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Em meio a protestos, primeiro-ministro do Líbano renuncia ao cargo

Em meio a protestos, primeiro-ministro do Líbano renuncia ao cargoFoto: Reprodução Facebook

Em pronunciamento exibido pela TV , Saad Hariri diz que deixará o governo em resposta aos milhares de libaneses que foram às ruas contra sua gestão

Estadão Conteúdo - 29/10/2019 - 14:57:04

Em meio aos protestos em todo o Líbano desencadeados por uma crise econômica, o primeiro-ministro Saad Hariri anunciou nesta terça-feira, 29 sua renúncia ao cargo.

Ele pediu que os cidadãos do país mantenham a paz e disse que é responsabilidade de todos os partidos políticos garantir a proteção do país. "Cargos vêm e vão. A dignidade e a segurança do país são mais importantes", afirmou Hariri em pronunciamento exibido pela TV.

O premiê libanês, Saad al-Hariri, anuncia que pedirá sua renúncia
O premiê libanês, Saad al-Hariri, anuncia que pedirá sua renúncia Foto: REUTERS/Mohamed Azakir/File Photo

"Me dirijo ao Palácio Baabda - residência oficial do presidente do Líbano - para apresentar minha demissão do governo em resposta aos muitos libaneses que foram às ruas", afirmou Hariri, depois de dizer que estava em um beco sem saída.

O anúncio de Hariri foi feito logo depois de apoiadores do grupo xiitas Hezbollah e do partido xiita Amal terem atacado e destruído barracas montadas por manifestantes anti-governo no centro de Beirute. Homens com os rostos cobertos e bastões, além de agredirem os manifestantes, atearam fogo nas barracas. O Exército interveio com bombas de gás lacrimogêneo e tanques.

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Policiais tentam conter apoiadores do Hezbollah que tentaram destruir e queimar barracas de manifestantes anti-governo em Beirute, Líbano Foto: Hussein Malla/AP Photo

O país ficou paralisado pela onda de protestos contra a corrupção da classe política, que levou o Líbano à pior crise econômica desde a guerra civil (1975-1990).

“Durante 13 dias, o povo libanês esperou uma decisão para uma solução política que acabe com a deterioração (da economia). E eu tentei, durante esse período, encontrar uma saída, ouvindo a voz do povo”, disse Hariri em seu discurso televisionado. “É hora de termos um grande choque para enfrentar a crise”.

A movimentação interferiu na crise econômica libanesa, com escassez de moeda impressa e enfraquecimento da libra libanesa, que há anos tem baixo valor.

Bancos ficaram fechados pelo décimo dia consecutivo, assim como escolas e comércios. Um mercado negro para dólares surgiu no último mês, mesmo o país já tendo uma economia informalmente dolarizada. De acordo com revendedores ilegais, o preço de um dólar está equivalente a 1,8 mil libras libanesas.

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Pessoas se reúnem em Beirute entre confronto de apoiadores do grupo xiita Hezbollah e manifestantes anti-governo do Líbano Foto: Hassan Ammar/AP Photo

Influência do Hezbollah

O embate entre apoiadores do Hezbollah e manifestantes acontece após o líder do grupo terrorista, Sayyed Hassan Nasrallah , ter afirmado na semana passada que as estradas fechadas pelos protestantes deveriam ser reabertas e sugeriu que os atos eram financiados pelos seus inimigos estrangeiros para implementar suas agendas.

A renúncia de Hariri desafia o Hezbollah, já que Nasrallah disse duas vezes que era contra a medida, citando o risco de um vazio perigoso.

É o confronto mais grave nas ruas de Beirute desde 2008, quando militantes do Hezbollah tomaram controle da capital em um breve conlito armado com adversários leais a Hariri.

Contra o sectarismo

Os protestos das últimas semanas no Líbano se destacaram por terem sido os primeiros onde manifestantes de diversas religiões se uniram pela mesma causa, contra o sectarismo presente no Parlamento e na alta cúpula do governo libanês, que se instalou após o fim da guerra civil.

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Polícia do Líbano apaga fogo em barraca de manifestantes anti-governo após ataque de apoiadores do grupo xiita Hezbollah Foto: Mohamed Azakir/Reuters

A regra para composição do parlamento libanês é um reflexo da diversidade religiosa da sociedade libanesa. O acordo prevê que metade das cadeiras seja de cristãos, com subdvisiões entre católicos, ortodoxos, protestantes e evangélicos. A outra metade deve pertencer aos muçulmanos, divididos entre sunitas, xiitas, alauitas e druzos. Entre os xiitas, há políticos pertencentes ao grupo terrorista Hezbollah, apoiado pelo Irã.

Pela regra, o primeiro-ministro deve ser sunita. Em janeiro, quando Hariri conseguiu formar governo, três ministérios foram entregues a políticos ligados ao Hezbollah. O grupo é integrante da política libanesa e tomou protagonismo da proteção das fronteiras do país, que tem um Exército fraco com poucos recursos bélicos.

De acordo com a constituição libanesa, o gabinete de Hariri deve ficar sob cargo de uma equipe de transição até que um novo governo seja formado.

Na semana passada, o premiê tentou acalmar os ânimos da população ao propor um pacote de medidas acordado com outros grupos em seu governo de coalizão, entre eles o Hezbollah, para acabar com a corrupção e reformas econômicas atrasadas. Mas, sem medidas imediatas para implementar a reforma, os manifestantes permaneceram nas ruas. / EFE e REUTERS

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