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Brasil - Brasília - Distrito Federal - 12 de agosto de 2022

Em Brasília. A história das três Marias

Em Brasília. A história das três Marias

Foto: Correio Braziliense

Maria de Souza (E), Maria de Lourdes (C) e Maria de Jesus

Por Darcianne Diogo*-correio Braziliense - 31/05/2019 - 06:58:59

Curso de viveiricultora em São Sebastião capacita mulheres em situação de vulnerabilidade e oferece a elas a possibilidade de gerar renda.


A emancipação da mulher é um caminho sem volta. Da tecnologia à agricultura, elas ganham cada vez mais espaço pela competência e criatividade. É assim a história de três Marias, que encontraram na agricultura motivação para vencer na vida com dignidade e trabalho. Maria de Souza, Maria de Lourdes Carvalho e Maria de Jesus iniciaram o curso de plantação viveiricultora (um “berçário de plantas”) no começo do ano. Elas estão aprendendo a trabalhar na produção de mudas, com plantas medicinais e do cerrado, além de desenvolverem conceitos sobre como preparar um arranjo, o custo e a venda dos produtos.


A ideia do curso partiu de Robson Caldeira, diretor-geral do câmpus de São Sebastião, do Instituto Federal de Brasília (IFB). O projeto destinado a mulheres em situação de vulnerabilidade social surgiu em 2018. “Temos muitos casos de mulheres que enfrentam violência doméstica ou de baixa renda. O nosso objetivo é formá-las para ter a oportunidade de serem incluídas social e economicamente”, explica.


As aulas ocorrem nas manhãs de segunda, quarta e sexta-feiras, no próprio câmpus. O trabalho desenvolvido pelas 30 mulheres é surpreendente. Elas criaram um viveiro com 3 mil plantações variadas: cominho, pitanga, açaí, graviola, jatobá, cagaita, cajuzinho do cerrado e até ipê-rosa. Durante seis meses, as alunas são ensinadas e capacitadas a desenvolver trabalhos nas plantações. “Nosso foco não é produção, mas sim despertá-las para o empreendedorismo e servir como uma rede de proteção”, destaca Caldeira. Novas turmas abrem todo o semestre (confira quadro).


A três Marias não perdem as aulas por nada. Estão sempre lá, juntinhas, com os olhares atentos e dispostas a colocar a mão na massa. A dona de casa Maria de Souza, 50 anos, nasceu e cresceu na roça, no município de Caxias, no interior do Maranhão. Há 25 anos, ela veio para Brasília na tentativa de uma vida melhor e, desde então, se identificou com as plantas. “O meu forte é mexer com terra, meter a mão na massa”, disse.


Ela, o marido e os dois filhos, de 18 e 13 anos, moram no Assentamento Pinheiral, em São Sebastião. No quintal de casa, várias plantações. Maria também fez o curso Mulheres no Campo, oferecido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), mas decidiu também se inscrever no de viveiricultura, do IFB. “Para mim, foi um conhecimento a mais, porque as pessoas têm a ideia de que quando capina alguma coisa, o certo é tacar fogo, mas não. Aqui, eu aprendi a fazer a compostagem”, relata.


O gosto de mexer com as plantas refletiu até na família. “Todos os dias, quando chego em casa, eu falo: ‘Como estão? E meus filhos me perguntam com quem estou falando, e eu digo ‘com minhas vidas’, são minhas plantas”, brinca.


A irmã de Maria de Souza faz parte do grupo das Marias. Maria de Jesus, 42, também é uma das alunas do curso e veio com a irmã para Brasília. Desempregada, ela faz bicos de segurança em eventos, mas pensa alto quanto ao futuro. As aulas de viveiricultura são novidades para ela. “Lá no Maranhão, as pessoas não têm cuidado e não se interessam pelo meio ambiente”, ressalta. Com data marcada para o casamento no fim do ano, Maria de Jesus pretende voltar para a terra natal e passar o conhecimento do que aprendeu para a população. “Meu sonho é ensinar as pessoas de lá, porque não adianta sabermos de um assunto e não deixar o legado. Além disso, quero vender minhas plantas lá e montar meu próprio negócio”, afirma.


Mas há quem tenha feito do conhecimento um negócio empreendedor. É o caso da aposentada Maria de Lourdes Carvalho, 64. Depois de trabalhar durante 12 anos como servente na construção civil, ela decidiu se dedicar às plantas. “Eu fazia rejunte de cimento. Era uma profissão pesada, mas me divertia.” Devido a uma doença da mãe, teve de sair do trabalho. “Infelizmente, minha mãe acabou falecendo e me aposentei. Foi quando decidi mexer com plantas.”


O valor da aposentadoria é de apenas um salário-mínimo, que serve para sustentar os dois netos e dois filhos. Para complementar a renda, ela decidiu vender as hortaliças na própria residência. “Estou ficando esperta nesse curso. Compro uma mudinha por R$ 2 e o vasinho por R$ 0,25 e vendo a plantação por R$ 5. Coloco um arranjo e deixo bem bonito. Consigo lucrar bastante com as vendas”, diz. No Dia das Mães, por exemplo, ela conseguiu arrecadar um valor R$ 650. “Estou esperançosa para o Dia dos Namorados. Quem não gosta de flores, né?”, brinca.


Espaço só delas


Promover políticas públicas para as mulheres é uma atitude louvável, como explica a assistente social e professora do departamento de serviço social da Universidade de Brasília (UnB) Priscilla Maia. “Adquirir conhecimento sempre é bom, principalmente, quando essas mulheres estabelecem relações sociais em determinado grupo e acabam se identificando com outras pessoas que vivem circunstâncias iguais a ela”, argumenta.


* Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira

Temos muitos casos de mulheres que enfrentam violência doméstica
ou de baixa renda. O nosso objetivo é formá-las para

ter a oportunidade de serem incluídas social e economicamente”

Robson Caldeira,

diretor-geral do câmpus do IBF em São Sebastião



Curso de viveiricultora

» Inscrições: até 24 de junho, presencialmente no Instituto Federal de Brasília (IFB), câmpus São Sebastião

» Vagas: 30

» Duração: seis meses

» Pré-requisito: ter mais de 16 anos, apresentar documento com foto e preencher um formulário socioeconômico

» Preço: Gratuito



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