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Falar com os olhos

Falar com os olhosFoto: Estadão

Tecnologia

Estadão Conteúdo - 24/07/2020 - 07:44:36

Quando, no futuro, a humanidade relembrar imagens de 2020, a máscara estará presente em fotos de família, vídeos e arquivos de televisão. Com o relaxamento do isolamento social em muitas cidades brasileiras, inclusive em São Paulo, ela virou item obrigatório – e importante medida de prevenção contra propagação do novo coronavírus – em escritórios, shoppings, escolas, universidades, parques, equipamentos culturais. Isso mudará a maneira como iremos nos comunicar?

De acordo com o psicólogo Mateus Donia Martinez, o ser humano já usa, no sentido metafórico, máscaras sociais de acordo com os papéis que desempenha, seja na família, trabalho ou em relacionamentos com amigos – o que inclui a forma de falar, de se vestir, de se posicionar diante dos mais diferentes assuntos e até em posições corporais –, que servem para preservar a individualidade e de proteção em um ambiente desconhecido. Agora, com o acessório concreto obrigatório, haverá mais uma camada, que irá encobrir nossas expressões e poderá separar as pessoas em novos grupos.

“O uso da máscara poderá virar uma norma social ou um código de conduta. Mostra responsabilidade e empatia com o outro, o cuidar de quem está ao seu redor”, diz Martinez. O psicólogo afirma que a adesão ou não da máscara e o modo como ela será usada – além do reforço dos hábitos de higiene – criará novos agrupamentos que se mostrarão quando as atividades sociais de fato voltarem ao normal. “É ela que nos tornará circulável.”

Para o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA), da USP Vinicius Romanini, a interferência na comunicação é inevitável, pois a máscara esconde expressões ou gestos faciais, por onde se dá boa parte da comunicação intersubjetiva, sobretudo sua dimensão emocional e afetiva. “Muitas vezes, aproximamos as mãos ao rosto ou mesmo tocamos partes dele em associação com gestos faciais. Tudo isso é agora desaconselhado agora, o que gera frustração e um déficit comunicacional.” A solução, segundo ele, é ser mais explícito naquilo que se quer comunicar. “As pessoas com máscaras precisam usar mais a linguagem oral, falar mais abertamente o que antes era comunicado implicitamente. O que antes era um sorriso silencioso agora precisa ser uma risada sonora, ou então uma declaração aberta, do tipo “que engraçado!”, explica.

É essa percepção que tem o mineiro Emannuel Carlos Ferreira Barros, de 36 anos, que há dois mora em Rousset les Vignes, no sul da França, onde trabalha em um centro médico psicopedagógico. Ele também é comerciante em cidades vizinhas, com uma barraca que vende pães feitos com fermento biológico. Com o comércio de rua já liberado por lá, Barros viu a freguesia voltar, mas receosa. “Mesmo com as máscaras, cobrindo uma parte do rosto, você consegue ver aquele olhar apreensivo”, diz. Ele conta que amigos e clientes reclamam que a máscara atrapalha a comunicação e as vendas, problemas que ele tenta contornar com bom humor. “Sou um palhaço por natureza, é assim que tento chamar a atenção do público.”

Emannuel usa o humor para driblar os problemas do distanciamentoArquivo Pessoal

Morando há cinco anos em Montijo, cidade na área metropolitana de Lisboa, o carioca Felipe Barbosa Soares, de 33 anos, trabalha em uma loja de telefonia celular, conta que o período de adaptação de medidas sanitárias contra o coronavírus foi complicado, com máscara, viseira, luvas. Os clientes estranharam: queriam ultrapassar a faixa que os distanciavam do balcão, reclamavam que não podiam chegar mais perto. “Você sai do seu normal, precisa falar mais alto para ser compreendido. O atendimento passou a ser mais demorado”, diz Soares.

Para o psicólogo Mateus Donia Martinez, essa fase de adaptação requer paciência, seja nos relacionamentos pessoais ou profissionais. “A boca, nosso contato do mundo interno com o externo, terá uma barreira. Por isso, as pessoas precisarão fazer um esforço extra para se expressar de forma mais clara, tornar a comunicação mais acessível ao outro e ser mais receptivo também.”



Tecnologia

Já a antropóloga Ana Laura Gamboggi acredita que a relação das pessoas no pós- pandemia muito mais calcada na tecnologia. “As plataformas digitais de comunicação permitiram que reuniões de organizações e corporações diversas seguissem ocorrendo. Provavelmente boa parte das reuniões não voltará a ser presencial, o que irá afetar a forma como as organizações existem espacialmente e se relacionam com seus colaboradores.” A mesma análise é feita pelo professor Vinicius Romanini: se o distanciamento se prolongar por muito mais tempo, a internet será o lugar de socialização para muitos e isso pode acelerar um processo que já existia.

E qual a consequência disso tudo? Segundo Romanini, é o “esfriamento” das relações sociais, algo contra a natureza de países como o Brasil. “Os espaços públicos – praças, calçadas, etc. – tendem a se tornar áreas cada vez mais neutras do ponto de vista da interação e comunicação social. Já não se ouvem mais ‘Bom dia!’ falados de forma efusiva, os feirantes já não gritam suas ofertas nas feiras livres, os vendedores já não se aproximam das pessoas para convidá-las a entrar e conhecer sua loja. Esses comportamentos mais comedidos são mais comuns em sociedades como a da Alemanha ou do Reino Unido, mas, em países latinos, vão contra a naturalidade da comunicação normalmente feita.”


Sorrir com os olhos

Quando viu na imprensa quem um médico americano colocara uma foto em seu crachá para melhorar a comunicação com os pacientes de covid-19, Emílio Bueno, diretor do hospital e maternidade Madre Theodora, em Campinas, no interior de São Paulo, decidiu propor que seus colaboradores fizessem o mesmo. A ideia foi aceita na hora e cada um escolheu a própria foto do crachá, agora em tamanho bem maior que os pequenos e burocráticos identificadores. “Essa humanização é importante para a recuperação dos pacientes. Além disso, passamos a ideia de que não temos medo de lidar com eles, mas sim que estamos protegendo-os também”, diz Bueno.

O enfermeiro Igor Schneider, que trabalha no Madre Teodora, escolheu uma foto de um momento de lazer, em que estava feliz, para, segundo ele, transmitir segurança e alegria aos pacientes, algo que os equipamentos de segurança, como máscaras, capacetes, luvas e avental podem esconder, conferindo-lhe uma aparência mais robótica.

Enfermeiro Igor escolheu uma foto feliz em seu crachá para transmitir segurança e alegria aos pacientesArquivo Pessoal

De acordo com ele, o resultado da ação é visto na prática. “Outro dia chegou um paciente muito mal, prestes a ser entubado. Ele segurou na minha mão, pegou no meu crachá, olhou minha foto e disse ‘como você é forte’. Isso lhe deu conforto, confiança em mim”, conta, afirmando que o caso teve um final feliz. “Quando usamos máscaras, aprendemos a sorrir com os olhos, e isso, às vezes, é melhor do que dar uma gargalhada”, diz.

A dermatologista Cibele Hasmann comunga da mesma ideia: é preciso sorrir, mesmo de máscara. Após se sensibilizar ao assistir os noticiários da TV com o número de mortos vítimas da covid-19 no Brasil, decidiu lançar um desafio em suas redes sociais. Com as hashtags #ismile #eyesmile, pediu que as pessoas postassem fotos usando máscaras, mas que espalhassem sorrisos com os olhos. “Parece que o rosto se resumiu ao terço superior, não vemos mais a boca, nariz, bochechas um dos outros. Mas olhos também sorriem. Penso que podemos continuar a distribuir simpatia com eles”, diz. A campanha ganhou adesão, primeiramente, dos pais de Cibele, depois, de companheiros de profissão e, agora, ela já recebe fotos de pessoas que não conhece, mas que se sentiram sensibilizadas pelo apelo. De volta ao trabalho desde o dia 22 de abril, depois de mais de um mês com o consultório fechado, Cibele diz que não sente dificuldade em se comunicar com os pacientes, apesar do uso obrigatório da máscara. “Não vejo nada negativo no uso dela. Sinto que estão todos conscientes de que é uma proteção necessária”, afirma.

‘Podemos continuar distribuindo simpatia pelos olhos’, diz CibeleArquivo Pessoal


Atento aos sinais

O ator e mímico Fernando Vieira concorda que, com parte do rosto coberto, a comunicação sofre uma perda. Por isso, cabe ao emissor se expressar de uma maneira mais clara para que possa ser entendido. Do outro lado, o receptor precisará estar mais aberto para que a mensagem seja compreendida.

“Nesse caso, o que vai prevalecer é a leitura corporal. Será preciso observar a postura, expressões (dos olhos, principalmente), gestos e atitudes”, diz Vieira. Ele dá alguns exemplos: um corpo mais fechado, com ombros retraídos, indicam medo, ao contrário do mais aberto, com gesto amplos.

A observação dos olhos também pode ajudar na tarefa. “Eles reforçam a emoção e relevam o intelecto. Dificilmente mentem”, diz o ator. O sorriso, por exemplo, será percebido quando os olhos ficarem mais apertados, conforme a movimentação dos músculos. Uma expressão de surpresa ou susto será notada quando as sobrancelhas forem erguidas. A dúvida, quando elas se franzem. O incômodo com uma situação poderá se revelar com um ritmo maior no movimento de piscar os olhos. Já a cumplicidade é demonstrada com o piscar de apenas um dos olhos.

Vieira ainda chama atenção para um gesto de comunicação muito comum no Brasil, que, por ora, também perderá sua função: o abraço, que, por conta das normas de distanciamento, devem ser evitados. “A alegria é expansiva. Quando se está alegre, você quer abraçar o outro, ou tocar de alguma forma. Você busca a cumplicidade para esse sentimento”, diz. A solução? De novo, se expressar com clareza: eu estou alegre e quero dividir isso com você.


Leitura labial

Para muitos, porém, um sorriso, embora seja importante, não é o suficiente para que a comunicação seja feita de maneira satisfatória. O uso das máscaras gera contratempos para surdos e deficientes auditivos que usam a leitura labial para se comunicar, ou seja, que conhecem a língua portuguesa e não usam apenas ou não são alfabetizados em Libras – a língua brasileira de sinais. O professor de história Joelson Adonias, que leciona por meio de Libras no Instituto Santa Teresinha, especializado em surdos, diz que, de fato, a boca coberta dificulta quem apenas usa a leitura dos lábios. “Na Libras, o foco principal está nas mãos, apesar de usarmos o rosto, por exemplo, quando queremos indicar a palavra ‘cheio’. Mas, para quem depende de ver os lábios, a comunicação fica prejudicada’, diz.

A faturista Mara Rizzi Carlotti, de 52 anos, sabe bem o que é isso. Com déficit auditivo desde que nasceu, ela agora tem dificuldade para entender o que as pessoas dizem. “Sinto dificuldade em todos os lugares, menos na TV, pois é legendado”, diz ela, referindo-se ao uso de máscaras em reportagens. Maria diz que a solução que encontrou, por hora, é pedir para que a pessoa tire a máscara, mesmo com o receio por conta do coronavírus.

A professora de Libras Daniela Cury, 42 anos, que é surda, diz que, nesse novo normal, tarefas básicas como ir a uma farmácia ou supermercado se tornou uma “agonia” e acentua um problema já existente: a limitada comunicação entre os ouvintes com os surdos. “Normalmente, eu já tenho que pensar em todas as possibilidades para tentar me comunicar. Plano A, Libras; Plano B, leitura labial, Plano C, escrever em um papel”, diz Daniela. “Não sabemos quanto tempo a pandemia vai durar. Fico imaginando como será essa minha nova vida”, diz. Para Daniela, o ideal seria que profissionais do comércio e da área da saúde adotassem o uso de máscaras com material transparente na região da boca. “É uma ótima solução. Aliás, é bom deixar claro: nós (surdos) não somos limitados, é a sociedade que nos limita”, diz.

De acordo com o infectologista da Sociedade Israelita Albert Einstein, Moacyr Silva Júnior, não é possível prever por quanto tempo ainda teremos que usar as máscaras. “Mas será por um longo período”, afirma.


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Editor executivo multimídia: Fabio Sales / Editora de infografia multimídia: Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia: Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Mariotto / Edição: Adriana Moreira / Ilustrações: Marcos Muller / Designer multimídia: Vitor Fontes

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