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Espaços para cultura e lazer dentro da Rodoviária

Espaços para cultura e lazer dentro da RodoviáriaFoto: Correio Braziliense

À esquerda, Ilana Zeigerman pergunta: O que você vê atrás desse muro?. À direita, no que o espaço poderia ser transformado

Por Alan Rios-correio Braziliense - 11/04/2019 - 11:41:26

Quatro áreas bloqueadas atualmente, que totalizam 50.000 m², estão escondidos em um dos principais pontos de Brasília. Arquitetos buscam soluções criativas para que esses espaços, hoje ocupados por terra, se transformem em centros de convivência.

 ( Ilana Zeigeman/Divulgação)

Milhares de brasilienses passam diariamente por um dos pontos mais movimentados da capital, a Rodoviária de Brasília, esbarrando em pessoas apressadas, desviando de ambulantes irregulares e se afunilando nas escadas, filas e espaços de constantes obras. A impressão que fica é de que existe muita gente para pouco espaço. Tanto que sobram reclamações de quem convive com esses problemas: faltam banheiros adequados, bebedouros, bancos para

sentar e ambientes de maior circulação. Mas ao mesmo tempo em que é difícil caminhar com tranquilidade no local, quatro áreas que totalizam um vão de 50.000 m² estão inutilizados na Rodoviária. São os caixões perdidos de Brasília.

O nome é novidade até para quem conhece o ponto com a palma da mão. Estudante da Universidade de Brasília (UnB), Thiago dos Santos, 22, passa quase todos os dias por lá, mas nunca ouviu falar desse espaço. “É tipo alguma caixa-preta da Rodoviária?”, questiona com humor. Seus amigos também chutam: “Tem algo a ver com uso de drogas aqui?”, diz Monike Pontes, 23, lembrando de outro problema constante no local. Mas a resposta não é nada tão sombria.

A expressão “caixões perdidos” é utilizada por engenheiros, arquitetos e urbanistas para se referir a um método de construção utilizado para lajes de grande espessura de concreto, em que se colocam volumes vazios de materiais inertes para economizar materiais, o que pode deixar um grande espaço oco (ou com terra) em uma edificação. Na Rodoviária, eles estão atrás de quatro paredes com cerâmicas brancas, um em cada extremidade da plataforma, e são constituídos, basicamente, por terra.

A pergunta do momento é: por que esses espaços não podem ser aproveitados como centros de convivência e culturais? A ideia agrada de especialistas a pessoas que seriam diretamente impactadas com possíveis transformações. Suyene Arakaki, professora de arquitetura e urbanismo, destaca que uma ocupação dessas áreas tornaria o espaço mais dinâmico e democrático. “Acredito que o uso dos caixões perdidos da Rodoviária é uma opção viável e de fomentação da vida urbana no coração da cidade. Desde que preservadas as premissas urbanísticas e de tombamento, a intervenção neste local da cidade pode contribuir para a melhoria do espaço e da vida pública.”

O motorista de ônibus Adalto Alcântra, de 34 anos, crê que uma intervenção possa solucionar muitos dos problemas diários dos brasilienses que passam por lá. “Se podem ser utilizados, esses espaços deveriam ter uma ocupação. Aqui ficam muitos ambulantes irregulares que colocam as mercadorias no chão e atrapalham todo mundo que passa, sem contar que tem o problema do imposto, que eles não pagam. Se tivessem mais lojas para eles, quem sabe isso não mudaria.”

Mas tanto Adalto quanto os estudantes Thiago e Munike acham difícil uma mudança. Suyene também pondera, dizendo que primeiro devemos preservar edifícios que precisam de socorro, como a própria Rodoviária. “Mas a ocupação dos caixões é uma proposta audaciosa, pois precisa ser respeitosa com a cidade tombada e discreta visualmente para gerar apenas impactos positivos.”

Barreiras

Como lembra a arquiteta, o tombamento da área exige cautela. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), “para intervenções físico-arquitetônicas dessa natureza na Rodoviária, ou em outro espaço do Conjunto Urbanístico de Brasília, o Iphan deverá ser consultado para análise técnica do projeto de intervenção a ser proposto”.

Em 2003, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) elaborou uma proposta de revitalização que incluía uma ocupação dos caixões. A ideia era implantar “três níveis de estacionamento com 845 vagas por nível, totalizando 2.535 vagas no lado sul e 2.535 no lado norte”, como dizia o documento a que o Correio teve acesso. O órgão chegou a realizar relatórios técnicos na época para discutir as obras de ampliação das vagas, mas elas não saíram do papel. Suyene Arakaki acredita que essa destinação para o local não resolveria os problemas. “É uma opção que desafoga e alivia a questão viária dos ministérios e do Setor de Diversões, mas só é válida se os estacionamentos localizados na plataforma superior forem transformados em áreas públicas de livre circulação de pedestres e essas grandes praças forem contempladas com áreas de lazer, cultura, valorizando pessoas e não veículos.”

Operário analisa estrutura interna do %u201Ccaixão%u201D da Rodoviária (Novacap/Divulgação)
Operário analisa estrutura interna do %u201Ccaixão%u201D da Rodoviária


Possibilidades

Valorizar pessoas foi o pensamento de Ilana Zeigerman, 24. A arquiteta e urbanista elaborou uma proposta de ocupação que começou desde a reflexão sobre o espaço até a projeção de como poderiam ficar os caixões perdidos. “O projeto inteiro foi desenvolvido pensando nos usuários locais da plataforma e, por isso, desenvolvi intervenções efêmeras”, contou. Procurando dar voz aos brasilienses que passam ou moram no espaço, ela conversou com várias pessoas e deixou cartazes e gizes nas paredes. As perguntas eram: “O que poderia ter atrás desse muro?” e “O que você sente falta na Rodoviária?”.

As respostas foram as mais variadas possíveis. Os usuários do transporte público da capital manifestaram o desejo por mais segurança, limpeza, bancos e estruturas diversas. Quando questionados sobre o que estaria dentro dos caixões, se arriscavam menos, mas soltavam a imaginação. “A melhor experiência foi a de um garoto de 13 anos em condições de rua que virou e falou com o peito cheio de esperança ‘Podia ser uma escola’”, contou Ilana. Ela também colocou pôsteres nas cerâmicas com imagens de possíveis usos, o que gerou ainda mais curiosidade.

Para a arquiteta, os caixões podem ser mais do que estacionamentos. “Após um estudo voltado para identificar padrões nas respostas do público avaliado, identifiquei que os principais elementos carentes eram o acesso à higiene pessoal segura e em boas condições, espaços de convivência e lazer, alimentação saudável e acessível, serviços sociais prestativos, equipamentos urbanos adequados no local e um grau menor de dificuldades na circulação e percurso dos pedestres.”

Por isso, ela elaborou um projeto com quatro usos distintos. O espaço perto do Conic seria um centro esportivo, enquanto abaixo, próximo ao Touring Club, poderia ser construído um centro de atendimento social. Do outro lado, perto do Conjunto Nacional, seriam espaços de alimentação, comércio e um centro de interação.

“Brasília tem 2,6 milhões de habitantes e, todo dia, cerca de 500 mil pessoas passam pela plataforma central. Portanto, 20% de toda a população da capital deixam suas pegadas. Então, definitivamente, o GDF precisará repensar os usos daquela região, principalmente pelo aumento do fluxo de pedestres, ciclistas e veículos, além demanda atual existente”, opinou Ilana.

A Novacap informou, por meio de nota, que, em 2003, produziu parecer técnico sobre a situação das estruturas nos locais indicados. Mais tarde, em 2015, fez ainda um projeto de recuperação estrutural das praças sul e norte. Nas duas ocasiões, de acordo com a companhia, foi sugerida a ocupação dos espaços não utilizados de sustentação dos viadutos, mas, “por motivos que a Novacap desconhece, a sugestão não foi acatada pelos órgãos competentes durante as gestões anteriores”.

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