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'Eu sou evangélica e a Bíblia fala de gênero', diz Benedita da Silva

'Eu sou evangélica e a Bíblia fala de gênero', diz Benedita da SilvaFoto: Wikipedia

Deputada federal, que é evangélica, vê retrocesso na política para mulheres, mas destaca atuação da bancada feminina na Câmara

Estadão Conteúdo - 26/10/2019 - 16:05:01

De vereadora do Rio a ministra da Assistência e Promoção Social no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, passando pela atuação na Assembleia Constituinte e no Senado Federal. Com mais de três décadas de atuação, a hoje deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) acompanhou todo o movimento de ampliação da participação política das mulheres no País. Segundo ela, foi um processo complicado até se chegar à bancada atual na Câmara, com 77 mulheres, um recorde até agora.

Benedita integrou o Lobby do Batom, como ficou conhecida a atuação conjunta de deputadas na Constituinte. Eram apenas 26 mulheres em um grupo com nada menos do que 559 parlamentares. E a participação das mulheres, aparentemente, não tinha sido prevista no projeto arquitetônico do Congresso. “Havia questões até de ordem doméstica. Não havia banheiro feminino no plenário.” A deputada revela ter sofrido diferentes episódios de machismo e racismo no Parlamento. “Já mandaram bilhete para mim, no papel higiênico, para me dizer que meu lugar não era aqui.”

Evangélica, Benedita vê retrocesso na gestão de Damares Alves à frente do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. “Inventaram de combater uma tal de ideologia de gênero, que até hoje eu não sei o que é”, afirma. “A Bíblia fala de gênero. A palavra era essa.”

SÉRIE

Projeto do site Capitu em parceria com o Facebook e o International Center for Journalists, a websérie Deixa Ela discute diferentes aspectos do cotidiano das mulheres na sociedade brasileira. Em nove capítulos, trará entrevistas exclusivas com personalidades como as deputadas Joice Hasselmann e Tabata Amaral, a artista Daniela Mercury e a jogadora Cristiane, entre outras.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Na última eleição, havia 31% de candidaturas femininas. Mas só 15% dos cargos em disputa ficaram com elas. Como explicar a diferença?

As mulheres gostam de política, têm suas bandeiras, mas é muito difícil, financeiramente, se candidatar. É preciso ter abertura dentro dos partidos, para que uma catadora de reciclagem, por exemplo, também possa chegar até aqui. Os partidos não têm como cultura fazer recortes de representação de mulheres, de negros. Para que a participação feminina na política seja ampliada, então, é preciso fortalecer a formação, qualificar e ter o recurso. Nós ainda somos minoria, em que pese termos tido um aumento da representação nas eleições de 2018. Logo, a nossa representatividade é muito pequena.

A senhora é favorável a reservar cadeiras no Parlamento para mulheres?

Sou inteiramente favorável. Se nós não garantirmos isso, não vamos dar o pontapé inicial. Por exemplo, eu luto para que, um dia, não tenhamos política de cotas para negros. Você acha que eu gosto disso? Eu quero uma sociedade que a gente não precise de cotas, porque isso já vai estar no imaginário das leis do País.

Como as mulheres deputadas, da esquerda à direita, têm se articulado para a aprovação de pautas de interesse comum no Congresso? Existe essa união?

A cumplicidade existe. A bancada feminina se reúne e discute todo e qualquer assunto, como orçamento, reforma política, reforma econômica, ainda que tenha divergência ideológica. Tudo começou na Assembleia Constituinte. Tivemos o Lobby do Batom (como foi apelidada a participação feminina durante a elaboração da Constituição) e tudo vem em uma crescente. Não havia banheiro feminino no plenário. Imaginaram que as mulheres não estariam aqui. Mas hoje, entre as mulheres, ainda existem projetos em que não há consenso.

Como a senhora avalia a atuação da ministra Damares Alves? Observa algum avanço?

Não há avanço. Há retrocesso. Inventaram de combater uma tal de ideologia de gênero, que até hoje eu não sei o que é. Eu sou evangélica e a Bíblia fala de gênero. A palavra era essa. Nós, mulheres, temos grandes conquistas, até mesmo na igreja. Esse mundo é das mulheres. Nós vamos chegar lá. Mas vamos encontrar resistências também, né? Os homens se sentem ameaçados porque eles sempre estiveram no comando.

A senhora já passou por alguma situação de machismo no Congresso?

Claro. Tem o fato de ser mulher e também o fato de ser negra. Assumir exatamente o que você é incomoda um pouco, principalmente quando a gente fala das relações raciais. Parece que nós somos vítimas. E somos. Vítimas de todo um sistema que colonizou e quer voltar a colonizar. Quanto mais cresce essa violência, mais certeza nós, mulheres, temos de que precisamos estar nesses espaços. Mesmo que a gente sofra discriminação, temos uma tribuna para denunciar.

Algum caso específico?

Já mandaram bilhete para mim, no papel higiênico, para dizer que meu lugar não era aqui. Passei por muitas coisas, as cantadinhas, como se tivesse chegado naquele espaço uma pessoa disponível. Eu sou uma pessoa vitoriosa, respeitada por muitos segmentos, mas machismo é machismo. Racismo é racismo. E você encontra ambos em qualquer lugar.

Como incentivar mulheres a se candidatarem?

Em um primeiro momento, a atuação não precisa nem ser partidária. Foi o meu caso: eu era do movimento de favela, do movimento negro, do movimento feminino. Não era nem movimento feminista. Mas é preciso estar no dia a dia da luta das mulheres. Precisamos ter mulheres, mas se tivermos muitas que não são engajadas na luta, elas serão contra todo e qualquer projeto que diz respeito às mulheres. O discurso da meritocracia não entende que ninguém entra por cotas, mas que é preciso garantir, no partido, a representação. No PT, nós brigamos pelo espaço da mulher, do LGBT, da juventude, do negro, do indígena. E a discussão teve êxito.

Que mensagem deixaria para elas?

Não tenham medo de ir para um partido, de estar num movimento, de se colocar. Então fale e não te cales, mulher. / COLABORARAM JOÃO ABEL E FELIPE LAURENCE, ESPECIAL PARA O ESTADO.

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