem e começou a trabalhar como agente comunitária de saúde. Dizia para as filhas e para amigas: "Quero um companheiro que me faça feliz. Vou achar alguém".

Conheceu o homem que a mataria no site de relacionamentos Badooo, em 2015. Nas primeiras conversas, ele mostrava ser o companheiro que ela desejava: carinhoso, gentil, atencioso. Morava no litoral paranaense, na cidade de Morretes, e, um dia, foi até a capital conhecê-la. Entrosados, logo decidiram morar juntos na casa dela.

Aos poucos, conta Raquel, 34, professora do ensino fundamental, a mãe foi se afastando da animada vida social que levava até então. "Ela tinha muitas amizades no bairro, no trabalho, na igreja. Ele foi tirando ela da gente, proibiu de ir à casa dos amigos, de vir à minha casa, fez ela desativar as redes sociais e trocar o número do celular."

O smartphone era motivo de briga constante, como Elisete relatou em uma página do diário, no dia 7 de março. "Aconteceu outra briga sem sentido por causa do celular. Não posso pegar [o telefone] porque já desconfia, se pegar tenho que ver na frente [dele]. Já começou a me falar todas aquelas coisas", escreveu.

A filha percebia que havia algo errado quando via a mãe andando na rua de cabeça baixa. Tinha medo de cruzar olhares com alguém, o marido ficar sabendo e brigar com ela por ciúme. As visitas aos filhos ficaram esparsas, passavam meses sem se falar. "Ela virou uma pessoa triste."

Isolada da família

Depois de um ano e meio de relacionamento, em 2017, Elisete começou a se abrir para Raquel. Contou que o companheiro era muito ciumento, que não permitia que ela fosse à casa de ninguém sozinha e que sentia falta da vida que levava antes de conhecê-lo.

No diário, relatava a violência psicológica que sofria na época e as sequências de ofensas que costumava ouvir:

"Olha só o que diz. Que sou sem bunda, barriguda, desgraçada, vagabunda, podre, verme, prostituta nata, que só fico olhando pra macho".

"Nem eu me entendo. Como posso amar uma pessoa que me maltrata tanto? Diz que me ama, mas quando está bem. Quando entra em crise, diz que sou a pior mulher do mundo. [Sou a pessoa] que tanto te ajudou e te amou de verdade mesmo escutando tudo isso".

As filhas questionavam a mãe sobre sua mudança de comportamento e sugeriam que rompesse com o marido. O filho mais velho, Rafael, 36, passou um tempo sem falar com Elisete no começo do relacionamento dela. "Francisco não deixava ela ir à nossa casa, visitar meus filhos. Quando eu reclamava, ela o defendia. Fiquei magoado e nos afastamos", diz Rafael. As duas mais novas continuavam tentando convencê-la da separação.

A pressão pareceu ter sido o estopim para que o casal se afastasse ainda mais dos parentes. "Hoje, lendo notícias de casos parecidos, vejo que os homens agem da mesma maneira: uma das primeiras coisas que fazem é isolar a mulher da família", diz Rafael.

Francisco convenceu Elisete a morar "no meio do mato", conta Raquel. Viraram caseiros de uma chácara na região metropolitana de Curitiba. "Foi quando ele começou a agredi-la mais ainda. Ninguém via o que acontecia. Ela aparecia na minha casa com roxos no braço e machucados no rosto."

A filha perguntava o que estava acontecendo. A mãe respondia que bateu na porta, ou desconversava, dizendo que não sabia por que estava com aquelas marcas. Na época, Elisete começou a trabalhar como cuidadora de idosos. Fazia plantão na casa dos pacientes e ficava acordada enquanto eles dormiam. Nas noites de vigília, começou a relatar no diário o que sentia e sofria durante o dia.

Escrevia o que só revelou para a filha meses depois. "Tenho medo de você [...] Me bateu várias vezes e disse que não lembra, mas não precisa, Deus sabe disso. [...] Eu aguentei tudo calada, orando, entregando a Deus."

Querido diário, esta é a minha dor

Nas palavras de desabafo de Elisete, há tristeza, desespero, confusão. E pensamentos suicidas. "Não mereço isso. Já pensei até em acabar com minha vida."

Há também um comportamento comum às vítimas de violência doméstica: a dúvida e a esperança de que o agressor volte a ser o homem bom e atencioso do começo da relação.

"Meu amor, acredito no milagre. Você vai mudar", rabiscou, como se conversasse com o então marido. "Apesar de tudo, ainda amo você, José Francisco. Você me trata mal."

"Não consigo entender como pode uma pessoa que um dia diz 'Eu te amo' e depois chama de vagabunda", escreve em determinado momento. E vai deixando mais evidente seu cansaço emocional.

"Minhas forças estão se acabando. Meu Deus, o que fiz de tão errado pra merecer tudo o que estou passando? Só quero ser feliz. Sei que errei muito em deixar ele falar tantas coisas, fiquei calada sem ação, muitas vezes de medo, não gosto de violência."

Com o avançar das páginas, se mostra decidida a colocar um fim no relacionamento. "Chega, Francisco, chegou a hora, ninguém aguentaria o que aguentei de você, tudo por amor. Vou sofrer [com o fim], mas vou superar."

E depois questiona a si mesma por continuar. "Quantas vezes falei que era o fim e ainda estou aqui. Até quando?"

Até o dia em que ele tentou matá-la.

Morta com medida protetiva

Em um domingo de dezembro de 2018, Francisco tentou matar Elisete porque ela tinha ido trabalhar. O diário guarda detalhes da cena. "Quis me bater com um pedaço de pau. Se eu não me afastasse, teria rachado a minha cabeça. Só porque fui trabalhar e você não queria, por ciúme."

Foi até a casa da filha para contar o que aconteceu. Raquel, então, ligou para o irmão mais velho, que orientou que as duas fossem à delegacia da mulher.

"Ficamos a tarde inteira lá. Ela fez boletim de ocorrência, falou das ameaças. Contou que ele já tinha batido nela outras vezes, além das agressões psicológicas. Mas falaram que não dava para ter medida protetiva. Só a palavra dela não era suficiente, precisava de prova."

Elisete voltou para casa sem medida protetiva. "Agora tenho que ficar bem quieta e arrumar uma prova. Vou esperar ele me bater ou gravar um áudio", disse à filha.

A prova viria em agosto de 2019. Elisete chegou na casa de Raquel com o documento da medida protetiva em mãos. "Eles brigaram, e ele mandou um monte de ameaças por áudio pra ela", relembra Raquel. No dia seguinte, a polícia retirou Francisco da casa em que viviam —paga em 24 parcelas, 17 delas por Elisete, segundo o filho, Rafael.

Ela ainda permitiu que ele dormisse na loja de consertos de eletrodomésticos que havia construído para o marido, em frente à casa em que morava a filha Emelyn. Após a separação, Francisco exigia que Elisete lhe desse dinheiro e a casa em que viviam. Mas ela não abria mão: o imóvel era fruto do trabalho dela, que chegava a passar 40 horas sem dormir emendando plantões para conseguir pagá-lo.

Elisete fez um empréstimo para dar R$ 7.000 ao ex-marido. Ele não aceitava, achava pouco. Queria a casa. Durante uma semana, falou para os vizinhos do bairro que iria matá-la. Em um áudio enviado a uma amiga por Whatsapp, ela conta que ficou sabendo das ameaças indiretas do ex. "Ele disse que vai me dar um tiro na cabeça e depois me matar."

Mas Elisete queria ficar livre da perseguição do ex. Se separar dele, voltar a conviver com os amigos e a família, deixar aquela história para trás. Decidiu insistir com Francisco para que ele pegasse o dinheiro. Chegou a fazer um recibo para que ele assinasse, atestando que havia recebido o valor.

No dia em que morreu, fez seu primeiro turno de trabalho como agente de saúde. Por volta das 17h, foi até a casa de Emelyn para comer, tomar banho e, depois, seguir para o segundo trabalho, como cuidadora de idosos, na casa de um paciente. Foi conversar com Francisco mais uma vez.

Vizinhos relataram uma discussão inflamada entre os dois. Ele dizia: "Eu quero a casa". Elisete respondeu: "Não vou te dar nem morta".

Ele, então, apontou a arma. O primeiro tiro passou raspando pelos óculos. Emelyn, a mais nova dos três, com 21 anos, saiu para ver o que acontecia. "Volta para dentro de casa", gritou a vítima para a filha.

Elisete saiu correndo para o outro lado da rua. Ele foi atrás.

Uma vizinha gritou: "Não faz isso, Francisco". O homem puxou a blusa de Elisete. Quando ela se voltou para ele, mais dois tiros. O ataque foi fatal. "Quando cheguei lá, três minutos depois, ela estava caída. O papel que ela queria que ele assinasse estava no chão", relembra Raquel.

Francisco fugiu de moto, passou 20 dias foragido e se entregou no dia 10 de outubro. Está preso preventivamente, sem advogado e aguardando a nomeação de um defensor público. A pena por feminicídio vai de 12 a 30 anos. Mas, como o crime foi praticado em descumprimento à medida protetiva e na frente de uma das filhas da vítima, a pena pode aumentar de um terço a até a metade da pena inicial que ele receber, como explica a advogada da família de Elisete, Thayse Pozzobon. "Com base em casos similares, a pena pode ser de 23 a 24 anos", estima.

Ver a mãe morrer na sua frente fez Emelyn ficar em estado de choque por semanas. "Eu conversava, e ela não respondia. Ficava encarando o nada", conta a advogada.

O trecho que fez a filha chorar

Raquel aceitou contar a história e abrir as páginas do diário da mãe para Universa na tentativa de fazer com que outras mulheres que enfrentam uma situação de violência doméstica percebam o perigo que correm antes de terem um desfecho como o de Elisete.

"Quanto mais cedo conseguir se livrar, melhor. Não espere chegar o estopim. Não espere ele te bater para pedir a medida protetiva. Se faltou com respeito, xingou, já tem que dar um basta", diz. "Começou com ofensa, ciúme, possessividade, a mulher não pode aceitar. Tem que ter liberdade, o marido não é dono de ninguém."

Há trechos do diário que comovem especialmente Raquel: as partes finais, em que a mãe, já decidida pelo fim do relacionamento, mostrava o desejo genuíno de retomar o contato com a família.

"Amo demais meus filhos. Tenho muita saudade dos meus netos."

"Já estou pagando por abandonar meus filhos pra ficar perto de você."

"Larguei, abandonei minha família por tua causa, mas me arrependo de tudo, acho que já paguei por isso."

"Vou mudar de vida, viver com minha família, [já] perdi tempo demais."

"A gente estava tentando recuperar os laços", diz Raquel. Após uma pausa de alguns segundos, retoma a conversa com a voz embargada: "Não deu tempo".

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