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Em Brasília. As passarelas do medo

Em Brasília. As passarelas do medoFoto: Correio Braziliense

Falta de policiamento, iluminação precária, vandalismo e dificuldade de acesso são alguns dos problemas apontados pelos brasilienses que usam as travessias subterrâneas dos eixos Norte e Sul. Governo estuda ações para revitalizar esses espaços, porém não há qualquer previsão

Por Walder Galvão E Jéssica Eufrásio - Correio Braziliense - 11/02/2019 - 07:53:08

Alternativa para garantir a segurança de pedestres e ciclistas que precisam atravessar o Eixo Rodoviário, as passagens subterrâneas das asas Sul e Norte foram pensadas para Brasília desde o projeto de Lucio Costa. No entanto, com o tempo e a falta de manutenção, essas passarelas se transformaram em caminhos menos convidativos para quem pretende chegar ao outro lado. Sujeira, mau cheiro, vandalismo, escuridão, falta de acessibilidade e casos de assaltos e estupros marcam a história de alguns desses 16 caminhos nas duas asas.

O medo, provocado principalmente pela falta de policiamento nas imediações, faz com que muita gente prefira se arriscar entre os carros em alta velocidade que transitam pelos Eixinhos e no Eixão. Pior ainda para cadeirantes e pessoas com dificuldade de locomoção, que tentam chegar ao outro lado na Asa Sul. Isso acontece porque as passagens subterrâneas do lado sul têm rampas íngremes e estreitas, nas quais é praticamente impossível descer com cadeiras de rodas ou carrinhos de bebê, por exemplo.

Liovaldo de Oliveira e Santana Rodrigues: dificuldade para descer as escadas da passarela perto do Hospital de Base (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Liovaldo de Oliveira e Santana Rodrigues: dificuldade para descer as escadas da passarela perto do Hospital de Base

Há 25 anos, o atleta Romulo Junio Soares, 50 anos, sofreu uma lesão na coluna e passou a usar cadeira de rodas. Ele ressalta que é impossível atravessar o Eixo Rodoviário Sul pelas rampas das passagens subterrâneas. “Esses locais são perigosos até para quem usa as escadas, porque são muito inclinados. Eu, que sou aventureiro, não tenho coragem, imagina outras pessoas. Se quiser atravessar do Hospital de Base para o Banco Central, por exemplo, precisaria pegar o carro e dar toda a volta”, comenta.

Circulação

Romulo destaca que há alternativas com baixo custo para que essas passarelas se tornem acessíveis. “Existem leis que obrigam que edificações não sejam feitas dessa forma. A meu ver, deficientes são os órgãos de fiscalização e as empresas construtoras que não respeitam essas normas”, ressalta. Romulo ainda aponta que, além da rampa inclinada, as calçadas e o piso das passarelas estão danificados, o que impede a circulação de pessoas como ele.

A dificuldade também se estende aos idosos, que precisam, ao menos, de um corrimão para descer as escadas. Em frente ao Hospital de Base, o apoio da passagem subterrânea está danificado. Além disso, o piso é irregular e há buracos ao longo do caminho.

 (Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)

O motorista aposentado Liovaldo de Oliveira, 69, rotineiramente vai à unidade de saúde para se consultar acompanhado da esposa, Santana Rodrigues, 65. “Não temos condições de atravessar pela pista, mas se eu estivesse sozinha à noite, não entraria lá embaixo”, diz Santana. Eles entendem que são necessárias reformas nesses espaços, intensificação de policiamento e manutenção da iluminação.

A questão da iluminação é mesmo um problema. No fim do dia, a falta de acessibilidade se une ao medo. Assaltado duas vezes enquanto transitava pelas passagens, o garçom Rodrigo Sampaio, 36, evita qualquer uma das oito passarelas da Asa Sul. Ele passa do lado leste para o oeste todos os dias quando vai ao trabalho. Mesmo saindo do expediente enquanto ainda está claro, por volta das 17h, Rodrigo prefere o risco do trânsito ao temor das passarelas subterrâneas. “As da Asa Norte, eu uso sempre. Lá é mais amplo, iluminado. Nas da Asa Sul, geralmente falta luz. Sempre me sinto mais tranquilo lá do que aqui”. Ele lembra que as da parte norte da cidade oferecem mais acessibilidade, mas sugere medidas de segurança para todos os 16 túneis.

Colegas de trabalho, Roniel Santos, 23, e Gilvan dos Santos, 33, têm as mesmas queixas em relação à infraestrutura. Auxiliares de serviços gerais, eles costumam deixar o trabalho à noite para pegar ônibus para o Jardim Ingá (GO) em uma das vias do Eixo L. No período noturno, as passarelas subterrâneas nem sempre são opções. “Não ando sozinho através delas depois das 21h. Quando estou sem companhia, prefiro arriscar as pistas”, confessa Gilvan. “Fora isso, há vazamentos, goteiras, sujeira e mau cheiro. Dá medo passar por ali”, completa Roniel.

Moradora do Gama, Valéria Quevedo, 33, trabalha das 18h às 23h30 no Plano Piloto, fazendo entregas de refeições em uma bicicleta. Quando observa um fluxo de carros menor, ela opta por cruzar as pistas dos Eixos, mas, quando isso não é possível, as passagens subterrâneas são a saída. “Geralmente, há pessoas em situação de rua, cheiro de urina e calçadas quebradas. A infraestrutura precisa melhorar. Uma tampa de bueiro um pouco aberta quase me fez cair da bicicleta”, relembra. Valéria ainda reclama da falta de segurança: “De dia, os vendedores ambulantes dão essa sensação de segurança. Mas, à noite, você nunca vê um policial. Se houvesse algum, eu me sentiria mais tranquila”, afirma.

Memória

15 de dezembro de 2018

» Uma idosa de 73 anos foi atropelada no Eixão Norte, na altura da quadra 116. Jaira Afonso da Silva não resistiu aos ferimentos e morreu no local do acidente, que aconteceu por volta das 10h45. O motorista do veículo fugiu sem prestar socorro.

23 de junho de 2018

» Um homem de 45 anos ficou gravemente ferido após ser atropelado no Eixão Sul, na altura da quadra 104. Ele foi encaminhado ao Hospital de Base e estava com fratura no fêmur esquerdo, traumatismo cranioencefálico, sangramento na cabeça, desorientado e estável. O motorista do automóvel, um jovem de 24 anos, não ficou ferido.

24 de fevereiro de 2018

» Policiais militares prenderam dois homens suspeitos de assaltar uma pedestre na passagem subterrânea do Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Com os suspeitos, os militares encontraram uma faca, utilizada no crime, e três celulares.

19 de outubro de 2017

» Uma motorista de 69 anos atropelou um pedestre de 40 anos no Eixão Sul, na altura da quadra 102. Ele realizava travessia irregular no local, quando foi atingido pelo automóvel. A vítima sofreu traumatismo craniano e teve ferimentos e hemorragia no rosto, escoriações no tórax, fratura no braço direito e na perna esquerda. Ele e a condutora precisaram ser encaminhados ao Hospital de Base.

9 de fevereiro de 2017

» Durante a noite, uma mulher de 48 anos foi estuprada na passarela entre as quadras 105/106 da Asa Sul. Policiais militares patrulhavam a área quando foram acionados pela vítima, que relatou o ocorrido e descreveu o suspeito. Pouco tempo depois, o homem, de 32 anos, foi encontrado em um comércio local e preso.


O risco diário

 (Edílson Rodrigues/CB/D.A Press - 11/10/11 )
 (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press - 11/10/11)

Projetos em gavetas

Em 2007, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF) desenvolveu um plano de reforma e repaginação para as passarelas do Eixão. A ideia era ampliar as passagens e implementar vida comercial nelas. No entanto, o projeto nunca saiu do papel. Na Câmara Legislativa tramitaram dois projetos de lei sobre o assunto, um de 2004 e outro de 2011, porém ambos foram arquivados. A ideia deles era de contar com artistas, empresas, comerciantes e a comunidade para dar maior movimentação aos lugares.

O DER é responsável pela revitalização das passagens. A reportagem do Correio procurou o órgão e foi informada de que, “com a troca de governos, um novo cronograma de ações está sendo estudado para os próximos anos”. Porém, o departamento não especificou datas nem orçamento necessário para que ocorram obras nas passarelas.

À frente da manutenção dos pontos de travessia, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) informou que realiza reparos pontuais nas passagens, quando são solicitados pela Administração Regional do Plano Piloto. Entretanto, não informou a última vez que enviaram equipes aos espaços públicos. A Novacap ainda garantiu que, este mês, profissionais irão às passagens para higienizá-las. Em nota, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) ressaltou que realiza limpeza desses locais três vezes por semana, exceto nos trajetos dos hospitais de Base e Regional da Asa Norte, onde o serviço ocorre todos os dias.

No âmbito da segurança, a Polícia Militar destacou que faz policiamento motociclístico e a pé em todas as passagens do Plano Piloto, obedecendo ao planejamento de análise criminal da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social (SSP/DF). A corporação ainda destacou que “a criminalidade não é apenas uma questão de policiamento. A falta de infraestrutura, como iluminação e poda de árvores, contribui para o aumento da sensação de insegurança”. Segundo a PM, apenas a ronda de militares não é suficiente para combater o aumento da criminalidade, mas conjunto de ações, inclusive sociais.

Aproveitamento

Além das oito passagens subterrâneas, a Asa Sul conta com as passarelas da Companhia do Metropolitano (Metrô). Esses pontos têm iluminação e limpeza diária, além de espaço para implementação de comércio, bares e restaurantes. No entanto, eles não são aproveitados e a maioria permanece fechada. Para o especialista em arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos Córdova Coutinho, falta imaginação e empreendedorismo ao governo para que todas as passarelas sejam revitalizadas.

“As passagens são necessárias e poupam a vida de muita gente, porque é impossível atravessar o Eixo a pé. Hoje, elas se encontram abandonadas, pichadas, sujas, sem iluminação e ainda deficientes em vigilância”, constatou. Segundo o estudioso, é possível realizar intervenções nesses pontos com baixo orçamento, apenas contando com comunidade e intervenções culturais.

“Temos espaços ótimos que não são utilizados nem divulgados. O fluxo de pessoas é grande, mas falta iniciativa das autoridades”, lamentou. Sobre as passagens subterrâneas das quadras ímpares, o especialista ressalta que o ideal é realizar reformas, que não custaria muito aos cofres públicos, e trazer atrativos para que as pessoas passassem a frequentar esses trechos. “São lugares bem localizados, com paradas de ônibus próximas. Há inúmeros eventos que podem ser feitos ali, com artistas, apresentações de escolas e até feiras de comerciantes”, de escolas e até feiras de comerciantes”, disse.

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