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Escolas em Brasília esperam reformas

Escolas em Brasília esperam reformasFoto: Correio Braziliense

Vidro quebrado na Escola Classe 425 de Samambaia: salas quentes e mal-iluminadas, instalações elétricas precárias e casos de desabamento

Por Luiz Calcagno - Correio Braziliense - 11/02/2019 - 07:57:15

Dos 678 colégios públicos do Distrito Federal, 200 foram escolhidos para receber obras emergenciais, mas só 11 estarão prontos para receber os alunos na segunda-feira, quando começa o ano letivo. Secretário espera resolver todos os problemas em 2020.

Deisilane Oliveira, 28 anos, cursou o último ano do ensino básico na Escola Classe 425 de Samambaia, em 2001. Na próxima segunda-feira, será a vez da filha dela, Mariana, 10, começar o 5º ano na unidade. A única diferença estrutural no prédio nesses 18 anos é a pintura e o reforço na base das paredes. “Uma maquiagem”, como define a diretora do colégio, Tatiana Guedes de Souza. Construída às pressas em 1991, a edificação teria de ser demolida e reconstruída.

O estabelecimento de ensino levantado em placas de madeiras, com salas quentes e mal-iluminadas, instalações elétricas precárias e casos de desabamento, sintetiza o estado de algumas escolas públicas da capital, que vão abrigar 468,5 mil estudantes neste ano. Prédios carentes de manutenção e reformas, que acumulam problemas encobertos por soluções paliativas. Com R$ 20 milhões, o programa SOS Educação, do novo governo, escolheu 200 dos 678 colégios para receber manutenção emergencial, sendo que 104 iniciaram as obras, 11 estão prontas para receber os alunos e 72 têm 50% ou mais dos trabalhos concluídos.

 

Deisilane e Mariana: filha estuda na escola onde a mãe cursou o ensino básico e que não deveria existir mais (Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)  
Deisilane e Mariana: filha estuda na escola onde a mãe cursou o ensino básico e que não deveria existir mais

Titular da Secretaria de Educação, Rafael Parente garante que o ano letivo começará com o quadro de professores completo e vagas para todos os estudantes. Também afirma que as quatro unidades que terão gestão compartilhada com a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros funcionam a partir de segunda no novo modelo. “É um aporte de R$ 200 mil (para o ano todo) que a secretaria vai ganhar (por meio de convênio com a Secretaria de Segurança Pública) e que não podemos recusar”, ressalta Parente.

Quanto à situação das unidades de ensino e do sistema como um todo, o secretário diz ser o “mínimo para começar bem o ano letivo”. Parente lamenta que nem todas as escolas ficarão prontas até segunda-feira. “Temos escolas ótimas e escolas péssimas. Isso depende muito da coordenação regional e da direção. Tem diretor que se vira, arruma dinheiro. Estamos buscando condições legais para, até o fim do ano que vem, resolver os problemas de todas as unidades de ensino”, diz o secretário. Ainda segundo Parente, a rede de ensino contabilizou 8,5 mil matrículas a mais em 2019.

Riscos

Deisilane se queixa do descaso com a Escola Classe 425 de Samambaia. “Eles pintaram a escola, mas a estrutura é a mesma. A única coisa que mudou nesse tempo todo foi a cara dos governos”, critica. Segundo a mãe, quando chove na região, os pais ficam com medo de um incidente com os filhos na unidade de ensino. “Principalmente quando é chuva com vento. Já caiu um forro na cabeça de uma criança”, lembra. A filha, Mariana, diz gostar do local, apesar do medo. “Espero que consertem logo”, pede a criança.

Ativa na comunidade escolar, Elizete Silva, 37, tem duas filhas na Escola Classe 425: Gabriella, 9 anos, e Isabella, 7. Ela também critica a estrutura. “É um local estreito, irregular, com muitos degraus. Em agosto e setembro, na seca, as salas de aula ficam insuportáveis. A escola precisa ser reconstruída, pois toda a comunidade precisa dela”, apela. A diretora, Tatiana Guedes, concorda. “A caixa d’água desabou em 2016. Ainda bem que era sábado. Construíram outra, mas, se acabar a água, ela não suporta dois turnos”, ressalta. Ainda segundo a diretora, há vários governos, a unidade está como prioridade para ser reconstruída.

Direitos

Diretora do Sindicato dos Professores do DF e integrante da comissão de negociação da entidade com o governo, Rosilene Corrêa critica a situação estrutural das escolas e discorda da colocação do secretário sobre o número de professores ser suficiente. “Se você considera quantidade de professor por turma, considerando os contratos temporários, ninguém vai pra casa por falta de professor. Mas, se for para cumprir a lei e garantir direitos adquiridos desses profissionais, não tem. Estamos há anos sem licença-prêmio, por exemplo”, observa a sindicalista.

Rosilene destaca ainda que o governo tirou professores de outras atividades pedagógicas para suprir o quadro em sala de aula. Isso ocorreu, segundo ela, nas escolas parque, que tinham aulas de reforço para alunos com necessidades especiais. “Há professores e alunos que estão tendo menos direitos atendidos”, afirma. A sindicalista lembra que o GDF deve parte da verba do Programa de Descentralização Administrativa e Financeira (PDAF) de 2018. O programa disponibiliza verba para escolas sanarem dificuldades.

A Secretaria de Fazenda autorizou o GDF a pagar R$ 48,4 milhões relativos à primeira parcela do PDAF de 2019. Segundo a Secretaria de Educação, “a portaria que autoriza os pagamentos para 683 escolas deve ser publicada nos próximos dias”. Porém, não há prazo para pagamentos de 2018, estimados em R$ 13 milhões.

RAIOS-X

Confira os números da rede de ensino público do DF:

Prédios

» A rede tem 678 unidades escolares, além de 112 instituições parceiras para complementar o atendimento do ensino infantil. Do total, 79 são escolas rurais.

Professores

» A Secretaria de Educação conta com 26.560 professores efetivos. Além dos concursados, para 2019, a pasta convocou outros 6 mil professores temporários até o momento.

Estudantes

» Em 2018, a rede de ensino contava com, aproximadamente, 460 mil estudantes. A expectativa é de que haja um aumento de 8,5 mil em 2019. Em 2018, 23.690 estudaram em escolas rurais.

Palavra de especialista

“Deveria estar pronta”

A parte física é o primeiro pressuposto. Uma questão que nem deveria ser discutida. Devia estar pronta. Temos escolas que chovem do lado de dentro. Em cidades-satélites, temos um número de crianças em idade escolar muito grande. Há muitas dificuldades que interrompem a aula, ou que fazem parar uma aula. É preciso, pelo menos, um espaço adequado para a aula em sala, para recreação e com boas instalações sanitárias e para a alimentação e administração.

O ambiente escolar físico, o conforto das crianças é muito relevante. É relevante em termos de aprendizagem. A sala tem que ser iluminada, bem ventilada, tem que haver espaço suficiente para os alunos. Até porque temos muitas crianças em sala, normalmente. Essas crianças precisam estar bem acomodadas. Além disso, a didática contemporânea prevê que a organização especial da sala varie. As metodologias contemporâneas prevêem que essa organização em fileiras se altere. É preciso que haja espaço físico para isso.

O estudante passa muitas horas lá dentro. Há outros espaços igualmente pedagógicos. O recreio é muito importante. Desenvolve a socialização das crianças. Tem outros papéis sociais que se desenvolvem na brincadeira. A escola tem que ter espaço adequado para o recreio. Além disso, precisa ter uma estrutura adequada para administração, para o diretor e para os professores. E, ainda, tem uma função importante que é servir a merenda escolar. Novamente vamos ter um número muito grande de crianças que dependem dessa alimentação, que precisam dessas proteínas.

Estella Maris Bortoni, professora PFD em linguística e educação da UnB

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