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Entre vida normal e restrição: Brasileiros relatam pandemia na Escandinávia

Entre vida normal e restrição: Brasileiros relatam pandemia na EscandináviaFoto: Pixabay

Receita portuguesa: como o país se tornou uma exceção na pandemia

Aline Takashima Colaboração Para Nossa - 16/05/2020 - 20:52:32

Na longínqua Escandinávia localizada ao Norte da Europa, próxima ao círculo polar ártico, a pandemia de coronavírus demorou para chegar. Noruega, Suécia e a Dinamarca fazem parte de uma tríade privilegiada, que ocupa o topo dos rankings de riqueza, bem-estar e felicidade no mundo. Mas nem por isso foram poupadas da doença.

No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde declarou que o mundo enfrentava uma pandemia de coronavírus. Neste dia, a Dinamarca fechou escolas e cancelou eventos. Seguida da Noruega, que tomou as mesmas medidas no dia seguinte.

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Já a Suécia não impôs restrições e apenas aconselhou os cidadãos a tomarem uma série de cuidados para se proteger. Hoje, o país soma mais mortos que os vizinhos da região.

Pessoas frequentam os cafés de Estocolmo, na Suécia, durante a pandemia - Getty Images

Pessoas frequentam os cafés de Estocolmo, na Suécia, durante a pandemia

Imagem: Getty Images

Suécia: vida normal, mas nem tanto

Com bares, restaurantes, cafés e escolas para menores de 16 anos abertos, além da permissão de reuniões com até 50 pessoas, a vida na Suécia continua como antes, mas em um ritmo mais suave, digamos. Mesmo assim há quem sinta as mudanças.

Leonam Espíndola - Arquivo pessoal

Imagem: Arquivo pessoal

O brasileiro de Florianópolis, Leonam Espíndola, 31 anos, não imaginou que sua vida mudaria tanto em tão pouco tempo. Ele mora em Estocolmo, capital do país, há cinco anos e é responsável pela eficiência e agilidade do time de marketing de uma empresa de telecomunicação. Todos os dias ia até o escritório e encontrava os colegas. Mas, desde que o vírus chegou no país, trabalha em casa.

"Lembro que a Spotify foi a primeira empresa na Suécia a fechar o escritório. Depois deles, a gente ficou uma semana e meia até começar a trabalhar em casa. No começo, não acreditava que a minha rotina ia ser abalada desse jeito". Mesmo sem imposições, a Suécia aconselha uma série de medidas, como trabalhar remotamente, evitar viagens não essenciais e manter distância de mais de 1,5 metro.

Quando a pandemia chegou, líderes empresariais pediram que as autoridades levassem em consideração a economia ao impor restrições. Mas, mesmo com o comércio aberto, é improvável que o país escape da ressaca econômica. A Comissão Europeia prevê que o PIB da Suécia recue 6,1% este ano.

Leonam conhece pessoas que foram demitidas no país — algo raro por lá. "As pessoas estão preocupadas. Os suecos têm muitos benefícios e nunca viveram essa realidade."

Sair ou não sair?

Hoje, o brasileiro enfrenta um dilema se deve sair para passear ou não.

Leonam possui dois grupos de amigos: o de estrangeiros que segue medidas restritivas de quarentena, como sair de casa somente para o essencial, e o de suecos que acata as recomendações do governo.

O último grupo se encontra, mas evita contato, e procura manter uma distância de 1,5 metro. "Eles têm um sentimento de orgulho por serem suecos. Confiam bastante no país. Quando eu questiono sobre as críticas, muitos argumentam que o governo mudaria a estratégia se não estivesse fazendo um bem para a nação."

Cartaz em shopping de Estocolmo recomenda que frequentadores mantenham distância - HENRIK MONTGOMERY/AFP

Cartaz em shopping de Estocolmo recomenda que frequentadores mantenham distância

Imagem: HENRIK MONTGOMERY/AFP

De fato, a maioria dos suecos confia nas autoridades. Uma pesquisa realizada pela Ipsos/DN, especialista em pesquisa de mercado global, mostra que apenas 11% da população é contra as medidas adotadas.

A estratégia do governo é adotar normas menos rigorosas para que as pessoas sigam as recomendações por mais tempo. E nega que a sua estratégia seja baseada em imunidade de rebanho, ou seja, expor a população à contaminação para que se torne imune.

Nada de teste

Há um mês, Leonam foi ao hospital para retirar pedras nos rins e no dia seguinte, ficou doente, com uma gripe forte que incluía sintomas como perda de olfato, dores de cabeça e dor de garganta. O mal-estar durou duas semanas.

Outros amigos também ficaram doentes com febre, tosses e problemas respiratórios, mas nenhum chegou a fazer o teste de coronavírus. Isso porque a Suécia só realiza os exames em pessoas que precisam de cuidados hospitalares, que trabalham na área da saúde ou com assistência a idosos. Quem apresenta problemas respiratórios ou resfriados deve ficar em casa para reduzir o risco de disseminação da infecção.

"Fico chateado por não saber se peguei o coronavírus ou não. Queria saber por uma questão de saúde pública. Tem essa questão psicológica: será que a gente pegou?", questiona.

País mais atingido da região

Na Suécia morre mais gente por coronavírus do que nos vizinhos escandinavos e, até esta quarta-feira, morreram 3.831 pessoas.

O país registra 315 mortes por milhão. Enquanto a Dinamarca possui 91 mortes por milhão e a Noruega 41 mortes por milhão.

Casal usa máscara em Estocolmo, capital da Suécia - JONATHAN NACKSTRAND/AFP

Casal usa máscara em Estocolmo, capital da Suécia

Imagem: JONATHAN NACKSTRAND/AFP

"Eu sinto um pouco de ansiedade pois não é a mesma tática de outros países europeus. Com a chegada do verão eu quero ver meus amigos, sair de casa. Penso até em marcar alguma coisa com grupos menores. Mas aí eu vejo as notícias no mundo e desmarco", conclui o brasileiro.

Noruega: medida mais dura desde a Segunda Guerra

A Noruega e a Suécia são vizinhas, dividem centenas de quilômetros e possuem uma cultura similar — são capazes até mesmo de entender o idioma uma da outra. Porém, diante da pandemia da covid-19, optaram por caminhos diferentes.

Erna Solberg, premiê da Noruega, responde a perguntas de crianças sobre o coronavírus, em Oslo - Lise Åserud / NTB Scanpix / AFP

Erna Solberg, premiê da Noruega, responde a perguntas de crianças sobre o coronavírus, em Oslo

Imagem: Lise Åserud / NTB Scanpix / AFP

A primeira-ministra norueguesa, Erna Solberg, admite que as medidas para controlar o coronavírus são as mais rigorosas desde a Segunda Guerra Mundial e até esta quarta (20), o país conta com 234 mortes.

Com a covid-19, tudo parou

A gaúcha Carol Tissot, 29 anos, só entendeu a gravidade da situação quando o governo norueguês decidiu fechar as escolas. Ela mora há cinco anos em Trondheim, uma cidade universitária localizada no meio da Noruega.

"Foi super estranho ver a cidade deserta. É surreal pensar que a gente tá fugindo de um negócio que não pode ver."

O período de adaptação da quarentena foi difícil, pois, assim como os noruegueses, ela tem uma vida agitada. Gosta de ir à academia, caminhar na floresta, encontrar os amigos e praticar o esporte queridinho do país, o esqui cross-country (uma modalidade em que os esquiadores deslizam em terrenos planos cobertos de neve).

Carol Tissot - Arquivo pessoal

Imagem: Arquivo pessoal

Além disso, por seis horas diárias, Carol desenvolve projetos de empreendedorismo com grupos vulneráveis em países do Leste Europeu e da América Latina e sabe a diferença que faz morar em um país que possui a economia mais inclusiva do mundo, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Inclusivo do Fórum Econômico Mundial. "Como é uma nação mais igualitária, as pessoas sentiram os efeitos da pandemia de uma maneira parecida", defende Carol.

Testes para todos

Como o conterrâneo que mora em Estocolmo, ela ainda sente a quarentena, e possivelmente, os efeitos do próprio vírus.

No começo de fevereiro, Carol fez uma viagem para Portugal e, após dois dias em casa, começou a sentir os sintomas: febre alta e tosse seca. Foi ao médico e fez um teste, que deu negativo. Mas, como o exame foi feito no começo da pandemia, Carol tem dúvidas da sua eficácia. Independente se teve o coronavírus ou não, hoje ela está bem.

Uma das políticas locais é testar grande parte da sua população e cerca de 20 pessoas a cada mil fazem o exame (enquanto na Suécia, somente 5 a cada mil pessoas são testadas), aponta o Our World in Data. Até agora, quase 196 mil noruegueses realizaram o teste.

"Eu sinto confiança no país. Se eu precisar ir ao médico, eu sei que vou ter acesso. É uma sociedade bem estruturada, que pensa no coletivo. Há um alto nível de confiança nas instituições e nas pessoas", explica Carol.

Isolamento positivo

Aos poucos, a Noruega volta a normalidade, com menos de 100 pessoas hospitalizadas com covid-19 desde o fim de abril.

A cidade de Oslo, na Noruega - Getty Images/iStockphoto

A cidade de Oslo, na Noruega

Imagem: Getty Images/iStockphoto

Com a pandemia sob controle, como anunciou o governo, crianças e adolescentes estão indo para as escolas e os encontros com até 50 pessoas em locais públicos voltaram a acontecer. Mantendo, claro, uma distância mínima de um metro.

"Quanto mais o isolamento parecia ter sido desnecessário, mais eficiente ele foi. Me parece que as medidas na Noruega foram feitas da melhor forma possível", resume Carol. E conclui: "Essa é a minha opinião. Mas a verdade é que a gente só vai saber a melhor estratégia de quarentena daqui a muito tempo".

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