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Em Goiás, uma orquestra agoniza

Em Goiás, uma orquestra agonizaFoto: Reprodução

Músicos da Orquestra Filarmônica de Goiás protestaram em Goiânia na manhã de domingo

Estadão Conteúdo - 14/12/2020 - 15:38:08

Sem contratos desde setembro, músicos da Orquestra Filarmônica de Goiás pedem em carta aberta a manutenção da orquestra e a recontratação de artistas. Governo promete solução apenas para março – na melhor das hipóteses

Nos últimos oito anos, a Orquestra Filarmônica de Goiás conquistou um espaço importante na cena musical brasileira. Pelo repertório, pelos artistas que foi capaz de atrair, pelos projetos discográficos, pelo público que conquistou, tornou-se um dos pilares da vida sinfônica do país. E chega ao final de 2020 com toda a sua equipe sem contratos – incluindo os seus 50 músicos, desempregados desde o final de setembro.

O que houve com a orquestra é uma narrativa exemplar da falta de atenção à cultura. Mais do que isso: é um conto do absurdo, que permite a um governo afirmar que a orquestra é uma prioridade no mesmo momento em que ela não existe.

A orquestra passou por um processo de reestruturação em 2012. O maestro britânico Neil Thomson foi convidado a atuar como diretor artístico e regente titular. Novos músicos foram contratados. O repertório se ampliou. A orquestra iniciou o projeto de gravação das sinfonias de Claudio Santoro, um dos mais importantes da história recente do país. Atraiu milhares de pessoas em seus concertos. Todos gratuitos.

Do ponto de vista da gestão, porém, o grupo nunca funcionou como se esperava. O plano original é que se estabelecesse, por meio de contrato entre o governo estadual e uma entidade privada, um modelo de gestão por meio de organização sociais. Ele chegou a ser implementado em 2017, mas durou pouco mais de um ano.

Em 2018, o grupo voltou a ser gerido pelo estado. O que levou a um problema: a contratação dos músicos por meio de contratos temporários, o que não seria permitido por lei, segundo um parecer do início de 2019 do Tribunal de Contas do Estado de Goiás. O recurso valeria apenas para cargos de comissão, para funções de direção, chefia e assessoramento. Não era o caso dos músicos.

Em um passado não tão distante, orquestras como a Osesp ou mesmo os corpos estáveis do Teatro Municipal de São Paulo funcionavam (precariamente) desta forma. A diferença, nesses casos, foi a criação de modelos de gestão – por meio de OSs no caso da Osesp e por meio da criação de uma fundação, no caso do Municipal – que pudessem resolver o problema.

Em Goiás, porém, nada disso aconteceu. No lugar, a orquestra foi passeando pela estrutura do Estado, pertencendo à Secretaria de Educação, ao Centro Cultural Oscar Niemeyer e, em agosto deste ano, à Goiás Turismo. No meio tempo, o grupo foi perdendo funcionários, verbas e apresentações.

Em setembro, os músicos foram então comunicados de que, por conta do parecer do Tribunal de Contas do Estado, não teriam seus contratos renovados. Estavam, portanto, na rua. A orquestra acabou? O governador Ronaldo Caiado (DEM-GO) afirmou na época que o fim da orquestra era fake news. Mas como se chama uma orquestra que não tem músicos, verbas, maestro, equipe ou programação?

Na verdade, o governo afirmou sim que pretendia realizar uma reestruturação do grupo. Até novembro seria lançado o edital para chamamento de OSs interessadas na gestão, para que desta forma o problema estivesse resolvido no início de 2021 e os músicos fossem recontratados o mais rápido possível. Enquanto isso, em dezembro e em janeiro, todos seriam chamados de volta e receberiam cachês para realizar novas gravações de CDs, uma forma de manter alguma remuneração.

Mas nada disso aconteceu.

Os músicos foram comunicados de que há impedimentos legais para a contratação dos artistas apenas para a gravação dos discos. E sobre o edital, o presidente da Goiás Turismo Fabrício Amaral disse na manhã desta segunda-feira, dia 14, em entrevista à TV Globo, que “é um processo com regras morosas mesmo”. Ele demora. E a previsão é de que o edital seja lançado em até quinze dias. E a contratação aconteça em março do próximo ano. Para ele, resolver a questão “é uma prioridade”.

As notícias levaram os músicos a publicar uma Carta Aberta. “Nada se cumpriu até o momento, desde a exoneração dos músicos. A OFG deixou de existir e se vê cada vez mais distante do seu retorno. A agonia de 50 músicos e suas famílias, em plena pandemia, acaba com o trabalho e a justificativa de 7 anos dedicados à execução de concertos de altíssimo nível, todos gratuitos, além da conquista da inserção de Goiás como um estado de referência na música de concerto brasileira, com uma orquestra de nível internacional”, diz um trecho do documento. “É inegável também o papel de importância social da orquestra, consolidado através de temporadas que promoveram, além de concertos com solistas e convidados de renome mundial, atividades didáticas e educativas. O descaso com a Filarmônica é o descaso com a cultura, com a população e a interferência no processo de democratização da arte já tão fragilizada no país.”

O maestro Neil Thomson também se pronunciou em texto publicado no Site CONCERTO. “A Orquestra Filarmônica de Goiás não pode, não deve parar. Somos uma parte vital da vida cultural goiana e brasileira. Os músicos têm se comportado com grande dignidade durante toda essa situação terrível, mas agora é hora de apoiá-los. A Orquestra do Coração do Brasil deve ter seu próprio coração restaurado: seus amados músicos”, escreveu.

Fabrício Amaral tem razão: a implementação de um novo modelo de gestão demora. Mas o problema é antigo e, se tivesse sido tratado com cuidado, não teria levado ao fim da orquestra e à demissão de cinquenta músicos, durante a pandemia, impossibilitados de requisitar o Auxílio Emergencial. Da mesma forma, se em setembro foi anunciado o plano de gravação do CD como forma de ajudar os músicos, é de se supor que houvesse então uma forma de fazê-lo. Se ela deixou de existir ou nunca existiu não faz diferença: o descaso é o mesmo.

Enquanto construía uma carreira importante do ponto de vista artístico, a Filarmônica de Goiás foi sendo passada de mão em mão, sem jamais ser prioridade do governo. Dizer que ela é, agora que deixou de existir, é mais um absurdo em um país que não parece conhecer limites na luta contra a cultura.

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