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Entre o luto e a fé. Francisco concede bênção e indulgência plenária à humanidade

Entre o luto e a fé. Francisco concede bênção e indulgência plenária à humanidadeFoto: CorreioWeb

Papa Francisco beija os pés do Cristo Milagroso, durante cerimônia na Cidade do Vaticano: imagem teria sido usada para pôr fim à peste de 1522

Rodrigo Craveiro - Correioweb - 28/03/2020 - 13:50:57

No dia em que a Itália registrou 969 mortes por Covid-19, o maior número entre todos os países, papa Francisco concede bênção e indulgência plenária à humanidade, na Praça de São Pedro completamente vazia. Brasileiras residentes na Lombardia relatam drama

Caixões de vítimas do novo coronavírus colocados em depósito de Ponte San Pietro, perto de Bergamo, na região da Lombardia: risco de infecção proíbe velórios e funerais; corpos são cremados  (Piero Cruciatti / AFP )
Caixões de vítimas do novo coronavírus colocados em depósito de Ponte San Pietro, perto de Bergamo, na região da Lombardia: risco de infecção proíbe velórios e funerais; corpos são cremados

Sob chuva e ante uma Praça de São Pedro escura e completamente vazia, algo sem precedentes na históra milenar da Igreja Católica, o papa Francisco suplicou: “Senhor, abençoe o mundo, dê saúde aos corpos e conforto aos corações; Senhor, não nos deixe à mercê da tempestade”. O pontífice citou uma “tormenta inesperada e furiosa”, “uma tempestade que desmascara nossa vulnerabilidade e deixa descobertas essas falsas e supérfluas seguranças”. Ao conceder a indulgência plenária à humanidade, às 18h de ontem (14h em Brasília), Francisco lembrou que “é diante do sofrimento que se mede o verdadeiro desenvolvimento dos nosso povos”. Foi uma referência a “médicos, enfermeiros, estoquistas, funcionários da limpeza, cuidadoras, motoristas, forças de segurança, voluntários, sacerdotes, religiosos e tantos outros”. Ele elogiou o sacrifício de “tantos que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.

No dia em que a pandemia do novo coronavírus levou o líder católico a ministrar a bênção Urbi et orbi (“À cidade e ao mundo”), transmitida pela internet, a Itália registrou 969 mortes em 24 horas, um balanço que nenhum país alcançou até o momento. Até o fechamento desta edição, os italianos contabilizavam 9.134 óbitos.

Francisco afirmou que, há algumas semanas, “densa escuridão cobriu nossas praças, ruas e cidades; tomou conta de nossas vidas, preenchendo tudo de um silêncio que ensurdece e de um vazio desolador, que paralisa tudo em seu caminho: ela se palpita no ar, se sente nos gestos, é dita nos olhares”. “Nós nos encontramos assustados e perdidos”, admitiu o pontífice, que se curvou e beijou o crucifixo do Cristo Milagroso — uma peça de 500 anos trazida da Igreja de San Marcello al Corso, em Roma, a qual acredita-se tenha curado a peste de 1522. “Estamos todos no mesmo barco e somos chamados a remar juntos.” A celebração do papa foi entremeada pelo toque dos sinos e pela sirene das ambulâncias — o mesmo som ecoa pela Lombardia (norte), a região mais castigada pela pandemia.

Cuidadora de idosos em um asilo de Bergamo, a 40km de Milão, a gaúcha Eime Fortunatti, 30 anos, contou ao Correio que oito pacientes morreram no local com suspeita de Covid-19. “Os sintomas iniciais são similares aos da gripe: dores no corpo, inflamação na garganta, falta de paladar e de olfato. Depois, vêm a febre e a perda de apetite”, relatou a brasileira, que usa máscaras e luvas no trabalho. “Se estamos infectadas ou não, é impossível sabermos. O governo não tem disponibilizado testes suficientes. Na última semana de fevereiro, tive todos os sintomas. Vi idosos morrerem, devagarinho, com sintomas leves, seguidos de febre e falta de oxigênio.”


Silêncio e medo


Em Milão, a empreendedora carioca Amanda Menezes, 33, relatou que o silêncio generalizado na cidade traz o medo. “Apesar do isolamento total, os números de mortes e de infecções seguem crescendo. O vírus tem um período de incubação de 14 dias, a Itália inteira fechou há mais de duas semanas e os casos não param de aumentar. A impressão em Milão é de que todos estamos contagiados”, desabafou ao Correio. Segundo ela, o fator psicológico que mais pesa é a falta de previsão sobre quando a vida voltará à normalidade. “O medo aqui transcende a questão econômica, mas engloba a incerteza geral de não saber no que isso vai dar. O isolamento começou há cerca de um mês. A campanha para que Milão retornasse ao trabalho levou a uma explosão dos casos. Eu procuro me cuidar. Após ir ao supermercado, ao chegar em casa sempre lavo as mãos e passo álcool em gel”, disse Amanda.


“Hoje, faz 1 mês e sete dias que minha vida parou. No momento, podemos sair somente para fazer compras, ir à farmácia ou ao médico. Tudo com declaração por escrito, relatando nossa origem, destino e motivo do deslocamento”, disse a estudante de comunicação Eduarda Rosa dos Santos, 21, que trocou Salvador por Milão em 2017. De acordo com ela, uma amiga perdeu a avó e não pôde se despedir nem organizar o velório. “É uma situação muito triste. O governo italiano demorou o suficiente para que a situação aqui se tornasse uma pandemia. No começo, eu me lembro de escutar na TV que deveríamos continuar com nossas vidas normais. Pouco a pouco, a situação se agravou. O Brasil tem o exemplo caro do erro cometido pela Itália.” Na quinta-feira, o prefeito Beppe Sala admitiu o equívoco da campanha “Milão não para”. “Foi um erro. Ninguém havia ainda entendido a virulência do vírus”, disse.


Apesar do trágico cenário na Itália, o pior estaria a caminho. “Não atingimos o pico. Temos sinais de desaceleração (do número de casos), o que nos faz crer que estejamos perto dele”, declarou Silvio Brusaferro, chefe do Instituto Superior da Saúde. Ele ressaltou que o confinamento e a proibição de atividades em setores não essenciais têm surtido efeito.

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