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'Estou indignada e com raiva', diz Zélia Duncan, prestes a lançar álbum que reflete momento atual

'Estou indignada e com raiva', diz Zélia Duncan, prestes a lançar álbum que reflete momento atualFoto: Zélia Duncan. Foto: Denise Andrade

Leia abaixo a entrevista

Por Sonia Racy - Jornal O Estado De S. Paulo - 04/05/2021 - 11:31:52

Onde é que isso vai dar?’ poderia facilmente ser a pergunta que fazemos para o nosso vizinho, colega de trabalho ou amigo, mas é o nome do primeiro single do álbum que Zélia Duncan lança em maio. Gravado durante a pandemia, o disco é, entre outras coisas, “um documento” do momento difícil. “As músicas refletem esse estado de espírito”, diz ela. Morando em São Paulo pela primeira vez, após se casar com a designer Flávia Soares, a carioca segue a receita de “viver um dia de cada vez” para lidar com o isolamento e passa por momento agridoce ao completar felizes 40 anos de carreira em meio à crise da covid. “Se eu for pensar ‘pô, estou tão feliz de lançar esse disco, mas não vou poder fazer shows, não vou poder encontrar as pessoas, viajar para as cidades’, não vai dar”, conta ela à repórter Marcela Paes. Leia abaixo a entrevista.

Como está a vida em SP?
Eu me casei e vim para cá. Nunca morei aqui, mas ainda não aproveitei, porque estou dentro de casa. Convivo com essa cidade há décadas. No meu primeiro álbum tem a música Lá Vou Eu, que fala de São Paulo. Sempre foi um lugar em que me senti bastante em casa. Agora estou esperando me vacinar, esperando o Brasil tomar vergonha na cara pra gente poder viver.

Recentemente sua mãe, que tem 85 anos, e seu padrasto, de 97, pegaram covid. Como foi isso?
Foi muito assustador. Eles já tinham se vacinado com as duas doses. Minha mãe ficou com febre, perdeu o olfato, não sei nem te explicar o medo que isso deu. Tenho dois irmãos que moram no Rio, mas ficamos sem visitá-la, gerenciando tudo por telefone, os exames, médicos. O fato dela ter tomado a vacina segurou muito a onda, ela teve sintomas mais leves. Uma coisa muito difícil foram as pequenas crises de pânico que minha mãe teve. Mas na semana passada chegou o exame dela e comemoramos, porque a imunidade está super alta.

Imagino que tenha sido aflitivo não poder estar perto.
Sim, mas a maior aflição é estarmos lidando com uma doença que não conhecemos. Hoje em dia todo mundo já perdeu alguém próximo, é muito aflitivo. E ainda mais você pensar num idoso, que passou por tantas coisas…

Além do medo, o que você sentiu? Bateu indignação?
Eu estou com raiva há muito tempo. Não é só por causa da minha mãe. Com a minha mãe eu tive um medo pessoal diferente, mas estou indignada e com raiva dessa situação. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de sensibilidade e solidariedade, está com raiva. Quem gosta do Brasil está com raiva. Se não está, é porque se beneficia de alguma forma ou porque está completamente inconsciente.

A pandemia te trouxe algo de bom?
Bom, eu me casei, né? (risos). Acho que percebemos algumas forças que nem sabíamos que existiam em nós. Também acho que as amizades se reforçam. Em relação ao que é humano, eu vejo alguns ganhos na diversidade, na luta, na resistência. Estamos nos unindo em campanhas, queremos ajudar uns aos outros. Estou lançando meu álbum também, que vai ser um documento desse período. Componho com as pessoas, com os parceiros, estou escrevendo. Mas tem dia que eu acordo e só quero, sei lá, tomar um frontal e me deitar de novo.

Acho que todo mundo fica desanimado, no mínimo.
Sou privilegiada porque consegui provisionar alguma coisa durante a minha vida, mas tenho os meus limites, como todo mundo. Estou procurando entender e aprender. Desde o primeiro momento digo, e continua valendo, a gente precisa viver um dia de cada vez, porque senão a gente não vai aguentar. Se eu for pensar ‘pô, estou tão feliz de lançar esse disco, mas não vou poder fazer um shows, não vou poder encontrar as pessoas, viajar para as cidades’, não vai dar. Esse aprendizado é importante, embora doloroso. Nós estamos vivos e a vida é realmente o nosso maior dom.

Como foi o processo de gravar o álbum durante a pandemia?
Olha, vou ser sincera, na maneira de compor não mudou nada. O Juliano Holanda, meu parceiro nesse disco, mora em Recife, então a gente compôs do jeito que faríamos se não existisse a pandemia, que é por WhatsApp. Conversamos, cristalizamos algumas coisas que viram música, ele me manda a letra, eu mando a letra. É muito emocionante, até, porque é imediato, sabe? Vamos fazendo esse quebra-cabeças. Isso já é um jeito de compor dos tempos de hoje.

Você já tinha essa prática?
Já. Antigamente eu mandava a letra escrita à mão para o Christiaan Oyens, que é o meu parceiro desde a primeira fase de sucesso. Aí, um belo dia, comecei a digitar e imprimir. Ele estranhou e falou: ‘eu preciso que você faça com a sua letra’ (risos). E a minha letra é horrível! Agora a gente manda música o tempo todo, imagens viram clipes, coisas que a gente mesmo grava. Tudo está bastante diferente. Mas o fato de estarmos impedidos é que muda o jeito de compor. Não é exatamente a maneira de fazer, mas não podermos nos encontrar muda o tipo de letra. E a gente gravou dentro de casa, então o resultado é diferente.

Essa melancolia do isolamento está presente nas músicas?
Bastante. O primeiro single que estamos lançando se chama Onde É que Isso Vai Dar?. É a pergunta que a gente está se fazendo há mais de um ano, não só os artistas, todos nós. Quando eu vou poder estar com a minha mãe? Como a gente vai resolver essa situação? As músicas refletem o estado de espírito que estamos.

Você tem usado o Instagram para se comunicar com os seus fãs de forma bem direta. Você expõe sua visão de mundo, suas opiniões. Se sente vulnerável por estar tão aberta?
Fui aprendendo a estar ali. Pensei que não era possível que o mundo, que nós, estivéssemos tão desencontrados. Comecei a conversar pra tentar entender onde é que posso melhorar. Tenho medo às vezes, claro, mas o medo não pode ser a sua comissão de frente na sua vida. É mais importante correr o risco de falar, tentar encontrar as pessoas e, eventualmente evoluir, do que escolher o medo.

Como está sendo essa troca?
Incrível. Conheci um monte de gente legal. Eu também bloqueio as pessoas sem problema nenhum, não estou aqui pra convencer. Quem nasceu pra ser hater vai morrer na lama, sabe? As pessoas sombrias têm a ilusão de que na internet elas têm realmente um palanque, mas é só um degrau para eles mesmos. Não tenho tempo a perder com essa gente. Outro dia eu fiquei pensando quantos milhares eu já não bloqueei (risos)?

Você completa 40 anos de carreira. Consegue destacar o momento mais importante dessa trajetória?
Difícil! Tem muitos momentos. O meu encontro com o Christiaan Oyens (parceiro musical) foi um grande marco. Ele me trouxe o mundo pop, me ensinou o que era um refrão, porque eu tinha medo de refrões (risos). Também destaco meu primeiro show no Sesc Pompeia. Foi a primeira vez em que ouvi a plateia cantando minhas músicas. Não posso reclamar da minha vida, tive tantas alegrias. Fiz um álbum só de Itamar Assumpção, fiz um espetáculo de Luís Tatit, outro ídolo. Tenho um samba até com Arlindo Cruz, já cantei com a Beth Carvalho, com o Paulinho da Viola…

Teve alguma fase que considera ruim?
Sim, um monte. A época do álbum Eu me Transformo em Outras foi um momento de entressafra pra mim, e eu acabei fazendo esse álbum que foi revolucionário na minha vida. É como a música que eu gravei da, Alice Ruiz e do Itamar, (Assumpção) ‘Come on, baby, transformar esse limão em limonada, passar da solidão pra doce amada, pegar um trem pra próxima estação…’. Eu sempre peguei o trem para a próxima estação. Podem dizer que todo mundo faz isso, mas fazer em público é um pouquinho mais difícil.

Você recentemente participou de um filme sobre visibilidade lésbica com a Bruna Linzmeyer. Como enxerga a situação LGBTQI+ no Brasil atualmente. Melhoramos?
A gente tem alguns ganhos no sentido da visibilidade. Alguns passos foram dados mas isso não significa que o sofrimento arredou, significa que estamos falando mais sobre ele. Mas eu entendi também, de uns bons anos pra cá, a importância da visibilidade. Fica todo mundo assim ‘ah, lá vem de novo falar desse negócio’. Gente, é a nossa vida, corremos risco de vida.

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