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Especialista alerta para protecionismo europeu: 'O produto brasileiro tem preço e qualidade melhor'

Especialista alerta para protecionismo europeu: 'O produto brasileiro tem preço e qualidade melhor'Foto: Pixabay

Em meio às negociações para a ratificação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE), um grupo mostra grande resistência ao novo tratado: os empresários do agronegócio da Europa.

Portal Sputnik Brasil - 27/02/2021 - 11:06:21

Para Leonardo Trevisan, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo, esta resistência tem uma razão principal: o medo da concorrência com os produtos sul-americanos, sobretudo os brasileiros.

"O que eles receiam é a possibilidade de observar que o produto brasileiro tem preço e qualidade melhor. É isto que os produtores europeus não desejam que aconteça", diz Trevisan, em entrevista à Sputnik Brasil.

Em vídeo veiculado nas redes sociais no início de fevereiro, gigantes europeias do agronegócio mostraram motivos pelos quais a UE não deveria assinar o acordo com o Mercosul. Segundo os vídeos, o tratado traria diversos prejuízos para a Europa. O mesmo acontece com produtores de açúcar, que dizem que o acordo entre os blocos impactaria diretamente a vida de muitos trabalhadores europeus.

Alertas como estes vão ao encontro da pressão feita pela Europa, sobretudo pelo presidente francês Emmanuel Macron, sobre o governo brasileiro em relação ao que é o maior entrave para a ratificação do acordo: a política ambiental. Atualmente, a UE e o governo brasileiro negociam o estabelecimento de um compromisso ambiental extra para convencer governos europeus e parlamentos a ratificar o tratado.

"A principal tarefa do Brasil é não permitir qualquer reabertura das negociações, qualquer fatiamento das negociações, qualquer divisão deste processo", avalia Trevisan.

Brasil virou 'culpado por retrocessos' na política ambiental

Segundo o especialista, há dois pontos em que o governo brasileiro deve focar para que cumprir este objetivo. O primeiro deles é mostrar à Europa e ao mundo que o Brasil tem leis ambientais e demonstrar, com provas e evidências, que elas estão sendo cumpridas. "Mas para isto, precisamos mudar nosso comportamento", diz Trevisan, referindo-se à postura do governo Bolsonaro quanto a questões ambientais.

Como exemplo de pontos em que é necessário mudar, o professor cita um fato recente: nesta quarta-feira (25), o Exército e a Polícia Federal entraram em litígio sobre quem deveria fazer a segurança da maior apreensão da história do Brasil de madeira ilegal, conforme publicado pela Folha.

"Um confronto entre duas instituições do Estado brasileiro para proteger a Lei? Isto não fica bem, não fica conveniente. Precisamos mostrar ao mundo que cumprimos as leis que temos", ressalta o especialista.

Voluntário tenta apagar fogo na rodovia Transpantaneira em Poconé, no Mato Grosso. O Pantanal foi atingido por recorde de queimadas em 2020

Outro ponto sensível para a negociação entre sul-americanos e europeus é a mineração em terras indígenas. Segundo Trevisan, o Brasil precisa ser mais efetivo em controlar a exploração mineradora em terras indígenas: um estudo conduzido pelo Instituto Escolhas e divulgado nesta quinta-feira (25) mostra que o número de pedidos para a pesquisa mineral de ouro em terras indígenas bateu recorde em 2020.

"Nos últimos anos, […] o Brasil passou da condição de ator de avanços na questão ambiental para a posição de culpado por retrocessos. Esta mudança […] traz danos de imagem muito graves aos produtos brasileiros, não só aos produtos do agronegócio. Recuperar esta posição de protagonismo favorável em questões ambientais é talvez a questão mais urgente da posição internacional brasileira atualmente", explica Trevisan.

Garimpeiros trabalham em um garimpo no rio Rato, afluente do rio Tapajós, no Pará

País pode assumir 'posição mais ativa em relação às negociações'

Para Trevisan, o Brasil tem perdido diversas oportunidades de recuperar a condição de protagonismo desde a assinatura do documento que encaminhava o tratado com a União Europeia, em junho de 2019. Mais uma oportunidade, no entanto, parece aparecer para o Brasil. Segundo o especialista, Bruxelas já percebeu que terá de competir com a economia chinesa, cada vez maior e mais influente em todo o mundo. Caso a UE perca influência na América Latina, a China pode ocupar o espaço que atualmente é da Europa.

"Esta posição abre uma possibilidade para o que o Brasil haja de uma outra maneira e tenha uma posição mais ativa em relação às negociações", diz Trevisan.

Para que o Brasil volte a ocupar um destaque central nos debates ambientais, no entanto, o país precisa melhorar sua imagem internacional, oferecendo garantias reais de proteção ambiental. A solução para isso, segundo Trevisan, é simples: basta seguir a própria Constituição nacional.

"Não é isso o que temos feito. […] Somos vulneráveis sem necessidade de ser. Se nós apenas cumpríssemos as leis que nós temos, talvez tivéssemos todos os argumentos necessários para rebater todas estas acusações [de prejuízo ao meio ambiente]", finaliza o professor.

As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação

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